sábado, 4 de abril de 2015

A Igreja Católica medieval criou uma instituição que mudaria o mundo: a universidade

Rodrigo Constantino

Encontro de doutores na Universidade de Paris
Desfrutando do feriado da Semana Santa na condição de um não-crente, o mínimo que posso fazer é prestar uma homenagem aos católicos. E farei isso com base em fatos históricos e uso da razão, nada mais. A fonte é o ótimo livro Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental, de Thomas Woods (também ligado à Escola Austríaca, e quem tive não só o prazer de conhecer pessoalmente, mas de escutar, de sua boca, incríveis elogios após minha mais conhecida palestra, na qual apontava para os caminhos da estagflação que de fato se concretizou).
Pois bem, chega de alimentar a pecaminosa vaidade e vamos aos fatos. Está na moda crucificar a Igreja Católica, ignorando-se todo o seu legado positivo. Da mesma forma que é lugar-comum ridicularizar a Idade Média como uma época de trevas culturais e ignorância. Os colegiais que sequer conseguem apontar cronologicamente a Idade Média parecem convencidos de que foi um período de superstição e repressão intelectual, nada mais. Não é bem (ou nada) assim.
Afinal, foi na Idade Média que surgiu aquela que seria a instituição a mudar o mundo para sempre e para melhor: a universidade. Uma época que cria tal sistema universitário não pode ser associada apenas à ignorância. Era preciso, nas palavras do historiador Lowrie Daly, manifestar “um interesse consistente pela preservação e cultivo do saber”. Seres puramente supersticiosos jamais iriam se reunir em grupos para debater incansavelmente sobre os mais diversos temas, em busca de verdades e mais conhecimento.
Como atestam os pareceres de historiadores e documentos oficiais, os papas também tiveram papel fundamental nesse avanço do sistema universitário. Muitas vezes intervieram para proteger os alunos e a autonomia das universidades. Em 1231, por exemplo, o papa Gregório IX lançou a bula Parens scientiarum, em defesa dos mestres de Paris, concedendo à Universidade de Paris o direito à autonomia para elaborar suas próprias regras a respeito dos cursos e pesquisas. No tempo da Reforma, já havia mais de oitenta universidades na Europa.
Alguns historiadores chegaram a chamar esse período em que as universidades ganharam forma de “a Renascença do século XII”. Muitas obras clássicas foram resgatadas e traduzidas, como aquelas sobre a geometria euclidiana, a lógica aristotélica, a filosofia natural, ou as de medicina de Galeno. Os estudiosos medievais, ao contrário do que se pensa, não impregnavam tudo com a teologia. A autonomia da filosofia natural estava presente.
Outra evidência de que é preconceito definir esse período como um apagão intelectual é o claro apreço pela lógica nesses pensadores. Trata-se de um testemunho do compromisso com o pensamento racional por parte desses estudiosos. Os escolásticos tinham na razão uma ferramenta indispensável para seus estudos, e tinham que confrontar suas teses com proposições opostas. O método que foi sendo desenvolvido é bem conhecido hoje: enunciado de uma questão, exposição dos argumentos de ambos os lados, manifestação do ponto de vista do autor a resposta às objeções.
O maior desses escolásticos foi, sem dúvida, Tomás de Aquino. Em sua principal obra, Summa theologiae, ele levanta inúmeras questões em teologia e filosofia, e procura respondê-las com argumentos lógicos. Até mesmo a existência de Deus passou por tal crivo. O leitor tem todo direito de discordar de sua conclusão sobre a necessidade de uma Causa primeira, mas não pode negar o surpreendente esforço racional do autor. Uma era de pura superstição jamais produziria um intelecto desses!
Quando pensamos na era atual, em que o politicamente correto asfixia boa parte dos debates livres e os radicais nas universidades ideologizam tudo, não deixa de ser impressionante constatar que havia, em plena Idade Média, um incentivo ao debate construtivo, ainda que limitado às universidades. O espírito crítico, tão importante para o desenvolvimento da cultura e da ciência ocidentais, era alimentado nesses locais sob a proteção da Igreja Católica. Concluo com as palavras do historiador da ciência Edward Grant:
O que foi que tornou possível à civilização ocidental desenvolver a ciência e as ciências sociais de um modo que nenhuma outra civilização havia conseguido até então? Estou convencido de que a resposta está no penetrante e profundamente arraigado espírito de pesquisa que teve início na Idade Média como consequência natural da ênfase posta na razão. Com exceção das verdades reveladas, a razão era canonizada nas universidades medievais como árbitro decisivo para a maior parte dos debates e controvérsias intelectuais.


Fonte: Site da Revista Veja
http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/historia/a-igreja-catolica-medieval-criou-uma-instituicao-que-mudaria-o-mundo-a-universidade/

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