quinta-feira, 30 de abril de 2015

Martha Medeiros: snack culture


Wagner Brenner, do site Update or Die, postou um texto alarmante. O título: “Socorro, não consigo mais ler livros”. Nele, o autor desabafa dizendo que já foi um leitor obstinado, porém, hoje, se o texto não embalar de uma vez, só com muito esforço ele conseguirá continuar a leitura. A extensão tornou-se um problema. Seu hábito agora é de ler apenas cacos, fragmentos, aperitivos, o que se chama snack culture, informação instantânea em drágeas. Ele admite que perdeu a capacidade de se concentrar.

Caso isolado? É só ver os comentários deixados sobre seu post: estão lá uma infinidade de “comigo acontece o mesmo”, “igual a mim”, “também não leio mais” etc. Algumas pessoas inclusive confessaram ter tido dificuldade de ler o próprio desabafo de Wagner, que foi longo. Mal iniciaram o primeiro parágrafo e já pularam para as linhas finais. Ninguém mais tem tempo a desperdiçar. Quando pegam um livro, os leitores já começam a esbravejar com o autor: “Vai, anda, já entendi, para de enrolar”. Veja só, literatura virou sinônimo de enrolação. Qualquer coisa que não diga logo a que veio é porque está embromando. A revolução tecnológica exterminou a paciência.

O tempo em que nos dedicamos ao trabalho, somado ao tempo que passamos nas redes sociais, reduziu o ritmo de nossas leituras. É fato. Aconteceu comigo também. Cheguei a me preocupar, mas tirei 13 dias de férias em fevereiro e, mesmo me mantendo conectada, li quatro livros no período, dois deles com mais de 300 páginas. Ficou claro que ainda estou apta a me envolver. Porém, de lá para cá, minha média vem sofrendo uma queda indesejada. Quatro livros em 13 dias, só saindo de circulação de novo.

Falta de tempo se resolve com administração, portanto, vou tratar de me reorganizar. Mas a incapacidade de se deixar seduzir por algo que não cumpre uma promessa imediata pode afetar negativamente não só a leitura, mas diversas outras áreas do cotidiano. Daqui a pouco, ninguém mais conseguirá prestar atenção na história que um amigo está contando, ninguém mais entrará no jogo das conquistas amorosas, ninguém mais se dedicará a preparar uma refeição, ninguém mais escutará uma palestra, curtirá um recital, dará uma caminhada de olho na paisagem. A menos que tenha um smartphone na mão, para ganhar tempo. Tempo para o que, não me pergunte.

Não sei se é o fim do mundo. O fim do mundo já se anunciou diversas vezes e ainda estamos aqui, então tudo indica que sobreviveremos. Ao menos nossa própria existência está cada vez mais longeva, na contramão das reduções. Se antes morríamos aos 60, aos 70, agora podemos chegar aos 100. O que temos feito com esse acréscimo de vida? Nada de mais. Só de menos.

Fonte: Site do Jornal Zero Hora

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/04/martha-medeiros-snack-culture-4749910.html

William P. Young: "A religião divide as pessoas"


O escritor canadense, autor do bestseller "A Cabana", condena a ganância das religiões, diz que Deus está acima delas e que ajudar o leitor a sair de dificuldades existenciais tem seu mérito

Marcos Diego Nogueira
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Com o título de um dos grandes bestsellers da atualidade, o escritor canadense William P. Young, 56 anos, chega essa semana ao Brasil para participar da Bienal do Livro do Rio de Janeiro e traz algumas novidades na bagagem. Ele está finalizando um novo romance, na mesma linha de “A Cabana”, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos, e revela que a história do protagonista de seu livro cultuado, Mack Allen Philips, cuja filha de seis anos é seqüestrada e assassinada durante um acampamento, vai finalmente chegar aos cinemas. Young também vai debater com seus milhares de fãs brasileiros o seu pensamento religioso – e isso certamente o fará relembrar as passagens de sua vida que o colocaram diante de impasses existenciais e de experiências espiritualistas mais tarde abordadas em sua obra. 
 
Nascido em Alberta, no Canadá, Young é filho de missionários e antes de completar um ano de idade foi morar com eles em uma tribo na Nova Guiné Holandesa, no sudeste asiático. Além de sofrer preconceito racial por ser a única criança branca na comunidade, sofreu abusos sexuais em seu período escolar. “A Cabana” narra como Young superou os traumas da infância e a perda, em um período de seis meses, da sogra e de dois irmãos. Mas, segundo ele, não é uma autobiografia, mas uma obra de ficção. “A cabana é o lugar interno onde a dor cresce no homem”, disse o autor a ISTOÉ, de sua casa em Portland, Oregon, para onde se mudou antes de se casar e se dedicar à literatura. Não foi um início fácil: para ver seus escritos publicados, ele teve que abrir a própria editora, Windblown - os originais haviam sido recusados por 26 importantes casas editoriais.Criticado por religiosos americanos pela forma com que aborda os dogmas cristãos, o escritor canadense não vê problema em ser classificado como um autor de auto-ajuda: “Se o seu livro ajudar as pessoas a se reerguerem, então ele deve possuir algum mérito”.
 
ISTOÉ - Em seu livro o sr. descreve experiências transcendentais. Mas qual sua religião?
 
William P. Young - Não sigo religiões. Eu aposto mais no relacionamento com Deus. A religião, de certa forma, divide as pessoas em vez de unir. E isso é inaceitável. 
 
ISTOÉ – Seu objetivo ao escrever “A Cabana” não foi apresentar o espiritismo a pessoas que não o conhecem?
 
Young - Escrevi “A Cabana” para meus seis filhos. Meu objetivo era passar a eles uma experiência importante. As pessoas sempre me perguntam como eu fui capaz de escrever esse tipo de história para meus filhos. Eu penso que desde criança você deve ter essa consciência da perda, que além de inevitável responde muitas questões sobre nossa existência.  
 
ISTOÉ – Religiosos americanos o criticam por ter uma visão particular dos dogmas cristãos, como o da Santíssima Trindade. Como encara essas reações?

Young - Encaro como um bom motivo para questionar todas as regras e regulamentos religiosos. O próprio Jesus Cristo foi criticado por esse tipo de líderes. Por outro lado, esse tipo de discussão é bom, pois os religiosos raramente se envolvem em discussões como essa. Mas é sempre importante não esquecer que o meu livro é uma obra de ficção. 

ISTOÉ – No Brasil as pessoas comparam o seu trabalho ao de Paulo Coelho. O que acha disso?

Young - Já me falaram isso, mas ainda não tive oportunidade de ler as obras de Paulo Coelho.
 
ISTOÉ - Ele é muito criticado pelos elementos de auto-ajuda em seus livros. 

Young - Se você é um escritor que pretende viver independente das convenções sociais ou literárias provavelmente vai ser vítima desse tipo de comentários. Mas para um leitor que passa por algum tipo de dificuldade, o importante é se o livro lhe proporciona algum tipo de superação. Se a obra ajuda as pessoas a se reerguerem então você tem algum tipo de poder, tem seu mérito.
 
ISTOÉ – A sua vida mudou depois de se tornar um bestseller e vender mais de 12 milhões de livros?

Young - As coisas que importam para mim são a minha relação com Deus, com minha esposa, meus filhos e amigos. E elas já estavam profundamente salvas antes do sucesso acontecer. Sou grato por essa espécie de comoção que meu livro causa, mas tenho consciência de que essas coisas passam. A fama não é o que realmente importa. 
 
ISTOÉ - Por que decidiu lançar “A Cabana” de forma independente? 

Young - Procurei 26 editoras e as respostas variavam de “Você fala muito sobre Jesus” até “Não lançamos esse tipo de livro, ele é muito radical”. Então, imprimi cerca de 15 cópias e, no natal, distribui aos amigos mais próximos. Eles passaram a emprestá-las para outras pessoas e, em seis meses, fui procurado pelas editoras.
 
ISTOÉ - Foi nessa época que o sr. criou a editora Windblown? 

Young - Sim. Fundei a empresa em sociedade com os produtores de cinema Wayne Jacobsen e Brad Cummings, que haviam gostado da história. Sem querer, criamos um impacto positivo no mercado editorial. Acabamos com aquela regra velada das editoras que dizem que “se ninguém está publicando esse tipo de coisa, nós também não faremos”. 
 
ISTOÉ – Poderia falar de sua experiência como o único garoto branco em uma tribo na Nova Guiné? 

Young - Como era criança, não entendia aquele tratamento hostil. Eu e meus pais fomos viver nessa tribo gigantesca, que reunia por volta de 50 mil pessoas, e eu pensava que eles eram minha família até conhecer o lado negativo daquela cultura. Fui abusado sexualmente na escola dos missionários justamente pelas pessoas que nos conheciam. Eu tinha seis anos de idade. Uma das razões de ter escrito o livro reside nessas experiências. A cabana é uma metáfora do coração e da alma de uma pessoa. 
 
ISTOÉ - De que forma esses abusos sexuais afetaram sua vida? 

Young - De todas as formas possíveis. Não quis lidar com isso por muitos anos mas, olhando para trás, percebo que pessoas que sofrem esse tipo de trauma naturalmente desenvolvem mecanismos de sobrevivência. Você simplesmente não confia em ninguém e se mantém distante de tudo. Minha tendência era achar que eu era uma pessoa ruim. Esse sentimento refletia tanto na minha vida que, em dado momento, aos 38 anos de idade, tive que lidar com ele e, para isso, contei com a ajuda de minha esposa e de Deus.
 
ISTOÉ – O sr. pensou em recorrer à psicologia ou a psiquiatria para se tratar? 

Young - Não, apesar de achar que a psiquiatria é muito útil se voltada para o entendimento da natureza humana. Nesse caso, ela realmente abre algumas portas internas. Não importa se o nome de Deus é usado. Acredito que o Espírito Santo se manifesta em todas essas coisas. Ele pode estar ligado até ao rock and roll e não importa se o músico tem ou não uma ligação com Deus.  
 
ISTOÉ – No seu livro o protagonista perde a filha, assassinada de forma violenta. O sr. passou por algo semelhante? 

Young - Minha família viveu um período obscuro que durou seis meses. Nesse período eu perdi minha sogra e dois irmãos. São situações que levantam uma série de questionamentos. Muito do que escrevi veio da minha vida. Não digo que fui literalmente a uma cabana, mas falo de momentos em que eu me sentia perdido e não conseguia superar de forma alguma. 
 
ISTOÉ – Foi quando o sr. mudou-se para o Oregon? 

Young - Nessa época eu conheci minha esposa Kim e, como sou desapegado dos meus pais, fui para onde a grande família da minha esposa está. O ambiente aqui é bom porque as pessoas têm uma mentalidade muito mais aberta do que o resto do país, com um grande senso de amor e criatividade. 

ISTOÉ - Os conflitos entre islamismo e cristianismo continuam fortes nos EUA?

Young - Toda batalha entre religiões é gerada por algum tipo de fanatismo e tudo depende de como cada um se relaciona com seus próprios pensamentos. Esses conflitos envolvem outro aspecto que é a ganância. Existem muito poder e dinheiro envolvido, coisas contrárias ao que a religião deveria ser. Essa contradição continuará até que todos os corações sejam curados.
 
ISTOÉ - Quais são os seus novos projetos? 

Young - Estou escrevendo um novo romance que usa o mesmo tipo de jornada vivida pelo personagem de “A Cabana”. Será lançado ainda esse ano.
 
ISTOÉ - Há rumores de que “A Cabana” se transformará em filme.

Young - É verdade. Estou acompanhando tudo de longe e espero que a adaptação seja bem feita. Fui convidado para colaborar, mas percebi que não tenho experiência e que só atrapalharia o processo.


Fonte: ISTOÉ Independente
http://www.istoe.com.br/reportagens/paginar/158391_WILLIAM+P+YOUNG+A+RELIGIAO+DIVIDE+AS+PESSOAS+/4

Socorro, não consigo mais ler livros

Wagner Brenner

Não consigo mais ler livros.

Não que eu não queira. Simplesmente não consigo.

Sou um leitor, desde que me entendo por gente.

Sempre li muito. E continuo lendo.

Mas de uns anos para cá, me alimentar compulsivamente de internet tem causado um efeito colateral que ainda não consigo explicar muito bem.

Só sei que agora, toda vez que pego um livro nas mãos, não consigo ler, canso rápido. Se o texto não “embala” logo, preciso de muito esforço para continuar com a leitura.

E não é só com o livro de papel. A mesma coisa acontece com o livro digital. Não tem nada a ver com o tipo de apoio.

Tem a ver com a extensão do texto.

Essa situção tem me deixado agustiado.

Será que desaprendi a ler? Será que fiquei preguiçoso?

Será que agora só consigo ler coisas curtinhas e, de preferência, com uns links?

Acho que não.

Na verdade, nunca li tanto como agora. Passo o dia inteiro lendo. Mas leio cacos, fragmentos.

Sim, o efeito é conhecido e foi previsto anos atrás.

Sai o disco, entra a música.
Sai o filme, entra a série.
Sai a série, entra o curta do Youtube.
Sai a mesa de bar, entra o Facebook.
Sai o livro, entra o post, o artigo.

Tudo o que era consumido em pacote-família, em tabletão, agora é consumido em formato M&M’s.

A gente já sabia que isso acontecer, faz tempo. Mas o que eu ainda não tinha sentido na pele é que esse fenômeno do snack culture iria me TIRAR algo e me IMPEDIR de ler textos longos. Porque uma coisa é você perceber que existe uma nova maneira de ler (circular e não linear) e passar a usá-la.

Outra coisa é você perder sua capacidade de concentração.

Eu queria adicionar o jeito novo, mas não queria perder o jeito velho.

A internet causou em mim, e talvez em você, uma diminuição na atenção, um efeito similar ao do Transtorno do Déficit de Atenção (TDAH). Não que essa dificuldade de concentração seja um TDAH (que é neurobiológico e tem causas genéticas), mas tem essa característica em comum. Aliás, os próprios parâmetros de diagnóstico de TDAH tem sido frequentemente revistos justamente por conta dessa alteração de comportamento, especialmente em escolas.

Já tentei de tudo, busquei aquelas ficções bacanas, cheias de escapismo, com viagens para lugares distantes, coisas que eu devorava durante a adolescência…mas 10 minutos depois o que escapa é minha atenção mesmo.

Fico voltando para o começo do parágrafo, sabe? Nem a biografia do Steve Jobs eu consegui terminar.

Fico repetindo para o autor “vai, já entendi, conta logo, pára de enrolar”.

Esse é outro sintoma: fiquei mais factual e perco fácil a paciência com aquela fase de contextualização e envolvimento com os personagens.

Meu kindle tem, neste exato momento, a ridícula marca de 18 livros iniciados.

Estou fazendo com eles a mesma coisa que faço com as músicas no meu iPhone, que fatalmente acabam tomando uma “skipada” depois de alguns segundos (tirando as do Zappa, que felizmente ainda ouço cada nota com prazer até o fim). Pô, eu ouvia aqueles álbuns inteiros do Pink Floyd… agora isso seria inimaginável.

Sei que isso tudo soa como algo ruim, mas nem isso eu tenho certeza.

A civilização humana já passou por isso muito antes da internet, por exemplo quando passamos da comunicação exclusivamente oral e acrescentamos a escrita. Colocar conteúdo por escrito livrou nossa memória e permitiu textos bem mais longos e precisos. Agora estamos de volta aos conteúdos curtos, mas ainda mais precisos. E, se um dia desenvolvermos a telepatia, certamente as palavras vão nos parecer ineficientes demais. Formas diferentes de trocar conteúdos, histórias.

Enfim, um post pouco conclusivo, mais desabafo mesmo, para ver se tem mais gente nesse barco.

Estou assustado por não conseguir mais ler um livro inteiro.



Fonte: Site Udapteordie
http://www.updateordie.com/2012/10/03/socorro-nao-consigo-mais-ler-livros/

O Brasil rumo ao Apartheid


Klauber5


Klauber Pires é Bacharel em Ciências Náuticas no Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar, em Belém, PA. Analista-Tributário da Receita Federal com cursos na área de planejamento, gestão pública e de licitações e contratos administrativos. Dedicado ao estudo autoditada da doutrina do liberalismo, especialmente o liberalismo austríaco. Dono do blog LIBERTATUM (http://libertatum.blogspot.com), escreve para o Mídia Sem Máscara e outros sites. Em 2006, foi condecorado como "Colaborador Emérito do Exército", pelo Comando Militar da Amazônia.

Os tribunais raciais vão se espalhando em nosso país. Na semana passada, foi lançado no Distrito Federal e localidades adjacentes o programa Juventude Viva - Plano de Prevenção à Violência contra a Juventude Negra. Parece que os brancos pobres desmerecem os serviços do estado, ou que são eles os culpados pela violência contra negros.

Segundo dados levantados pela Agência Brasil entre 2006 e 2011, a taxa de homicídios de negros aumentou 9%, enquanto que a de brancos, caiu 13%.
“As políticas existentes hoje não têm um conteúdo étnico-racial. São políticas que não trabalham a questão da especificidade. Temos que trabalhar as questões específicas da população negra, que sofreu muito tempo de exclusão em várias áreas, como educação, trabalho e saúde”. Assim declarou o secretário Especial de Promoção da Igualdade Racial do DF, Viridiano Custódio, afirmando que o grande diferencial do Juventude Viva é o foco na comunidade negra das periferias.
Há um gato escondido com rabo de fora na argumentação acima. Não defendo a morte de ninguém, e considero muito relevante que estatísticas sejam usadas para termos uma ideia da situação da criminalidade. Entretanto, noto que há uma tensão especialmente focada no fato de ter havido o aumento de assassinatos de negros justamente em contraposição à diminuição da ocorrência entre brancos, o que parece ter sido inadmissível para os responsáveis pelas políticas sedizentes de igualdade racial.
A reportagem da Agência Brasil que publicou a estatística acima introduz sua matéria com o relato de um menino negro de 11 anos que foi morto pela polícia militar, por supostamente ter sido confundido com um traficante, para em seguida informar que ele foi um dentre 35.207 cidadãos negros assassinados no país em 2011.
Outro caso relatado foi o do gari Rogério Silva dos Santos, morto em 2006 por um grupo de extermínio na Baixada Santista, em São Paulo, quando saiu para comprar remédios.
A notícia acima foi elaborada segundo uma regra clássica de indução ao engano: sua malícia está em sugerir aos leitores que os demais 35.205 cidadãos negros assassinados em 2011 foram mortos em situações semelhantes, especificamente em decorrência do racismo. Notem que nem mesmo fica claro se a morte do menino e do gari foram realmente motivadas por racismo.
Atentem para a declaração da mãe do gari:
Para a mãe de Edson, os negros são as maiores vítimas, porque moram nas áreas mais pobres da cidade. Segundo ela, o Estado ainda mantém uma postura racista, mesmo 125 anos após a abolição da escravatura no país”.
Qual a relação entre a criminalidade nas favelas com a preferência ao assassinato de negros? Será que não há mais mortes de negros justamente porque nestes locais eles são a parcela majoritária de moradores?
Talvez isto possa ser respondido pelo coordenador da organização não governamental (ONG) Observatório das Favelas, Jaílson de Souza, para quem “o aumento da taxa de homicídios de negros tem relação com a mudança geográfica dos assassinatos no país. Nos últimos anos, enquanto o Sul e o Sudeste têm vivenciado a redução das taxas de homicídios, o Norte e Nordeste têm visto um aumento da violência”. Concordo com ele. Pelo menos, estatisticamente isto é verídico. Todavia, a reportagem utiliza esta informação não como um dado contraditório que é, mas justamente como um reforço do que pretende demonstrar, isto é, que os negros nortistas e nordestinos estão sendo assassinados por racismo.
A ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Barros, declarou que “é um paradoxo se ter uma violência letal tão grande entre negros”, ao mesmo tempo em que são instituídas várias ações afirmativas para essa população. “Só podemos atribuir isso à permanência do racismo como um fator de desumanização das pessoas negras, fazendo com que a vida de um jovem negro apareça como tendo um valor tão pequeno já que ela está sendo desperdiçada em tão grandes números.”
Ao contrário do que pensa a Sra. Ministra Luiza Bairros, desconfio que não haja um “paradoxo” entre o aumento da violência entre negros e as políticas governamentais tomadas por seu governo e ligadas a eles, mas que, ao contrário, estas sejam as suas causas diretas. O estímulo ao afrouxamento dos laços familiares em favor do aumento da dependência dos benefícios estatais, a criação de privilégios (cotas) que desprestigiam os méritos, a bajulação da cultura da favela e a cumplicidade do PT com as Farc, e portanto, com o tráfico de drogas, podem ser algumas das ações que estejam marginalizando e segregando os negros, a pretexto de integrá-los.
Além disso, inconseqüente é o adjetivo mais concessivo que se pode dar à afirmação de que o aumento do número de assassinatos de negros possa ser atribuído à permanência do racismo. Cínica seria a qualificação mais apropriada. Ora, quantos negros têm sido assassinados por negros? Será que há mais brancos assassinando negros do que negros assassinando negros? Será que há mais brancos assassinando negros do que negros assassinando brancos? Dentre os brancos que assassinaram negros, houve comprovação de racismo ou outros motivos?
As políticas socialistas fundamentam-se no que tenho denominado “a sociedade de trincheiras”, em contraposição à célebre obra do pensador Alain Peyrefitte, “A Sociedade de Confiança”. Nas sociedades onde prevalecem as políticas de trincheiras, o qual o estado maquiavelicamente incita a população à divisão entre os concidadãos em grupos especiais de ódio ou de interesses, como forma de lucrar poder por meio da prestação de seus serviços de intermediação de conflitos.
No Brasil, a justiça do trabalho, cuja origem remonta ao fascismo italiano, alega ser não uma justiça de exceção, mas sim uma instância especializada da justiça comum, conquanto opere sobre princípios completamente diferentes desta, de tal forma que nenhum empresário ou empregador ingressa em suas instalações sem se sentir prejulgado como culpado. “– Você está sendo chamado aqui porque foi acusado de cometer uma injustiça contra um trabalhador”, eis um pensamento que traduz a essência desta instituição. Não há como, portanto, vislumbrar uma situação de igualdade entre dois brasileiros para quem a Constituição supostamente garantiu a “igualdade de todos perante a lei”. Para a justiça do trabalho, o trabalhador é um cidadão de categoria hierarquicamente superior ao empregador.
Em um excelente vídeo, o economista José Monir Nasser comenta sobre um diálogo que certa vez teve com uma investigadora de uma Delegacia da Mulher. Assim perguntou: - Vem cá, o que acontece quando uma mulher apanha da vizinha e vai lá reclamar que apanhou da vizinha? – Nada. – Como, nada? – Não, porque a gente só atende aqui quando o agressor é homem. – Ué, pêra aí, então não é Delegacia da Mulher, é Delegacia contra o Homem.
Da mesma forma, adianto, ocorrerá com o Juventude Viva. Ora, segundo a lógica da política, não faria sentido nenhum instalar um programa de redução da violência contra negros que não tivesse por pressuposto que os eles estejam sendo vítimas... de brancos! Desta forma, o que se tem aí, apostem se quiserem, é um programa de incitação ao ódio e ao racismo de negros contra brancos.
Porém, há ainda mais: Em outra reportagem relacionada à criação do sobredito projeto, intitulada “Manifestação em São Paulo pede o fim da violência contra negros e pobres”, que avento, pode muito bem ter sido criada intencionalmente para servir como fato motivador da criação do Juventude Viva, Douglas Belchior, membro do conselho geral da Uneafro Brasil, uma das entidades que organizaram o ato, defendeu a desmilitarização da polícia e o reconhecimento, pelo governo, da existência de milícias e grupos de extermínio em São Paulo.
Como qualquer pessoa atenta pode perceber, o que aí prospera não é exatamente uma reivindicação no sentido de proteger os negros da violência do racismo, mas ao contrário, de usá-los como escudos humanos para a proteção dos grupos criminosos. Ora, qual a incompatibilidade entre o modelo institucional da polícia militar e os negros? Não há dignos policiais negros nas corporações? Além disso, conquanto eu me posicione extremamente contrário aos chamados grupos de extermínio, hei de perguntar: o alvo destes grupos tem sido os negros ou as gangues de criminosos e meliantes?
Prevejo que a evolução desta estrovenga seja a futura criação de delegacias e tribunais “especializados”, o que servirá para adicionar mais lenha à fogueira e jogar mais brasileiros uns contra os outros.
Em Ruanda, a crescente propaganda instigada contra a etnia Tutsi, acusada de explorar e discriminar os hutus, teve como conseqüência um dos maiores genocídios da história, com mais de um milhão de almas, que foi sistematicamente ocultada pela imprensa nacional. Os tutsis, embora também negros, mas diferenciados dos hutus por algumas características fisionômicas e sociais, representaram naquele país o papel que os brancos sofrem aqui. Se não desfizermos tamanho malefício, temos todos os motivos para temermos o pior.

Publicado no Mídia Sem Máscara em 10 de setembro de 2013

Fonte: Blog Libertatum
http://libertatum.blogspot.com.br/2015/04/o-brasil-rumo-ao-apartheid-escrito-por.html?utm_source=feedburner&utm_medium=twitter&utm_campaign=Feed:+Libertatum+(LIBERTATUM)

Gramsci para criançasGramsci para crianças

Escola-Sem-PartidoQuando foi sancionada, em 2008, a lei que tornou as disciplinas de Filosofia e Sociologia obrigatórias no Ensino Médio, confesso que não tive nem conhecimento. Não fiz licenciatura, pois estive sempre voltada para a pesquisa no âmbito universitário. Mas como a vida não é exatamente o que planejamos, em um desses desvios de rota fui contratada por uma Editora\ Sistema Educacional que produz material escolar para vários municípios em todo o Brasil. Uma das minhas funções era fazer uma leitura crítica do material didádico e dar uma espécie de parecer.
Pois bem, desde o início fiquei surpresa com o caráter panfletário dos materiais de História, e com o aspecto tendencioso das questões. Fiz o que pude. Mexi aqui e ali, troquei textos, tentei neutralizar sentenças, enfim, trabalho de Sísifo. Fui até contratada para escrever o material de Sociologia que, caso fique da forma como planejado por mim, deverá ser o primeiro material de Sociologia para Ensino Médio não marxista (pelo menos que eu tenha conhecimento).
Lendo um pouco sobre a questão a fim de ventilar ideias para escrever esse modesto testemunho, eis que me deparo com os textos do Reinaldo Azevedo, da época em que foi sancionada a tal lei que tornou Filosofia e Sociologia disciplinas curriculares. O que ele diz?  Que “se o ensino de matemática — e das ciências — é uma lástima, o das disciplinas abrigadas na rubrica “Humanidades” costuma ser uma insanidade, o que é comprovado por um exame simples dos livros didáticos de história e geografia, por exemplo: perdem-se no mais estúpido proselitismo, pautados por um submarxismo ignorante e bolorento. Já demonstrei aqui de que monstruosidades é capaz um professor de história de um cursinho, mesmo tendo de seguir uma apostila.”
Não tenho como discordar. Em relação àquilo de que é capaz um professor de história de cursinho, também tenho meu testemunho pessoal. Quando eu era adolescente fazia capoeira. Em meio a uma conversa meio surreal, o meu professor de história disse que eu deveria usar a minha capoeira para lutar nas Farc. Eu não sabia o que eram as Farc, mas achei aquilo legal. Hoje não acho mais e confesso que demorei algum tempo para destruir o mito Che Guevara dos tempos estudantis. Hoje tenho um filho e não quero que professores tentem conquistar seu coração e mente, como preconizou o novo ministro da educação, o também “filósofo” Janine Ribeiro.
Na verdade, eu acredito na ideia de mestre e discípulo e na proposta de formação. Mas também tenho certeza de que 99,9% dos professores são incapazes de exercer a tutela saudável de uma mente sadia. Mais tarde posso falar na relação mestre-discípulo na filosofia. Por enquanto urge evitar os estragos da militância política em sala de aula.
Dito isso, seguem abaixo, trechos do livro de Filosofia do 6oano do Ensino Fundamental que eu revisei. Sim, 6o. Ano! Daí o mote: Gramsci para crianças. A apologia ao coletivismo, a crítica ao individualismo, tudo isso está presente no livrinho de filosofia para crianças de 11 anos. Por essas e outras é urgente a aprovação do projeto de lei Escola Sem Partido, de iniciativa do advogado Miguel Nagib, cuja luta contra a doutrinação nas escolas remete à sua indignação ao saber que o professor de História da sua filha tinha comparado Francisco de Assis a Che Guevara. Trabalhando com Filosofia e Sociologia no Ensino Médio, eu pude constatar que essas aberrações são constantes.
Relatório
Livro de Filosofia – 6ºano
p.7: “Embora se possa dizer “eu sou feliz”, é preciso ter em mente que esse sentimento de satisfação essencialmente se realiza no âmbito coletivo” […] Quando se vive de forma consciente e responsável, dedicando-se às causas coletivas, […]
p.9: “A satisfação individual tem se projetado frente aos interesses coletivos”
p.25: Tópico sobre a “filósofa” Marilena Chauí, acompanhado de imagem
p.46: “Muitas vezes, a sociedade está marcada pelo individualismo, isso é reforçado pela ideologia da competição. Desde pequenos – nesse caso a escola tem um papel crucial – a competitividade está presente no cotidiano. Você percebe que, na ideologia da competição, só vale o melhor e que todo o resto é excluído, não tem valor? Então, é preciso pensar por que isso acontece e até que ponto isso não torna o ser humano desumano. […] Você acha que as pessoas se importam com os outros indivíduos? Você já se sentiu excluído pela ideologia do ´que vença o melhor´? Você acha que todos deveriam ser valorizados na sociedade?
  1. 48: “Então, a ação sobre a realidade, mesmo sendo individual, é social. […] Veja o que Marx, com o seu livro O capital, pensa acerca do trabalho” Segue trecho de O capital
p.49: “Antonio Gramci (1891-1937) foi um filósofo que viveu na Itália no período do fascismo de Mussolini. Embora tenha ficado muitos anos preso, ele deixou um importante legado, inspirado nas ideias de Marx.” Segue trecho de Gramsci sobre a essência do ser humano.
p.62: “O filósofo (sic) Leonardo Boff…” Segue trecho de Leonardo Boff 
p.102: “Você já observou que a maneira de viver na sociedade atual estimula a competir, a pensar o tempo todo em si mesmo, a ser egoísta? Em todos os lugares, na escola e até na família, se é estimulado a ser e a buscar o melhor; cresce-se com essa idéia de que se deve ser melhor que os outros se se quiser ter sucesso na vida. É uma forma de pensar, essa ideologia, que pode desenvolver o individualismo, a idéia de cada um na sua”. O individualismo é uma doutrina moral, política e ideológica, uma forma de pensar que fornece ao indivíduo justificativas para que se isole nos seus próprios interesses e não partilhe os interesses sociais.
p.104: “Pensando cada um em si mesmo, tudo se torna uma competição , e é inevitável que surja a desigualdade. Por isso, é necessário combater o individualismo, que afasta os seres humanos uns dos outros, e buscar conviver em prol dos interesses coletivos.”
p.108: “A desigualdade social certamente é a maior conseqüência desse individualismo”
p.112: “Michel Lowy é um reconhecido intelectual brasileiro […]escreveu vários livros sobre a sociedade capitalista. Atualmente, tem se interessado pela teoria que mistura os ideais socialistas com a defesa do meio ambiente” Segue entrevista com Michael Lowi: “Para Lowy, as economias emergentes, países em desenvolvimento, não precisam ‘copiar o modelo de desenvolvimento capitalista do ocidente’, aconselha. Trata-se de buscar um outro modelo, um desenvolvimento ecossocialista, baseado na agricultura orgânica dos camponeses e nas cooperativas agrárias, nos transportes coletivos, nas energias alternativas e na satisfação igualitária e democrática das necessidades sociais da grande maioria.
p.121: Bertol Brech […]questionava como a história oficial apagava a ação dos trabalhadores e promovia a ação dos reis e generais. […] influenciado por Karl Marx…” Segue poema de Bertol Brech perguntas de um trabalhador que lê.

Sobre o autor
Catarina Rochamonte
Doutoranda em Filosofia pela UFSCar
Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE (Universidade Estadual do Ceará), mestre em Filosofia pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), doutoranda em Filosofia pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos); é escritora e jornalista independente.


Fonte: Site do Instituto Liberal
http://www.institutoliberal.org.br/blog/gramsci-para-criancas/