sexta-feira, 24 de abril de 2015

Koestler: o escritor que revelou como o comunismo entorpece a mente de seus militantes

Arthur Koestler, no romance “O Zero e o Infinito”, mostra como funcionava a mente de um comunista. Para o escritor húngaro, o comunismo era uma espécie de “religião dos ateus”
Fotos: Reprodução
Arthur Koestler mostra, em “O Zero e o Infinito”, que, antes de matar Nikolai
Bukhárin, o stalinismo procurou destroçar sua poderosa mente
O advogado e livre pensador Josias Cesalpino diz que o escritor húngaro Arthur Koestler (1905-1983), autor de “O Zero e O In­finito”, “é bem superior ao inglês George Orwell”, autor de “1984” e “A Revolução dos Bichos”. “Em­bora conciso, seu texto é mais profundo, mais denso, mais cortante e dramático com os abusos” do sistema comunista. “Ele chega mais próximo da realidade socialista. Sua obra mais celebrada é de 1940, portanto precede ‘1984’.” Josias está em boa companhia, pois na penúltima página do ensaio “Matando o tempo”, de 1983, inserto no livro “Tigres no Espelho e Outros Tex­tos da Revista New Yorker” (Glo­bo, 418 páginas, tradução de De­nise Bottmann), o filósofo e crítico literário George Steiner compara, desfavoravelmente, ‘1984’ aos romances “O Zero e o In­finito” e, de André Malraux, “A Condição Humana”.

Para escrever o ensaio sobre “1984”, Steiner releu “A Condição Humana” e “O Zero e o Infinito”. O crítico admite que, em termos de “impacto” e “influência difusa”, o romance “1984” ombreia-se às obras de Malraux e Koestler. Talvez seja possível chamá-los de trilogia das sombras ou do desencanto com a revolução. “Mas, em estatura intrínseca, ele [‘1984’] fica bem abaixo. ‘A Condição Humana’ continua a ser um grande romance, com um sentido convincente da densidade incerta e das complexidades da conduta humana. O foco de Koestler é penetrante, o de Orwell não. O puro conhecimento filosófico-político, o conhecimento de dentro, que se evidencia em ‘O Zero e o Infinito’ é de classe diferente da de ‘1984’”, anota.

O jornalista e escritor Paulo Francis, que citava o autor de “O Zero e o Infinito”, copiosamente, escreveu (“Folha de S. Paulo”, 28/7/1988): “A literatura de Koes­tler é muito ‘voulu’, muito consciente de si própria, para pegar fogo na nossa sensibilidade. A reputação do livro decorre mais, a meu ver, da campanha que fizeram contra Koestler o PC francês e os intelectuais de esquerda de Paris”.

Num ensaio de 18 páginas, “Arthur Koestler, o intelectual exemplar”, publicado no livro “O Século XX Esquecido — Lugares e Memórias” (Edições 70, 462 páginas, tradução de Marcelo Felix), o historiador inglês Tony Judt examina “O Zero e o Infinito”. É “o que realmente interessa”, nota.

“O Zero e o Infinito” é, na opinião de Judt, “o livro mais importante de Koestler e o seu contributo mais influente para o século. Só em França vendeu 420 mil exemplares nos dez anos a seguir à” Segunda Guerra Mundial (1939-1945). “É amplamente reconhecido pela sua contribuição singular e inigualada na demolição do mito soviético. Qual­quer avaliação da posição de Arthur Koestler tem de se basear na nossa leitura deste livro e no seu efeito”, frisa Judt. No ensaio “La Morte d’Arthur”, Steiner diz que o romance “é um dos clássicos do século” 20.

Uma síntese do livro, feita por Judt: “Koestler misturou a sua própria experiência da cela de morte em Espanha [ele atuou ao lado dos republicanos] com o conhecimento pessoal de Karl Radek e Nikolai Bukhárin (conhecera ambos em Moscou), e inventou a história de Nikolai Salmanovitch Rubachov, um velho bolchevique que se torna vítima das purgas [expurgos] de Stálin. O livro foi escrito entre 1938 e 1940, e Koestler podia contar com uma ampla consciência pública dos recentes julgamentos de Moscou, o cenário para o seu estudo sobre o dilema de fidelidade e desilusão comunista. Rubachov é uma amálgama, mas também um tipo: o ativista bolchevique que suprimiu as suas próprias opiniões e juízo em favor das do Partido e do Líder, apenas para descobrir que agora é acusado de se ter ‘objetivamente’ oposto à linha do partido, e portando à Grande Narrativa da História”. Versão de Paulo Francis: “A personagem central, Rubashov, tem a aparência física de Trotski e, mais ou menos, um prontuário de combate como o dele, e o pensamento e modos de Bukhárin. O marxismo de Rubashov é um tanto mecanicista, para dizer o mínimo”. No seu tom necessariamente idiossincrático, e era isto que o fazia interessante, o jornalista prefere chamar o livro de “Trevas ao Meio-Dia”. Há quem traduza por “O Sol da Meia Noite”. Para dizer-se precoce, Paulo Francis diz que seu livro de cabeceira na adolescência era “O Iogue e o Comissário”, autobiografia de Koestler. “Ele sempre foi de esquerda”, acrescenta. Judt, mais bem informado, prefere apresentá-lo como um homem que, ao perceber os horrores do stalinismo e do pós-stalinismo, trocou a esquerda pelo anticomunismo. Mas era, claro, um intelectual mais independente do que de movimentos organizados.

O crítico literário neotrotskista Irving Howe admitiu que o romance “era uma descriação aterradora e incontestável dos mecanismos da mente comunista”. Por que os crimes da esquerda são em geral “perdoados”? Porque a esquerda diz, com rara mestria, que faz o mal, matando inocentes (democratas ou pessoas comuns, apartidárias), para conquistar o bem (a sociedade igualitária). Sacrifica-se o presente, dando ao indivíduo uma vida sem liberdade e, às vezes, sem pão, por um futuro (talvez o céu) que, garantem os comunistas, será muito melhor. O que é, como notou Koes­tler, uma nova religião. O comunismo, como perceberam o filósofo inglês John Gray e, antes dele, Koestler, é a religião dos ateus.

O romance é um retrato fidedigno do que aconteceu com Buk­hárin, apontado como um dos bolcheviques preferidos de Lênin. Mas vai além do filósofo e economista russo: é uma análise corrosiva do totalitarismo e de como se organiza (e funciona) a mente dos comunistas (e vale ressalvar que muitos eram mesmo crentes na infalibilidade da ideias comunistas de seus líderes). No livro “Ascensão e Queda do Comunismo” (Record, 854 páginas, tradução de Bruno Casotti), o historiador inglês Archie Brown observa que Rubashov-Bukhárin “é convencido de que seu ‘último serviço ao Partido’ é confessar as acusações inventadas contra ele para ‘evitar despertar a simpatia e pena’ na população em geral, uma vez que o despertar desses sentimentos seria perigoso para o partido e para a causa comunista”. Brown tem razão, mas, para além da ideologia em si, havia outra questão. Como notaram Roy Medvedev, no livro “Os Últimos Anos de Bukhárin” (Civilização Brasileira, 173 páginas, tradução de Luís Mário Gazzaneo), e “Bukhárin — Uma Biografia Política” (Paz e Terra, 555 páginas), de Stephen Cohen, Bukhárin, com sua confissão pretendia salvar a vida de seu filho e de sua jovem mulher, Anna Larina.

O comunismo, mesmo para quem não era comunista, era o “Bem”, em eterna luta contra o “Mal”, o capitalismo dito selvagem. “A um público imenso”, registra Judt, Koestler “apresentou o comunismo como uma mentira e uma fraude, em que fatos, argumentos e julgamentos eram falsificados para obter os fins desejados por um regime ditatorial impiedoso. Mas para leitores intelectualmente mais exigentes, o livro não retratava o comunismo apenas de uma maneira implacável, mas também com um curioso rosto humano”. Talvez para torná-lo mais perceptível como uma prática terrível, não apenas como uma ideia bonita.

Judt ressalta que “‘O Zero e o Infinito’ é notavelmente benigno como representação da prisão e do interrogatório. Não há cenas de tortura. Quase não há violência de todo. A mensagem é clara e afirmada explicitamente: ao contrário dos nazistas e dos fascistas, os comunistas não utilizam tortura física para extrair as estranhas confissões que as pessoas fazem no tribunal. Em vez disso, convencem as suas vítimas da sua própria culpa”. A informação de Koestler é inteiramente falsa, porque, como assinala Judt, “há provas abundantes de que os regimes comunistas foram tão brutais e sanguinolentos quanto as outras tiranias modernas”.

Se Koestler não queria esconder nada e pretendia mostrar a crueldade do regime comunista, e não apenas do stalinismo (este não produziu o comunismo, antes é uma produção do comunismo), por que falseou a respeito das torturas nas masmorras da União Soviética? “A resposta”, afirma Judt, “é que ‘O Zero e o Infinito’ não é um livro acerca das vítimas do comunismo. É um livro acerca dos comunistas. As vítimas — Rubachov e os seus camaradas prisioneiros — são comunistas. (...) O romance de Koestler é um magnífico esforço de um intelectual ex-comunista para explicar a outros intelectuais porque é que o comunismo perseguia os seus intelectuais e porque é que estes conspiravam na sua própria humilhação”.

Embora reconheça a vitalidade do livro, como denúncia cáustica do totalitarismo, Judt faz reparos à obra de Koestler: “Os crimes e erros do comunismo não são negados. Muito pelo contrário. Mas são apresentados como deformações essencialmente intelectuais: derivações lógicas de pontos de partida legítimos, tornadas fatais pela incapacidade de levar em conta o indivíduo e a sua aptidão para o discernimento independente. Em suma, é o tipo de erros, por muito trágicos e terríveis, que homens inteligentes e bem intencionados podem cometer quando estão dominados por grandes ideais. Para adotar as palavras tranquilizadoras de Shane no grande romance epônimo de Jack Schaeffer: ‘Ninguém tem de sentir vergonha por ser derrotado pela História’”. Koestler tornou-se comunista em 1931 e, depois de ter visitado a União Soviética e de ter participado da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), caiu fora, em 1938.

Judt segue na sua ressalva ao livro: “‘O Zero e o Infinito’ pode ter debilitado a plausibilidade do Estado soviético, mas ao custo de confirmar a suposição intelectual convencional de que o comunismo era não obstante muito diferente dos outros regimes autoritários, e fundamentalmente melhor (ou pelo menos mais interessante). Não era essa a intenção de Koestler, mas talvez ele não discordasse”. O historiador tende a ver o livro, porque ainda manteve uma certa ilusão, como datado.  Mas Josias Cesalpino é quem está certo: “O Zero e o Infinito” é um livro notável. O retrato de uma época que, se lembrarmos da Coreia do Norte, de Cuba e mesmo da China, ainda não está morta e enterrada. Daí a atualidade de Koestler, que, acima de tudo, era um inconformista, e isto, admite Judt, “lhe assegurou um lugar na história”.

Depois de uma temporada como analista político brilhante, Koestler escreveu livros sobre vários assuntos, inclusive paranormalidade. O escritor e sua mulher, Cynthia, se mataram, em 1983. Ele tinha 78 anos. Estava doente.


Fonte: Site do Jornal Opção
http://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/koestler-o-escritor-que-revelou-como-o-comunismo-entorpece-a-mente-de-seus-militantes

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