terça-feira, 10 de março de 2015

Venezuela: o ideologo do socialismo do seculo 21 diz que o sistema e'inepto; e nao faz autocritica

Um idiota completo, que ao menos reconhece que a sua construção faliu completamente. Queria o quê? Um socialismo que funcionasse? Onde é que isso ocorreu?
Paulo Roberto de Almeida

'Sem reformas, militares chavistas derrubarão Maduro'

Para sociólogo alemão ex-mentor de Hugo Chávez e idealizador do socialismo do século 21, crise econômica e violência urbana derrubaram popularidade do governo
 - O Estado de S. PauloNicolás Maduro: perda do ‘projeto chavista’ custa caro a presidente
Eleito em 2013 após a morte de seu padrinho político, Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, enfrenta uma crise econômica agravada pela queda do preço do petróleo, uma popularidade em torno dos 20% e críticas dentro e fora da Venezuela pela prisão de políticos da oposição, a quem acusa de tentar derrubá-lo. Para o sociólogo alemão Heinz Dieterich, ideólogo do socialismo do século 21 defendido por Hugo Chávez, que nos últimos anos tornou-se crítico do chavismo, o maior risco de golpe vem de dentro do próprio chavismo e não da oposição. "Se não tomar medidas drásticas e corretas para resolver os problemas econômicos e de segurança, perderá o apoio dos militares chavistas, que vão tirá-lo do poder", disse ele ao Estado. A seguir, a íntegra da entrevista, concedida por e-mail.
Qual a avaliação do senhor sobre as recentes medidas econômicas do presidente Maduro, especificamente a criação de uma banda de câmbio flutuante (Simadi)?
Desde o ponto da economia política, é uma medida completamente disfuncional e até idiota, porque joga gasolina no fogo. O volume do Simadi é tão pequeno que não cobre a demanda. Em consequência, exerce uma pressão que eleva o preço do dólar. Isso é evidente no mercado paralelo, onde o preço do dólar subiu 60% em um dia. A diferença do mercado negro para o Simadi já supera os 100 bolívares por dólar (280 a 177). No aspecto político, é uma medida classista em favor dos estratos privilegiados que podem ter fundos e contas em dólares e a favor das empresas transnacionais que podem trocar os seus dólares para pagar trabalhadores com um salário real a nível africano. Novamente, os pobres pagam as contas dos tímidos ajustes neoliberais de um governo absolutamente inepto. 
Por que a popularidade do governo caiu tanto?
Há duas razões. O governo Maduro não resolveu dois grandes problemas que afligem os cidadãos: a economia e a segurança. A inflação do ano passado superou 60%. A de janeiro chegou a 12% ao mês e é possível que em 2015 ocorra uma hiperinflação, o que quer dizer na prática o colapso do sistema financeiro e monetário. Um calote em parte da dívida externa até o fim do ano é possível. Uma taxa de crescimento negativo do PIB, como ocorreu nos últimos anos é provável. A produtividade, a produção e a eficiência na distribuição de mercadorias não se recuperará diante do sistema administrativo atual, que é controlado pelo estado. As receitas públicas do petróleo não se recuperarão nos próximos anos e uma reforma fiscal ou o aumento da gasolina se darão em um ano de debilidade eleitoral do governo. E esse desastroso panorama se repete no setor de segurança. A segunda razão é que a mais de dois terços da população já não acreditam na desculpa do governo, de que isso é resultado da "guerra econômica" dos capitalistas e de Washington. Na prática, quase 80% já não acredita no discurso oficial de Maduro, como dizem as pesquisas sérias. 
Na sua opinião, como os coletivos chavistas e as pessoas mais pobres estão enfrentando a crise. Eles ainda têm confiança no chavismo?
O que foi quase o monolítico Bloco de Apoio Chavista (BAC) nos tempos do presidente Chávez hoje está rachado. Os 20% de apoio que resta a Maduro nas últimas pesquisas é essencialmente dos mais pobres, que, com razão, temem perder as conquistas sociais que tiveram com Chávez. E eles ainda acreditam nas mentiras do governo porque é a única esperança e consolo que lhes restaram diante do futuro neoliberal. Algo como os jesuítas diziam: credo quia absurdum est: acredito apesar do absurdo que é. A classe média está muito decepcionada com o governo e com a oposição e busca o que chamam de "terceira via". Os mais politizados do movimento chavista querem, de um lado, soluções impossíveis como a "ditadura revolucionária" e de outro a reestruturação da troica governante. Até agora tiveram pouco êxito. Um último setor, por fim, se despolitiza e se conforma que não se pode fazer nada. 
Agora o preço do petróleo está em baixa. Por que o chavismo não conseguiu estar preparado para esse cenário?
Foi uma conjunção de fatores que derrubou o preço do petróleo: o gás de xisto, a ruptura da Opep pela Arábia Saudita, a crise mundial e outros. Obviamente, os estrategistas da PDVSA e do governo não previram a gravidade dessa crise porque os fundos de reserva que tinham separado são totalmente inadequados para suportar uma crise dessa natureza. A segunda razão é que todo o programa de substituição de importação via industrialização endógena e a soberania alimentar falhou. Na prática, um gigantesco volume de divisas seguem no exterior sem efeito produtivo na Venezuela. Por último, o desperdícios de recursos, como por exemplo o preço da gasolina, a corrupção e a destruição das cadeias produtivas por uma intervenção estatal absurda e ineficiente e o despreparo do sistema para absorver um choque externo como o atual
Não seria melhor que o chavismo tivesse investido em infraestrutura produtiva, como fizeram Evo Morales e Rafael Correa? Ou as características políticas da burguesia venezuelana não tornariam isso possível?
Sim, era o indicado. E, de fato, Chávez queria potencializar a Venezuela dessa maneira. Mas o único setor onde conseguiu melhorar a infraestrutura foram as Forças Armadas. E, de maneira assistencial, no combate à pobreza e na saúde. A burguesia venezuelana é, de fato, uma das mais parasitárias e improdutivas da América Latina. Sempre viveu da renda do petróleo, como as dinastias feudais-mercantis do Oriente Médio e de sua relação plutocrática com o Estado. A ideia de Chávez era substituir essa classe social falida com cooperativas e setores nacionalistas, o que sempre foi um romantismo. Isso requeria um projeto racional e uma burocracia eficiente de imposição, como o Ministério do Planejamento japonês. Chávez nunca conseguiu criar essa estrutura de direção e controle. 
O que Maduro ganha politicamente com a prisão de Ledezma?
Intimidar a direita golpista, que não acreditava que ele ia se atrever a prendê-lo. Mas isso tem um efeito de curta duração. Ganhou dois ou três meses nos quais Washington e seus aliados golpistas venezuelanos terão de se readequar à nova situação e reconfigurar sua estratégia de desestabilização. Em suas fileiras, Maduro se lança como um marechal de campo que derrota o inimigo. Mas, novamente, é uma vitória de Pirro, porque o efeito é conjuntural. 
Em artigo em janeiro no site aporrea, o senhor apostou que Maduro fica no poder no máximo até 2016, seja por referendo revocatório, renúncia ou intervenção militar. Qual desses cenários é mais provável?
Se não tomar medidas drásticas e corretas para resolver os problemas econômicos e de seguança, perderá o apoio dos militares chavistas, que vão tirá-lo do poder. Há diferentes maneiras de fazê-lo e isso pode ocorrer antes de dezembro desse ano. Se isso não ocorrer, sai em 2016 no referendo revocatório ou eleições antecipados. 
Que motivos teriam as Forças Armadas para intervir?
A perda do projeto chavista original, com seus fortes componentes nacionalista, antiimperialista, bolivariano e social. Chávez deu aos militares uma razão de ser e uma missão secular. Se a perderem, vem o caos e a anarquia. E nada é mais terrível para um militar que a ideia de anarquia. Evidentemente, os oficiais de alta patente perdem também seus enormes privilégios econômicos e políticos atuais, uma vez que fazem parte da classe dominante. 
O que está por trás politicamente da decisão de tirar o ex-presidente da PDVSA Rafael Ramírez do Ministério Do Petróleo, fazê-lo chanceler e depois enviá-lo para ser chanceler na ONU?
Ramírez e Diosdado Cabello sempre foram inimigos porque Cabello é um anticomunista até a morte, enquanto Ramírez é um sobrevivente do socialismo do século 20. Como o ex-ministro do Planejamento Jorge Giordani, representa a esquerda do passado que não entende o socialismo do século 21, mas que, de qualquer forma, são inaceitáveis para um burocrata fazedor de intrigas e autoritário como Cabello. Dado que é Cabello quem manda na Venezuela, uma vez que Maduro nada mais é que a face pública da facção chavista dominante, era só uma questão de tempo até eliminar qualquer vestígio de esquerda no gabinete. A Venezuela está na fase do Termidor. Acabou a fase revolucionária dos jacobinos latino-americanos.
Fonte: Blog Diplomatizzando
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