sábado, 30 de maio de 2015

A esquerda adora uma direita caricata. Ou: Debatendo com um espantalho

Rodrigo Constantino

Alguns pensam que direita e esquerda são conceitos ultrapassados. Normalmente, são de esquerda. Não creio que tais conceitos estejam obsoletos. Apenas acho que merecem qualificação e mais cuidado, pois rótulos, se servem para simplificar nossa compreensão, também podem servir para confundir.
No Brasil, a situação é ainda pior. O que é ser de direita aqui? Defender o regime militar? Os coronéis nordestinos? Os evangélicos fanáticos? Detestar pobres? Aparentemente, essa é a visão de muita gente de esquerda. Assim é fácil derrotar o adversário, não é mesmo?
O que essa turma gosta de fazer é monopolizar as virtudes. Ser “progressista” é ser modernos, a favor do avanço, enquanto ser conservador é ser reacionário. Ser de esquerda é estar do lado dos pobres, enquanto ser de direita é ficar ao lado dos ricos e poderosos. Não se debate meios, mas fins. Só a esquerda é sensível, ungida, iluminada, moderna. Nada mais falso!
Se direita é ditadura militar, pastores evangélicos ou fazendeiros machistas do interior, então não sou de direita. Só que isso não é direita. É um espantalho criado pela esquerda, para não ter que debater com a verdadeira direita.
Que tal falarmos, por exemplo, de toda a linha do pensamento conservador da Inglaterra e da Escócia? Que tal debatermos com filósofos como Roger Scruton? Ou com historiadores como Paul Johnson? Ou com historiadores econômicos como Niall Ferguson? Enfim, há várias alternativas, totalmente fora da caricatura criada pela esquerda brasileira.
Que tal resgatarmos o legado de Ronald Reagan e Margaret Thatcher? No caso brasileiro, que tal falarmos de Joaquim Nabuco ou José Bonifácio? Mais recentes? Que tal debatermos as ideias de Roberto Campos? Há alguma semelhança com essa imagem da direita pintada por seus detratores?
Os “progressistas” adoram o progresso, mas suas ideias, que têm mais de um século e cheiram a naftalina, só trazem atraso, retrocesso. São tão avançadinhos no âmbito cultural que desejam para a humanidade a volta dos tempos em que o homem era mais animal instintivo e menos humano. São “humanistas” que adoram ditaduras assassinas. Vamos falar dos fatos?
A esquerda defende as cotas raciais e as esmolas estatais para os pobres. Isso é o mesmo que defender os negros e os pobres? Só na cabeça oca da esquerda! Isso é fomentar a segregação e o privilégio, e criar dependência sem porta de saída, voto de cabresto. Quem defende o coronelismo nordestino mesmo?
Adriano Codato, pesquisador da UFPR, um dos tantos que vendem essa caricatura da direita, defende o Bolsa Família: “Essas pessoas (eleitores pobres) são governistas, não são petistas. Elas votam de forma pragmática e racional. Se há alguém que sabe votar neste país é o pobre”. Sério?
A direita, ao contrário da esquerda, não precisa glamourizar a pobreza; quer reduzi-la. Como pode votar melhor e com mais razão quem tem menos instrução e depende de esmolas estatais? À medida que o grau de escolarização e renda aumenta, a tendência é o populista PT perder votos. O pesquisador acha que isso é votar mal…
Na verdade, a esquerda adora a retórica bonita, o discurso inflamado, o monopólio dos fins nobres. Mas não liga para os resultados concretos de suas ideias, sempre opostos ao pregado. Não adora os pobres; adora a pobreza que permite a aura de defensora dos fracos e oprimidos que ostenta. Imagem é tudo.
A esquerda ama a Humanidade. Só não suporta muito o próximo, de carne e osso, diferente. Para manter as aparências, precisa detonar uma direita mitológica, fictícia, inventada pela gauche, um espantalho criado para ser destruído em praça pública e evitar o verdadeiro debate de ideias.
E então? Vamos deixar o pastor Feliciano um pouco de lado, o Bolsonaro lá no seu canto atendendo seu nicho político, e vamos debater de verdade com a direita, aquela que defende os valores morais mais sólidos, o ceticismo em relação a toda forma de utopia política, e um estado com escopo limitado justamente para não prejudicar os mais pobres?


Fonte: Site da Revista Veja
http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/filosofia-politica/a-esquerda-adora-uma-direita-caricata-ou-debatendo-com-um-espantalho/

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Jornal estatal chinês diz que guerra entre China e EUA pode ser inevitável

Nesta terça-feira, a China lançou uma nova revisão de seu livro de estratégia militar. O documento fala em ‘projetar seu poder’ para além das fronteiras chinesas no mar e pelo ar


Embarcações de dragagem chinesas vistas nas águas em torno do recife Mischief nas Ilhas Spratly, área disputada no sul do Mar da China
Embarcações de dragagem chinesas vistas no Mar da China Meridional (U.S. Navy/Reuters)
Uma semana depois de a Marinha chinesa ameaçar um avião americano que operava voos de reconhecimento em águas internacionais, o jornal estatal chinês Global Times publicou um editorial dizendo que uma guerra entre China e Estados Unidos pode ser inevitável. O texto foi publicado em meio ao aumento da tensão entre os dois países no Mar da China Meridional, localizado no sul da China, parte do Oceano Pacífico. Na semana passada, Washington enviou aviões para espionar as ilhas artificiais construídas por Pequim no Mar da China Meridional - imagens de satélite mostram a construção de estradas, portos e o que poderiam ser postos militares nessas ilhas.
"Se a demanda dos EUA envolver a interrupção das atividades chinesas, uma guerra entre os dois países no Mar da China Meridional é inevitável", diz o editorial. No mesmo texto, o jornal culpa Washington pelo acirramento do conflito entre dois os países na região: "Os Estados Unidos estão aumentando o risco de confronto físico com a China recentemente".
Além da localização militar estratégica, o Mar da China Meridional é palco de disputas territoriais entre os países da região por apresentar áreas de pesca abundante eRESERVAS potencialmente ricas em recursos naturais.


Defesa ativa - Nesta terça-feira, a China lançou uma nova revisão do livro branco de estratégia militar na qual ressalta o desenvolvimento de sua Marinha e o conceito de "defesa ativa" em plena escalada de tensões entre Pequim e Washington pelas águas do Oceano Pacífico. Segundo o documento, o Exército chinês, incluindo a Marinha e Força Aérea, poderá 'projetar seu poder' para além das fronteiras chinesas no mar e, mais assertivamente, pelo ar a fim de proteger suas áreas marítimas, de acordo com o jornal britânico Telegraph.
"Não atacaremos a não ser que alguém nos ataque, mas, com certeza, contra-atacaremos se nos atacarem", disse em entrevista coletiva o coronel Yang Yujun, porta-voz do Ministério da Defesa. Trata-se do nono documento deste tipo desde 1998 e Yang assegurou que a novidade do atual é que é "mais estratégico e preventivo" em um contexto mundial de "mudanças sem precedentes e com a China em um ponto crítico de reforma e desenvolvimento".
Apesar de enfatizar o compromisso da China com o desenvolvimento pacífico, o documento ressalta "domínios de segurança críticos", entre eles: os oceanos, o espaço, o ciberespaço e a força nuclear, e adverte que a Marinha "mudará gradualmente seu enfoque". As forças navais passarão de uma estratégia única de "defesa de águas litorais" para outra que também combine "a proteção de águas abertas", assinalou o porta-voz.
(Com agência EFE)

Fonte: Site da Revista Veja
http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/jornal-estatal-chines-diz-que-guerra-entre-china-e-eua-pode-ser-inevitavel/

Lançado em Roma o opúsculo “Opção Preferencial pela Família”, escrito por três bispos

Autor: Edson Oliveira  



Na manhã do dia 19 de maio último, noHOTEL COLUMBUS, localizado na Via della Conciliazione, em Roma, foi lançado o volume "Opção Preferencial pela Família – 100 perguntas e respostas em torno do Sínodo" (edição Supplica Filiale), cujos autores são Dom Aldo Pagotto (Arcebispo da Paraíba, Brasil), Dom Robert Vasa (Bispo de Santa Rosa, Califórnia) e Mons. Athanasius Schneider (Bispo auxiliar de Astana, Casaquistão).

O prefácio é de autoria do Cardeal Jorge Medina Estévez, Prefeito emérito da Congregação para o Culto Divino, com encômios de Mons. Luigi Negri (arcebispo de Ferrara-Comacchio, Itália), de Mons. Tadeusz Kondrusiewicz (arcebispo de Minsk-Mohilev, Bielo-Rússia) e de Mons. Patricio Bonilla Bonilla, Ofm (Delegado Apostólico de São Cristóvão de Galápagos, Equador).

O lançamento, em Roma, foi noticiado, em 20 de maio, pelo famoso vaticanista do jornal La Stampa, Marco Tosatti.

Segundo o porta-voz da iniciativa Supplica Filiale, professor Tommaso Scandroglio, “este opúsculo é um original Vade-Mecum sobre a família, tema que será objeto do próximo Sínodo. A obra é composta por cem perguntas e respectivas respostas. As perguntas reproduzem as objeções mais difundidas sobre a sexualidade, a indissolubilidade do vínculo matrimonial, o divórcio, a homossexualidade, a declaração canônica de nulidade do matrimônio, a comunhão aos divorciados recasados, a misericórdia, a pastoral e muitas outros assuntos correlatos. As respostas, em contrapartida, expõem a imutável doutrina da Igreja católica sobre estas questões”.

Para o prof. Scandroglio, a publicação tem uma dupla intenção. Por um lado, pedir que haja coerência com os ditames da Igreja católica relativamente ao âmbito da moral natural e da Fé. Por outro lado, oferecer a prova de que, em muitíssimas articulações conceituais que afetam o tema da família, a doutrina já está consolidada e há muito tempo superou e com sucesso algumas objeções de caráter ético e teológico, repetidas frequentemente pelos meios de comunicação de massa. O desafio é, portanto, eminentemente de caráter pastoral, disse Scandroglio, acrescentando que “o Vade Mecum tem em vista sobretudo os bispos, padres, religiosos, catequistas e fiéis atuantes na vida da Igreja. Mas também visa a todos os leigos que encontrarem nesta ágil publicação alguns argumentos de ordem racional para defender a família contra esses ataques que uma certa cultura niilista e relativista está desencadeando com frequência sempre maior”.

Na conferência de apresentação do opúsculo Opção Preferencial pela Família interveio também o dirigente pró-life inglês John Smeaton, co-fundador da coalizão Voice of the Family, um dinâmico think tank em apoio da família natural e tradicional. Voice of the Family tem produzido estudos de alta competência sobre o tema, como uma recente análise do Relatório Sinodal de 2014, a qual enfatiza as questões ali omitidas, ou aqueles aspectos tratados de modo ambíguo, e que, portanto, causaram confusão entre os fiéis, e que, sempre segundo Voice of the Family, deverão ser urgentemente esclarecidos no Sínodo de 2015.

A Filial Súplica ao Papa Francisco (www.supplicafiliale.org) já superou as 250.000 assinaturas, entre as quais as de 4 cardeais, 23 bispos e arcebispos e numerosas personalidades públicas e acadêmicas de numerosas nações.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Literatura fantástica cristã

A literatura fantástica, às vezes chamada de ficção, tem uma grande variedade de estilos e propósitos. Alguns escritores de ficção optam por criar histórias com situações extraordinárias e impensáveis para o leitor comum, sem se preocuparem muito em fazer paralelos com o mundo real no qual vivemos, como Isaac Asimov, autor de ficção científica. Outros, como Aldous Huxley (autor de “Admirável Mundo Novo”) e George Orwell (autor de “1984”), incluem uma tentativa de descrever um futuro plausível a partir da realidade presente. 

Escrevo aqui sobre a ficção cristã e o seu papel na exposição da mensagem e de valores aos leitores. Temos poucos desses livros escritos por brasileiros e poucos traduzidos para o português. John White e George Mac Donald estão entre os autores de ficção cristã praticamente sem tradução. O mais conhecido entre os traduzidos para o português é C. S. Lewis, escritor da série “Nárnia”, da trilogia do espaço (“Longe do Planeta Silencioso”, “Perelandra” e “Essa Força Medonha”), além de “O Grande Abismo”. A ficção cristã mais conhecida entre nós (C. S. Lewis) tem forte teor alegórico (personagens e fatos facilmente identificáveis na vida real).

O poder de comunicação das estórias é tremendo. Usamos essas estorinhas como parábolas para ensinar nossas crianças. A ficção alegórica desperta nossa curiosidade e nos transporta para um mundo que pode ser sonhado e talvez alcançado. Jesus usou parábolas para trazer entendimento de coisas profundas até pessoas simples. Em suas parábolas ele usava personagens e fatos bem conhecidos do povo, possibilitando a identificação de cada um com a estória contada. 

Assim como nas parábolas de Jesus, uma das características que me chama a atenção nesse tipo de ficção é o poder profético e estimulador, desde que mantida a fidelidade do autor às escrituras. O poder profético, tanto para exortar como para consolar, é exercido pela nossa identificação com um ou mais personagens da estória. Na parábola do filho pródigo, por exemplo, Jesus ligou o incompassivo irmão mais velho aos fariseus (exortação), ao mesmo tempo em que mostrava aos desgarrados a esperança da restauração através da volta ao Pai (consolação). 

Tenho o hábito de ler várias vezes o mesmo livro de ficção cristã. Percebi que me identifico com pessoas e situações de tal forma que me sinto “dentro” da estória. Vejo nos personagens meus próprios defeitos e dilemas. As soluções encontradas dentro das estórias também me ajudam muito. Ao reler esses livros estou revisando as situações, relembrando as soluções encontradas e renovando as esperanças na solução dos problemas. Às vezes tenho até “saudade” de uma ou outra estória, como tenho de alguns lugares que gostaria de revisitar. Nessas estórias, os heróis, geralmente frágeis, me fazem querer ser esse tipo de herói: fraco, mas corajosamente perseverante; com problemas, mas com a esperança que o move para frente; com tropeços, mas com o perdão que o levanta; com choro, mas com a consolação que se torna semente do júbilo; com fracassos que o humilham para levá-lo à sabedoria da dependência de Deus.

Outra característica fantástica das estórias é que elas atingem pessoas de qualquer idade. Acredito que há poucas pessoas que não gostam de ler ou ouvir estórias. Nessa característica está a esperança e o perigo da ficção. A esperança por ela ser capaz de levar uma boa mensagem a todo um povo. Perigo por ser capaz de levar uma mensagem destrutiva a todo um povo. As estórias são caixas atrativas e apetitosas que podem levar bom ou mau alimento. No meu entender a igreja brasileira tem feito pouco uso desse instrumento. Penso que isso ocorre até em algumas pregações. Creio que se acrescentássemos estórias e experiências às informações que trazemos ao púlpito, as mensagens poderiam se tornar mais inteligíveis, mais atraentes, dando algum sabor àquelas que poderiam ser tachadas de chatas. Uma pregação pode ser muito bem preparada, até erudita, mas as estórias conseguem dar simplicidade às coisas profundas e fazer com que elas sejam entendidas por todos. Acho que a atração pelas “estorinhas” faz com que nossas crianças gostem das historinhas bíblicas. Infelizmente essas historinhas são contadas no mesmo contexto das “estorinhas”. 

Os super-heróis da telinha nem sempre são separados dos nossos “heróis da fé”. Talvez estorinhas alegóricas nos ajudassem a conduzir nossas crianças às historinhas bíblicas, assim como as parábolas de Jesus conduzia o povo à verdade da palavra de Deus. As possibilidades para o uso sadio, tanto das parábolas e estorinhas, como dos livros de ficção cristã, são enormes. Mesmo entre os pregadores esses textos podem ser usados de forma muito efetiva. Já perdi as contas das pregações e treinamentos onde eu usei textos de ficção cristã. Não esqueçamos que Pentecostes é amigo da boa comunicação enquanto que Babel é fã dos mal-entendidos. Quando percebo alguma dificuldade de meus ouvintes em entender algo, ou em se concentrar no que eu estou falando, costumo logo falar “por exemplo” e entrar com uma estória que substitui minha explicação original. A boa comunicação agradece.

• José Miranda Filho foi presidente da ABUB (Aliança Bíblica Universitária do Brasil), ministério este ao qual ele está envolvido há mais de três décadas.


Fonte: Site da Revista Ultimato
http://www.ultimato.com.br/conteudo/literatura-fantastica-crista?__akacao=2409789&__akcnt=6780f1e7&__akvkey=897e&utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Newsletter+%DAltimas+251+-+25%2F05%2F2015

A Guerra dos Tronos e os reis de Israel


Se você gosta da série de TV “Guerra dos Tronos”, é bem provável que se interesse bastante pelos textos do Antigo Testamento. Reinos invadidos, cidades destruídas, conquistas, derrotas, alianças, traição, erros, acertos, injustiça. Alguns capítulos são tão intensos que no meio da leitura você até percebe que mudou o ritmo da respiração.

No capítulo 13 do primeiro livro dos reis de Israel, por exemplo, há o registro de um episódio trágico com um profeta de nome desconhecido que se levanta contra o sistema religioso implementado pelo rei Jeroboão.

Por sinal, Jeroboão foi um dos piores reis da história de Israel. No reinado de Salomão, Jeroboão tentou matar ninguém menos do que o próprio rei. Sua ousadia foi tamanha, que ao invés de ser punido com morte (como qualquer rei provavelmente faria àquela época), Salomão o pôs por chefe da casa de José.

Um dia, na estrada, Jeroboão encontrou um velho profeta chamado Aías, que disse que o reino de Salomão estava no fim. Segundo ele, Deus mesmo dividiria Israel em doze pedaços, dos quais dez cairiam nas mãos de...

Jeroboão (o homem que tentou matar o rei!).

Não demorou muito para que Salomão soubesse da conversa na estrada. Demorou menos ainda para que o rei, então, quisesse matar Jeroboão - que fugiu para o Egito, temendo por sua vida.

Percebe o clima de “Guerra dos Tronos”?

Um homem tenta matar o rei. Ao invés de ódio e vingança, cai na graça de sua majestade e recebe um cargo de confiança. Numa estrada, ouve um velho profeta dizer que o Israel será dividido em doze pedaços, dos quais ele reinará sobre dez. E mais, ouve o profeta dizer "Reinarás sobre tudo o que desejar a tua alma" (que tentação!). O rei fica sabendo. Ordena sua morte. Jeroboão busca asilo no Egito, até saber da morte de Salomão. Só aí se sente seguro para voltar pra Israel.

Como você imagina que um homem desses reinará? E daí que Israel já tinha leis estabelecidas desde os dias de Moisés? Um homem que não vê nos muros do palácio obstáculo para satisfazer seu desejo sórdido de matar sua majestade respeitará algum limite?

Tão logo assume o Reino do Norte, Jeroboão muda o lugar da adoração, estabelece culto aos bezerros de ouro, constitui sacerdotes que não eram da tribo de Levi. O recado é: Israel está sob nova direção. Ninguém para um homem como esse (que, por sinal, carrega no próprio nome a ideia de contenda).

Até que um profeta de Judá, o Reino do Sul, (e é aqui que começa o capítulo 13 do primeiro livro dos reis de Israel) resolve profetizar contra o altar de Jeroboão. Homem corajoso. Diz que Deus se levantará contra aquele sistema. Jeroboão manda prendê-lo, mas o servo que estende a sua mão contra o profeta vê seu braço apodrecer imediatamente. O rei toma um susto, e suplica em favor do seu servo. O profeta faz uma oração, e no mesmo instante a mão podre volta ao normal.

Consegue ver isso tudo no HBO [canal de TV que exibe a série]?

O rei fica tão impressionado que chama o profeta para um jantar no palácio. Curiosamente, o profeta recusa o convite. Ele não havia saído do Reino do Sul para o Reino do Norte para fazer festa, mas para levantar denúncia contra o sistema vigente. E vai embora. Homem corajoso.

Na estrada (percebe como tanta coisa acontece nas estradas?), outro profeta se encontra com este profeta. Convida-o para comer - como fizera o rei Jeroboão. O profeta de Judá recusa novamente. Até que o novo profeta diz: “Eu também sou profeta, e Deus me falou que não tem problema (não é de hoje que o discurso de “Deus me falou” complica a história de muita gente). Vamos comer lá em casa!” E o profeta de Judá, homem corajoso, vai.

Pobre profeta de Judá. Não tinha que ir. Na saída, é devorado, destroçado, despedaçado por um leão. Seguiu tão determinado para denunciar o rei. Deu o seu recado. Resistiu o convite para participar do banquete. Ia fazer o mesmo com o novo profeta. Até que ouviu um “Deus me disse”. Ficou conhecido na história dos reinos como o profeta desobediente. Fim do capítulo.

Percebe como a maldade de um único homem (Jeroboão, no caso) pode mudar o curso de um povo inteiro? Percebe como a convicção de um único homem (o profeta do Reino do Sul, no caso) pode quebrar sistemas de maldade? Percebe como o convite de qualquer homem (o profeta da estrada, no caso) pode nos fazer colocar em cheque nossas convicções e senso de missão?

Cuidar do coração. Acreditar que nem sempre é necessário cantar no tom da multidão. Não perder o foco da missão, ainda que o recado venha supostamente de Deus.

Sempre gostei de “Guerra dos Tronos”.

• Daniel Guanaes é pastor na Igreja Presbiteriana do Recreio (RJ), psicólogo clínico e aluno do programa de doutorado em teologia da Universidade de Aberdeen, na Escócia. Gosta de surfar e treinar jiu jitsu.





Fonte: Site da Revista Ultimato
http://www.ultimato.com.br/conteudo/a-guerra-dos-tronos-e-os-reis-de-israel?__akacao=2409789&__akcnt=6780f1e7&__akvkey=897e&utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Newsletter+%DAltimas+251+-+25%2F05%2F2015

domingo, 24 de maio de 2015

Como é uma clínica de reabilitação para viciados em Internet?

por Tiago Cordeiro | Edição 160

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Pergunta da leitora - Jhennifer da Silva Nascimento, Francisco Morato, SP

Depende do lugar onde você vive. Existem três perfis diferentes de trabalho: reuniões de grupo, internações e até treinamentos em acampamentos. Em geral, os tratamentos são voltados para jovens de 15 a 24 anos que sofrem de depressão ou de fobia social e encontram na rede a melhor forma de interagir. Os primeiros estudos a apontar as consequências do uso excessivo de internet (e também de games e de smart-phones) datam de apenas 20 anos atrás. O que se sabe é que o ambiente virtual pode estimular as áreas de recompensa do cérebro, e que a abstinência de internet provoca sintomas iguais aos da privação de drogas. Mas a melhor forma de lidar com esse problema ainda está em discussão, já que o usuário, em algum momento da vida, voltará a ter contato com a internet novamente - seja na escola, seja no trabalho. A questão é: como se conectar sem incorrer no vício novamente?

Desconectado

Tratamentos buscam o equilíbrio entre a vida real e o mundo online

Se vira nos 30

Nos EUA existem clínicas de rehab, que oferecem programas de desintoxicação para maiores de 18 anos. O primeiro desse tipo, no Bradford Regional Medical Center, na Pensilvânia, prevê dez dias em reclusão absoluta. Durante esse período, a pessoa tem o tempo de internet controlado e pode se conectar apenas para resolver assuntos pontuais - como responder e-mails ou fazer uma pesquisa

Menos chat, mais papo

No Brasil, o tratamento é na base da conversa. Os jovens participam de reuniões de grupo a cada 15 dias. No Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, em São Paulo, o paciente é acompanhado por um psiquiatra e deve participar da dinâmica durante 18 semanas. Os pais também se reúnem para discutir a situação do filho e para saber como podem ajudar

Cultura real

Os centros também organizam atividades para introduzir a cultura chinesa na vida dos jovens. Além da dança, os garotos são incentivados a montar bandas (de verdade, não no Guitar Hero!). Em versões mais amenas, esse sistema já foi copiado por alguns países asiáticos, como Tailândia, Singapura e Coreia do Sul

Centros no Brasil

Araçoiaba da Serra (SP)

Centro Terapêutico Araçoiaba

www.ctaracoiaba.com.br/contato

Cuiabá

Centro de Estudos da Família e do Indivíduo

ceficuiaba@cefipoa.com.br

Porto Alegre

Centro de Estudos da Família e do Indivíduo

cefi@cefipoa.com.br

Rio de Janeiro

Santa Casa da Misericórdia

faleconosco@santacasarj.org.br

São Paulo

Grupo de Dependência Tecnológica do Hospital das Clínicas

contato@dependenciadetecnologia.org


Recuperação linha-dura

Na China, não tem conversa! Os viciados ficam sem conexão e recebem treinamento militar

De internauta a internado

Em um país com jovens que passam dias dentro de lan houses e até usam fraldas para não precisar ir ao banheiro, os pais internam os filhos à força em um tipo de acampamento detox. Lá, eles passam de três a quatro meses totalmente isolados do mundo e, principalmente, da tecnologia

Pede pra sair!

Usando uniforme militar, os alunos são obrigados a praticar atividades físicas exaustivas. Em 2009, em Quihang, um garoto de 15 anos foi espancado até a morte por não conseguir correr por mais de meia hora. Até 2010, vários rapazes foram submetidos a tratamentos com eletrochoque em todo o país

Sermão para velhos

Para os chineses, o vício dos filhos é culpa dos pais. É por isso que, além de pagar 10 mil yuans (cerca de R$ 4 mil) por mês ao acampamento, os adultos também são obrigados a participar de palestras e entrevistas com psicólogos

Os jovens dormem em beliches e são responsáveis pela faxina e pela cozinha dos mais de 250 centros de tratamento do país



Você é viciado em Internet?Assinale as situações que são comuns na sua rotina

( ) Você sempre pensa no que está rolando na internet

( ) O tempo que você passa conectado nunca é o suficiente

( ) Até tenta ficar longe da web, mas não consegue

( ) Fica mais tempo conectado do que tinha planejado

( ) Já mentiu sobre quanto tempo fica online

( ) Você se sente desconfortável no meio de um monte de gente

( ) Em um lugar sem conexão, bate um desespero e uma deprê...

( ) Já esqueceu compromissos por causa da internet

( ) É normal fazer as refeições na frente do computador

( ) Você tem mais amigos virtuais do que reais



Respostas

De 0 a 2: Moderado

Você curte ficar conectado, mas conhece os limites e não gosta de trocar as experiências reais pelo mundo virtual. Continue assim!

De 3 a 5: No limite

Você sempre extrapola o tempo que fica online. Quando não está no computador, está no smartphone. Cuidado com o vício!

Mais de 5: Sinal vermelho

Sua vida é a internet e você não vive sem ela. É comum até conversar com a pessoa que está ao seu lado via chat. Se esse é o seu caso, vale a pena procurar a ajuda de um especialista (veja boxe)

FONTES Sites netaddiction.com e dependenciadeinternet.com.br e livro Vivendo Esse Mundo Digital, de Cristiano Nabuco de Abreu CONSULTORIA Sylvia van Enck, psicóloga clínica colaboradora do Núcleo de Dependência de Tecnologia da USP, e Kimberly Young, psicóloga e professora da Universidade Bonaventure


Fonte: Site da Revista Mundo Estranho
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/como-e-uma-clinica-de-reabilitacao-para-viciados-em-internet?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_mundoestranho

Doenças com nomes inspirados em personagens da literatura

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Fabio Mourão, no Dito pelo Maldito

Sabemos que a literatura inspirou inúmeras vertentes da nossa sociedade, seja nomeando grandes bandas de rock, constantemente adicionando novas palavras em nosso já vasto vocabulário, e, as vezes, até mesmo sendo capaz de prever o futuro com uma precisão assustadora. Mas dá pra imaginar que ela também se faz presente em meio a chagas, transtornos e doenças?

De fato, é bem provável que, fora das aventuras das páginas de um livro, muitos personagens literários fossem parar direto no divã de um psicólogo para tratar seus conflitos, nuances e contradições. No mundo real, esse conjunto de sintomas, seja físico ou psicológico, podem configurar uma síndrome, que não chega a ser necessariamente uma doença, mas são transtornos reconhecidos pela patologia médica que podem infernizar a vida do seu portador. E se olharmos o caso com mais detalhe, não por acaso veremos que muitos desses diagnósticos são definidos por nomes inspirados em conhecidos personagens da literatura.

Síndrome de Pollyanna
A personagem Pollyanna em questão é a jovem protagonista de um romance de Eleanor H. Porter. Órfã, mas contagiada por um incrível otimismo, ela sempre procurava enxergar o lado bom de qualquer situação, por pior que fosse.

Já a enfermidade que leva o seu nome consiste em um otimismo doentio, que leva o portador a arriscar a sua própria vida na crença cega de que ‘nada pode dar errado’.

Há também o ‘Princípio de Pollyanna’, que define pessoas que só conseguem guardar lembranças positivas de seu passado, apagando involuntariamente todas as experiencias negativas da memória.

Síndrome de Peter Pan
Peter Pan é o protagonista da peça teatral “Peter Pan, o menino que não iria crescer” escrito por James Matthew Barrie , sobre um menino que vive venturas fantásticas na Terra do Nunca, e nunca chega à puberdade.

Talvez seja o mais conhecido dos transtornos, justamente por ser considerado um grande mal da vida moderna, e é caracterizado principalmente pela imaturidade do portador. Embora o termo tenha sido aceito pela psicologia popular, oficialmente a síndrome não corresponde a qualquer doença ou distúrbio.

Síndrome de Dorian Gray
O protagonista do romance de Oscar Wilde, ‘O Retrato de Dorian Gray’,vende sua alma ao diabo em troca da juventude eterna.

A síndrome não é exatamente aceita como uma condição médica, mas a descrição da condição aflige àqueles que também não lidam bem com a ideia do envelhecimento. Algumas das soluções mais procuradas pelos afligidos são as cirurgias plásticas e drogas milagrosas que prometem esconder a passagem dos anos.

Síndrome de Alice
A protagonista de ‘Alice no país das maravilhas’ por Lewis Carroll, mudou o seu tamanho após ter bebido a poção “Beba-me” e comer o bolo “Coma-me”.

Aqueles que sofrem desta síndrome neurológica costumam ver as coisas (e até mesmo suas próprias partes do corpo) maior ou menor do que realmente são, e não há nenhuma poção ou bolo que a faça retornar ao seu tamanho original. Normalmente, a síndrome é resultado de grandes enxaquecas, tumores cerebrais ou abuso de drogas.

Síndrome de Rapunzel
A personagem Rapunzel é a protagonista de um conto de fadas dos Irmãos Grimm, famosa por suas longas tranças que permitiam seu amado a subir na torre em que vivia trancada.

Fique tranquila, a síndrome não é sobre ter adoráveis tranças. É um problema que diz respeito somente aqueles com tricofagia (mania de comer o próprio cabelo) que eventualmente forma uma bola de pelos no intestino, levando a todos os tipos de problemas cirúrgicos, inclusive a morte.

Síndrome de Pickwick
Joe Pickwick é uma criança gorda e narcoléptica citada no primeiro romance de Charles Dickens, “O Diário Póstumo do Clube Pickwick”.

Oficialmente conhecida como Síndrome da Obesidade-Hipoventilação, é uma condição que aflige pessoas obesas com a respiração fraca, resultando em sonolência e dores de cabeça.

Síndrome de Otelo

O protagonista de “Othello” por William Shakespeare, mata sua esposa porque acha (erroneamente) que ela está sendo infiel.

Também conhecida como ‘ciúme delirante’, define o sofrimento daqueles que são obcecados com a fidelidade de seu parceiro(a), apesar de todas as evidências provarem o contrário. Muitas vezes associada ao alcoolismo, distúrbios neurológicos, doenças mentais, pensamentos suicidas e, frequentemente, homicidas.

Síndrome de Munchausen
O protagonista de “As Surpreendente Aventuras do Barão Munchausen” (Rudolf Erich Raspe) é inspirado por uma pessoa real, um oficial de cavalaria alemão famoso pela sua inventividade.

Pessoas com essa síndrome, embora saudáveis, sempre tentam convencer os outros de que possuem alguma enfermidade. Ao contrário dos hipocondríacos, eles realmente sabem que não estão doentes, mas fazem esta cena apenas para chamar a atenção.

Síndrome de Cinderela
A protagonista deste conto de fadas tradicional (popularizado pelos Irmãos Grimm) vive com uma madrasta e suas filhas que tornam a sua vida um inferno.

As crianças que sofrem desta síndrome costumam contar histórias exageradas sobre como seus pais ou padrastos os maltratam. Há também o Complexo de Cinderela, que consiste no medo de independência e o desejo de ser conduzido por outras pessoas.

Síndrome de Huckleberry Finn
O protagonista de “As Aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain, é um cara inteligente, que, depois de ter sido educado por um pai bêbado, tem dificuldade em se encaixar na sociedade.

As pessoas que portam esta síndrome são incapazes de tomar decisões e assumir qualquer responsabilidade pelos seus atos. Normalmente, o transtorno é ligado a alguma rejeição dos pais na infância.

E aí, conhece alguém diagnosticado com alguma dessas síndromes? Ou será você que possui uma delas e nunca percebeu?




Fonte: Site Livros só mudam pessoas

http://www.livrosepessoas.com/2015/05/24/doencas-com-nomes-inspirados-em-personagens-da-literatura/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+livrosepessoas+%28Livros+s%C3%B3+mudam+pessoas+%3A+%29%29

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Tomando um rumo errado com a “Paisagem Moral”


livro_a_paisagem_moral_correto_201013Eu realmente, realmente queria gostar do livro A Paisagem Moral: Como a ciência pode determinar os valores Humanos, de Sam Harris. Uma grande parte das minhas divergências filosóficas com meu namorado e com os cristãos em geral centravam-se sobre a questão de saber se uma crença na moralidade absoluta é compatível com o ateísmo, então cruzei meus dedos para que ver se este livro seria útil para mim como uma refutação.
Mas não.
Os problemas começam com a definição que Harris dá da ciência:
Algumas pessoas [definem] “ciência” em termos extremamente estreitos, como se fosse sinônimo de modelagem matemática ou acesso imediato aos dados experimentais. No entanto, isso é confundir a ciência com algumas de suas ferramentas. A ciênciasimplesmente representa nosso melhor esforço para entender o que está acontecendo neste universo, e as fronteiras entre ela e o pensamento racional nem sempre pode ser determinada.” [grifo nosso]
Então, em outras palavras, o subtítulo “como a ciência pode determinar os valores humanos” pode ser reformulada em “como a filosofia pode determinar valores humanos” ou mesmo “como pensar bem pode determinar os valores humanos”. Eu não discordo dessas reformulações nas frases, mas não são mais controversas ou dúbias.
E esse é realmente o problema com o livro inteiro. Harris usa seu método “científico” para derivar verdades morais realmente chatas e óbvias. Qualquer sistema moral decente deve ser capaz de argumentar que a mutilação genital feminina é ruim e que a existência de psicopatas não refuta a existência de sistemas morais. Você tem que usar exemplos melhores do que isso para explicar o sistema de raciocínio moral.
Harris parece ser um utilitário, mas ele nunca fala muito sobre como ele define utilidades. Ele fala muito sobre a felicidade, mas ele claramente não aceita todas as experiências subjetivas de felicidade como legítimas uma vez que ele afirma que a sua felicidade só é legítima na medida em que promove a felicidade e o bem-estar dos outros. Se ele realmente explorasse a fundo dilemas morais realistas, eu teria uma melhor compreensão do que ele quer dizer como ‘bem-estar’ . Assim, ele passa a maior parte do seu tempo discutindo hipóteses futuras bizarras como executar um sistema de justiça ou uma sociedade se pessoas quimicamente podem ser compelidas a não mentir.
Em última análise, Harris coloca sua esperança para o progresso moral em avanços científicos. Ele assume que a principal limitação para a tomada de decisões morais é a falta de dados. De acordo com Harris, para progredimos, precisamos ser capazes de diferenciar com mais precisão entre os diferentes resultados. Isto parece limitar o comportamento moral para as pessoas que entendem a ciência social e estatística bayesiana. Tanto quanto eu amo as duas coisas, eu acho que é possível cultivar uma atitude moral, sem um certo conhecimento dos resultados. Mas isso não é surpreendente, dado que eu estou na ética da virtude.
Fonte: Site Logos Apologética Cristã
http://logosapologetica.com/tomando-rumo-errado-paisagem-moral/

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Hegel e a dialética do Facebook



As redes sociais e as formas de escravidão virtual





Diz-se que a filosofia ocidental é apenas uma grande nota de rodapé da obra de Platão. Se isso for verdade, Hegel escreveu algumas das notas de rodapé mais influentes. No colossal projeto que cria a rede de influência de um pensador sobre outro ao longo da história da filosofia mundial, Hegel aparece como um ponto de convergência maior e mais pulsante que Platão (talvez ele perca apenas para Nietzsche ou Marx). Ou seja, se a filosofia mundial fosse o Facebook, Hegel seria popular pra caralho.
Hegel não é fácil de ler, mas acabamos travando contato com suas teorias através dos livros de outros autores. Sartre, Camus, Honneth, Marx, Lacan, Weber, Freud, são alguns dos autores que se inspiraram na dialética de Hegel. Há mais de Hegel na literatura e na cultura atual do que se pensa, inclusive na nossa relação de uso com a Internet.
Dax Dorman

O Paradoxo do Senhor e do Escravo 2.0

Hegel ficou célebre pelo livro “A Fenomenologia do Espírito”, especialmente pela parábola do Senhor e do Escravo, que em linhas bem gerais é:
NO MUNDO DAS REDES SOCIAIS SOMOS O SENHOR QUE DITA O QUE A MÁQUINA VAI FAZER OU O ESCRAVO QUE FAZ O QUE A MÁQUINA MANDAR?
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• O Senhor obriga o escravo a fazer o que ele quer, enquanto ele, o Senhor, vive a boa vida. O senhor não planta, limpa ou pega pesado, ou seja, ele não conhece mais os mecanismos do mundo real, uma vez que interpôs um Escravo entre ele e o mundo. O Senhor é livre porque manda no Escravo, mas é ele quem depende do Escravo para tudo, ou seja, o Senhor é, dialeticamente, escravo do Escravo.
• Por sua vez a dependência do Escravo com o Senhor gera, no Escravo, uma espécie de liberdade. É por medo de sofrer que o Escravo não se rebela, mas o Escravo não percebe que sua vida já é puro sofrimento. Diante de duas vias sem saída (rebelar-se e morrer e submeter-se e sofrer) o Escravo encontra uma nova forma de liberdade, desenvolvendo uma nova consciência pessoal. Trabalhando para o Senhor o Escravo se sente parte de um sistema, portanto, livre.
• Ou seja, tanto o Escravo quanto o Senhor existem dentro da mesma dialética, um depende do outro, um não existe sem o outro.
Claro, esta é uma visão simplista das coisas. Mas se substituirmos os termos adotando a dialética pura e simples, que postura assumimos hoje diante do mundo? Afinal, quem manda em nós? Do que ou de quem somos escravos? Da mídia? Do sexo? Do vício? Da Internet? No mundo das redes sociais somos o Senhor que dita o que a máquina vai fazer ou o Escravo que faz o que a máquina mandar? É aí que eu quero chegar.
Dax

O canibalismo virtual/social: comemos o que criamos e viramos comida para os outros

Acredite: a Internet vende quando dá. Nada na web é de graça. Nada. Neste exato momento, enquanto você lê este texto, alguém (não eu) está ganhando dinheiro às suas custas. E isso é ruim? Genericamente não, afinal, alguém precisa receber por manter a Internet fluindo de um lado a outro. O problema é quando usuário “trabalha” para o sistema sem saber, ou se torna em matéria prima para o lucro de outras pessoas.
A SUA ATENÇÃO E A MINHA DEDICAÇÃO (MESMO QUE FALHA) EM CRIAR ESTA PEQUENA COLEÇÃO DE CARACTERES É A CÉLULA QUE SUSTENTA A “LIBERDADE” E “GRATUITIDADE” DOS SERVIÇOS SOCIAIS DA INTERNET
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Uma rede social é, por simples dizer, uma conexão feita entre pessoas reais em torno de uma “sociedade” virtual. Há, nesta cópia da vida real, uma sensação de liberdade e de domínio da vida que não existe no mundo concreto. Mais do que liberdade, há a noção de pertencimento. Enquanto escrevo esse texto, tenho a crença de que ele é algo meu dentro do Medium – ondefoi publicado originalmente – quando na verdade o meu trabalho é parte do patrimônio do Medium. Estou dedicando algumas horas da minha vida para manter algum nerd do Vale do Silício confortável em seu apartamento ao lado de uma lareira tomando um bom vinho. Estou trabalhando para a rede gratuitamente e feliz.
Posso crer que sim, o Medium de alguma forma me recompensa pelo meu trabalho, me oferecendo um o ambiente onde eu possa me expressar e entrar em contato com você, o leitor. Eu escrevo, você lê, eis o meu pagamento. Mas esta forma de “pagamento” não é entre eu e o Medium, é entre eu e você. Quem me paga por escrever para o Medium não é o Medium, é você. E quem paga para você perder o seu tempo lendo o meu texto sou eu. A sua atenção e a minha dedicação (mesmo que falha) em criar esta pequena coleção de caracteres é a célula que sustenta a “liberdade” e “gratuitidade” dos serviços sociais da Internet.
a) que cada um apareça na consciência do outro como tal, o que o exclui toda a extensão de sua singularidade; e
b) que, nesse seu excluir, ele seja realmente totalidade…”
 Georg Wilhelm Friedrich Hegel. A terceira potência da posse e da família. 1803/1804
Saturno devorando seu filho. Goya.
Saturno devorando seu filho. Goya.
O QUE ME PRENDE A UMA REDE SOCIAL? BASICAMENTE O RECONHECIMENTO. VOCÊ SE LOGA PARA SABER QUE É VOCÊ MESMO.
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Estou citando o exemplo do Medium pois estou agora aqui, dentro dele, mas em redes sociais onde o contato usuário/usuário é mais intenso o “pagamento” pelo “trabalho” se dá sempre entre os que usam a rede e de modo cada vez mais controlado. Algoritmos selecionam a notícia que iremos ver de acordo com o nosso humor ou partido político, amigos são sugeridos de acordo com o nosso afeto ou inveja. É um moto-contínuo de autofagia de conteúdo onde:
• o utilizador produz o conteúdo,
• é pago pelo que produz com o que ele mesmo produziu (tirei uma foto, sou pago pela sensação de que aquela foto dentro do Instagram vale mais do que dentro do meu celular, ou em outra rede qualquer),
• com isso o usuário atrai outros utilizadores para manter o ciclo ativo, afinal, quanto mais gente tiver dentro da rede, maior é o seu pagamento.
• É um caso raro, quem sabe único, onde o escravizado se auto-escraviza e ajuda a escravizar outros.
Ou seja, não apenas trabalhamos de graça para a Internet como somos enganados por ela pensando criar algo próprio, iludidos pela novidade, quando na verdade estamos comendo o próprio figado. Damos a ela informações preciosas sobre nossa vida íntima. Confiamos às redes nossos gostos, desejos, fantasias sexuais, perversões, ideologias. Nunca na história da humanidade um único veículo deteve e controlou tanta informação privada.
Os defensores do sistema de recompensas da Internet afirmam que cada um se torna eternamente responsável pelos botões que clica. Ninguém é obrigado a abrir um perfil numa rede social, nem a ficar horas vendo fotos de gatinhos. E se eu não sou obrigado a ter um perfil social (e muitas pessoas vitoriosas não tem), como pode haver algum tipo de escravidão virtual? Que tipo de punição existe da rede contra o usuário? O que me prende a uma rede social? Basicamente o reconhecimento. Você se loga para saber que é você mesmo.
Dax

O click do amor

Estamos na Internet para nos ligarmos ao conceito hegeliano de “espírito do tempo”. Temos a impressão (não de todo errada) que o tempo e a história são representados pela Internet e não participar disso fere nossa humanidade. A rede social é a sala de estar do mundo. Nela sabemos do que precisamos e não precisamos saber e a punição por não participar é o medo de não ser reconhecido. E nada assusta mais as pessoas do que passar em branco.
Axel Honneth (um dos grandes nomes da Escola de Frankfurt) foi quem melhor explicou os conceitos de rede social quando o termo se referia apenas a uma rede pessoas “reais” interagindo no mundo “real”. Para Honneth, a vida social baseia-se no reconhecimento. Vivemos para ver, através dos nossos semelhantes, o nosso valor. Há muitas formas de ser “reconhecido” socialmente, mas quando falamos de Honneth três tipos são primordiais. O reconhecimento pelo amor, pelo direito e pela solidariedade. Não por acaso as redes sociais apoderaram-se destes três conceitos de modo quase imperialista.
O amor (e entendam amor no sentido de afeto) nos é dado pela sensação de amizade. 1500 amigos no Facebook (ou no Instagram, ou no Twitter, ou onde for) podem criar o sentimento de “amor” que os sociólogos esperavam, até pouco tempo atrás, que somente a vida social fosse capaz de oferecer. O amor da rede social é o amor que os outros podem ver. O amor da foto da comida, da festa, dos encontros. Passamos a viver a vida real apenas para alimentar a vida virtual. Viajamos, vamos ao cinema, lemos, tudo isso para criar um Eu ideal, culto, descolado, amado.
Cada curtida é uma gota de reconhecimento e de afeto, afinal, em algum lugar, alguém usou os músculos dos dedos para mover o cursor do mouse pela tela e dar um joinha pra você.
Dax
A outra forma honnethiana de reconhecimento é o reconhecimento de direito. Precisamos sentir que nossos direitos estão sendo respeitados, perante a Humanidade, o Estado ou Deus. A rede social plastificou isso com o “ativismo de sofá”. Claro, muitos movimentos de revolta social nasceram na internet, o Brasil tem exemplos recentes disso, mas quantos outros atos de revolta se resumem apenas a “xingar muito no Twitter”?
A SOLIDARIEDADE, A ÚLTIMA FORMA DE RECONHECIMENTO, É, DENTRO DO AMBIENTE DA REDE SOCIAL, ABORDADA DE MANEIRA AINDA MAIS HIPÓCRITA E GROTESCA
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Transferimos nossa revolta cotidiana para o mundo da rede. Lá nossas opiniões serão validadas, encontraremos outros revoltados como nós, não estaremos sozinhos dentro de nossa injustiça. Neste viés, uma empresa que não nos atendeu como deveria pode ser punida, um governo pode ser questionado com uma foto bacana e um BASTA em caps lock. Nosso sentimento de injustiça não serve mais para mover as coisas da vida real. É bom pra rede e bom para governos corruptos, afinal a plastificação da revolta ajuda a manter gente canalha no poder enquanto o cidadão médio escreve seu “textão do Facebook”.
A solidariedade, a última forma de reconhecimento, é, dentro do ambiente da rede social, abordada de maneira ainda mais hipócrita e grotesca. Compartilhar a desgraça, expressar apoio aos menos favorecidos, replicar ideais boa convivência (Gentileza Gera Gentileza), tudo isso prova para os outros que você é um ser humano bom. Se você é um filho da puta egoísta na vida real há grandes chances de ser um severo apoiador da filantropia virtual, uma filantropia que não doa um centavo sequer a ninguém que precise de fato. A dor do outro é avaliada pela quantidade de “curtidas”. A popularidade da dor pode aplacar a dor. A miséria compartilhada deixa de ser miséria, se torna menos chocante e mais distante. Incomoda menos saber que alguém sofre se o sofrimento é repaginado com uma bela mensagem de Clarice Lispector.
Dax
Manipulando as principais formas de reconhecimento a rede social é o Senhor que comanda seus Escravos com design e sofisticação. Redes sociais para amantes de vinhos, amantes de carros, amantes de cinema e para quem precisa achar um (uma) amante. Comemos, bebemos, trabalhamos, fodemos, tudo isso dentro de uma rede social. Os chicotes são sutis, porém precisos e severos. O Facebook vai engolindo outras redes, o Google se aglomera e se torna cada dia mais presente. Empresas de tecnologia ditam a moda, o pensamento, o ritmo da vida das pessoas. Quem diria há vinte anos atrás que haveria jornalismo especializado em notícias sobre… celulares?
O avanço tecnológico se resume ao avanço da capacidade de conexão com as redes sociais. Apoderada de todos os ramos da vida a rede abraçou a cultura, há agora a cultura geek, um ramo da cultura moderna que abre debates socráticos sobre a potência de uma placa de vídeo ou câmera de celular. O que é melhor, iOS ou Android? Aparelhos mais potentes, mais caros, que fazem basicamente a mesma coisa: manter você dentro da rede. E uma vez dentro da rede você é o Escravo que encontrou no trabalho o sentido da sua vida. Produzir conteúdo para as redes é agora o seu prazer. Você não vê mais as correntes. Não há rede sem usuário, não há senhor sem escravo.
Você é livre, a internet é sua, e você não é pau-mandado de ninguém.

Valter Nascimento é livreiro, escritor, estudante de relações internacionais. Textopublicado originalmente no Medium. Republicado com permissão do autor..
Os gifs são do artista Dax Norman
Fonte: Site B9
http://www.b9.com.br/57887/social-media/hegel-e-a-dialetica-do-facebook/