segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Seis perguntas para entender a eleição na Grécia

Entenda como o novo momento da Grécia pode afetar a política, a economia e o futuro de toda a Europa

TERESA PEROSA E RODRIGO TURRER

O primeiro-ministro recém-empossado da Grécia, Alexis Tsipras, acena para a imprensa ao chegar a sua residência oficial (Foto: Thanassis Stavrakis/AP)
O novo primeiro ministro da Grécia, Alexis Tsipras, tomou posse nesta segunda, dia 26. Líder do partido de extrema esquerda Syriza, o carismático Tsipras chega ao poder com uma agenda antiausteridade, prometendo renegociar os termos de pagamento dívida grega, fechados pelo governo anterior com a chamada troika – União Europeia, Banco Central Europeu (BCB) e Fundo Monetário Internacional (FMI). Num resultado que superou as previsões de pesquisas e marginalizou os dois principais partidos que governam o país desde a queda dos militares, em 1974, o Syriza conseguiu pouco mais de 35% dos votos, o que lhe conferiu 149 cadeiras no parlamento – duas menos que o necessário para ter maioria absoluta. Durante a manhã, o partido anunciou um acordo avaliado como no mínimo não ortodoxo com a legenda de direita Gregos Independentes, de retórica nacionalista e populista. Os dois grupos concordam com a mudança nas políticas de austeridade. Entenda abaixo o que significa o novo momento da Grécia.
Qual a situação atual da Grécia?
A grande crise financeira internacional atingiu o país europeu em 2009, quando um novo governo assumiu e declarou uma dívida pública de mais de 300 bilhões de euros – 113% do seu PIB e considerada a maior na história moderna. A principal razão atribuída à crise da dívida foi o alto grau de gastos públicos realizados pelo governo grego, em curso inclusive antes da entrada do país no bloco. Discute-se também a potencialização do cenário pelo arranjo do euro, que tenta conciliar sob uma única política monetária países de economias fundamentalmente distintas. Em maio de 2010, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciaram um pacote de socorro de 110 bilhões de euros, condicionado a imposição de cortes nos gastos públicos do país. Em resumo, a Grécia foi socorrida com um financiamento suficiente para manter sua dívida rolando, sem ser perdoada, sob a condição de impor duras medidas de austeridade. Reformas flexibilizaram direitos trabalhistas e tornaram mais fácil a demissão de funcionários. A grande redução nos gastos públicos implicou no cancelamento ou diminuição de programas sociais e no número de servidores públicos. A taxa de desemprego hoje passa dos 25%, sendo particularmente dramática entre jovens – cerca de 50%. Os índices de pobreza aumentaram substancialmente. Protestos contra as medidas eclodiram no país e continuavam frequentes até o ano passado. Foi nesse cenário que o Syriza conseguiu ascender.
Quem forma o Syriza e qual sua orientação ideológica?
Syriza é a sigla em grego para Coalizão da Esquerda Radical. Originalmente, como sugere seu nome, o bloco se formou a partir da junção de partidos gregos de extrema esquerda de diferentes orientações dentro desse espectro político. Em 2012, a coalizão se tornou a principal frente de oposição ao governo de centro-direita da Nova Democracia. Em 2013, o Syriza oficializou-se como partido. Alexis Tsipras, seu jovem e carismático líder, é apontado como uma figura contraditória. Tsipras se valeu do slogan da “esperança”, a semelhança de outros líderes que ascenderam nos últimos anos em situações de crise. O Syriza propõe o fim das políticas de austeridade, colocadas como condição para o financiamento da dívida em 2011, o aumento dos gastos públicos – com saúde e  programas sociais – e a taxação de grandes fortunas. Ele questiona o arranjo político e econômico abraçado pelos partidos de centro-direita e centro-esquerda que cooperaram com a implantação das medidas da troika.
Jovens gregos comemoram a vitória de Alexis Tsipras em Atenas, no domingo, dia 25, e empunham cartazes provocando a Alemanha e a chanceler alemã Angela Merkel, a maior defensora da austeridade fiscal na Europa (Foto: ASSOCIATED PRESSAP)
O que significa a ascensão do Syriza?
Em primeiro plano, expõe  a insatisfação dos gregos com as atuais políticas econômicas alinhadas às diretrizes da União Europeia. Depois de três anos de austeridade imposta pela troika, os gregos esperam reformas econômicas e um alívio nas restrições dos gastos púbicos. Na prática, os gregos deram carta branca para um partido radical mudar de forma radical as políticas de austeridade que vinham sendo postas em prática há pelo menos quatro anos. A ascensão do Syriza significa a chegada ao poder de projetos populistas, pouco ligados ao pragmatismo econômico que marca a centro-esquerda e a social democracia europeias. Entre os projetos do Syriza, estão o fornecimento de energia elétrica gratuita para 300 mil pessoas, ajuda de custo para 300 mil famílias, programa de moradia popular de 30 mil apartamentos, atendimento médico e remédio gratuito para desempregados, além de aumento do salário mínimo de 580 euros para 751 euros.
Quais mudanças podemos esperar a partir de agora?
O maior temor no momento é o calote. O Syriza é contra as medidas de austeridade fiscal negociadas pelo governo grego para receber, após a crise de 2010, 245 bilhões de euros do FMI e do BCE. O partido lançou um programa de governo que inclui, entre outras coisas, uma moratória temporária da dívida pública do país – a ideia seria suspendê-la até a retomada do crescimento. O partido promete ainda uma série de benefícios sociais para a população. O custo do programa, segundo o Syriza, é de 11,3 bilhões de euros – mas seus líderes prometem arrecadar 12 bilhões de euros com ações que estimulem o crescimento da Grécia e o combate à evasão fiscal. Entre as propostas do Syriza, estão o perdão de 50% da dívida pública do país, hoje em 320 bilhões de euros, renegociar o pagamento do restante de maneira “sustentável” e excluir a restrição de investimentos públicos do governo dos compromissos feitos com o Banco Central Europeu (BCE).
O novo premiê grego, Alexis Tsipras, abraça Pablo Iglesias, o jovem líder do partido radical de esquerda da Espanha, Podemos. Temor é que haja um efeito dominó de esquerda na Europa (Foto: Associated Press/AP)
Por que uma mudança no governo grego é importante para União Europeia?
A chegada ao poder do Syriza pode impulsionar movimentos radicais de esquerda que vêm ganhando força em toda a Europa, como o Podemos, da Espanha, um partido que, com menos de dois anos, obteve a quarta maior votação da Espanha em 2014, e ajudou a quebrar a polarização partidária que engessa o país. Para União Europeia e o FMI, um governo do Syriza pode significar um efeito cascata que seria deletério para a economia e a política do bloco. O resultado põe em questão se a Grécia ficará no euro e na União Europeia, e ressalta a rejeição das políticas prescritas principalmente por Berlim nos últimos anos. Com o Syriza no poder, será a primeira vez que um partido explicitamente antiausteridade tomará posse na UE. Para muitos, isso pode empurrar a política europeia para uma era de volatilidade, em que partidos populistas profundamente críticos a Bruxelas e Berlim ganhem força. Pode ser um perigoso precedente para insurgentes antiausteridade no resto da Europa.
Por que eu preciso saber sobre a Grécia?
A Europa e os mercados financeiros olham com atenção o desenrolar de acontecimentos na Grécia. A ascensão do Syriza na Grécia pode desencadear uma nova crise, econômica e institucional, no bloco e em todo o mundo. Primeiro porque, como a Grécia está na Zona do Euro, ela não possui nenhuma ferramenta monetária para poder lidar com a crise. Ela não pode emitir moeda para pagar dívidas. Ela não pode desvalorizar a moeda para poder estimular as importações. E ela não pode mexer na taxa de juros para atrair dinheiro estrangeiro. Essas decisões estão a cargo do Banco Central Europeu, que exerce a sua autoridade pensando na Europa como um todo, não em um país específico. E sem poder mexer em nada disso, resta à Grécia um ajuste fiscal, ou seja, reduzir despesas e aumentar impostos – a famigerada austeridade fiscal. Como o Syriza é contra esse remédio, há risco de moratória. Um calote da Grécia poderia ser o começo de um efeito dominó de quebradeira. As agências de análise de risco vão procurar países em situação semelhante à da Grécia – alguns deles "grandes demais para quebrar", como Portugal, Espanha e até mesmo a Itália. Os investidores fugirão então dos títulos da dívida desses países em busca de refúgios mais seguros, para evitar calotes. Com isso, os países não conseguiriam mais financiar suas dívidas, e se veriam em um beco similar ao grego. Além questão econômica, há um outro fator que torna a ascensão do Syriza um dos momentos mais importantes da Europa nesta década. A austeridade fiscal imposta pela troika à Grécia mostrou ser um remédio amargo e pouco eficaz nos últimos anos. A Grécia não voltou a crescer, sua crise se aprofundou, o desemprego aumentou e as perspectivas são ínfimas para a população. Os efeitos colaterais da austeridade não agradaram os gregos, que colocaram no poder um partido de esquerda que prega o oposto disso. É um importante momento para refletir sobre a eficácia e os limites da austeridade fiscal, que terá efeitos não apenas na Europa, mas em todo o mundo – inclusive no Brasil.

Fonte: Site da Revista Época
http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/01/seis-perguntas-para-entender-beleicao-na-greciab.html

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