terça-feira, 12 de maio de 2015

Entrevista: “O culto dos chamados mortos faz parte das sociedades africanas em geral”

Uma breve abordagem sobre o movimento espírita em Moçambique e a penetração das ideias espíritas
no continente africano
  
Afonso Sicandar (foto) nasceu e reside em Maputo, capital de Moçambique. Espírita há quinze anos, vincula-se ao Grupo Espírita Allan Kardec. Licenciado em Informática de Gestão e bancário, domina bem os idiomas português, francês, inglês e espanhol. Nas respostas que se seguem, temos uma visão do movimento espírita naquele país, cujas raízes se estendem para outros países do continente.  
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O Consolador: Como você se tornou espírita?

Cresci no meio de duas religiões, a cristã pela minha mãe e islâmica pelo meu pai. Ambas não respondiam às minhas indagações, ou pelo menos de maneira lógica e racional. "Acidentalmente" participei num dos evangelhos aos sábados às 15h da Comunhão Espírita Cristã de Moçambique (CEC), a instituição matriz da Doutrina em Moçambique. Depois passei a frequentar os cursos e os estudos e, pontualmente, a participar das atividades.
O Consolador: Como você pode descrever o movimento espírita em seu país?
Depois de muitos anos de algum retrocesso por motivos históricos, nos últimos dois ou três anos, com ajuda de alguns irmãos do Brasil, trabalho e comprometimento dos irmãos em Moçambique, penso que estamos no bom caminho.
O Consolador: Quantas instituições existem no país e na capital?
Na capital de Moçambique, Maputo, temos 3 instituições. Existe algum trabalho do Grupo Arco-Íris, liderado pelo irmão Raul Calane, na tarefa de levar o conhecimento do Espiritismo para a Beira, a segunda maior cidade do país.
O Consolador: Quais as maiores dificuldades encontradas?
A primeira dificuldade é de ordem humana. Existe a dificuldade de entendermos que a Doutrina não vai resolver os nossos problemas. É o meio para a resolução dos nossos problemas, mas passa por um comprometimento individual de nos transformarmos interiormente. A outra grande dificuldade é de ordem material. Explico: falta de livros, material didático e espaços físicos para instalação das instituições, razão pela qual as duas instituições servem-se do espaço dispensado pela CEC.
O Consolador: Qual a influência brasileira no movimento espírita do país?
Tem sido de alguns irmãos que fazem parte do movimento espírita brasileiro, os quais com sua inestimável ajuda têm permitido alterar esta progressão lenta do Espiritismo em Moçambique. Nomeadamente o Raul Teixeira, Emanuel Cristiano, Orson Peter Carrara, Pedro Aganian. Temos também tido um subsídio muito grande do movimento espírita Sul Africano de Johannesburg. Temos estado há um ano a trabalhar com Angola, via Pedro Aganian, tentando organizar seminários conjuntos e criar sinergias nas ações possíveis. 
O Consolador: Pela própria influência africana, culturalmente considerada, há prejuízo no progresso da Doutrina Espírita no país?
De forma nenhuma, pois a cultura africana é na sua base ou essência espiritualista. É óbvio que existe uma componente ritualística muito material, mas o culto dos chamados mortos faz parte das sociedades africanas em geral. 
O Consolador: Você considera que está havendo crescimento da cultura espírita no país?
Tem havido uma adesão muito boa, mas não me parece algo consolidado. É esse trabalho de consolidação que tem sido o nosso desafio nos últimos anos. 
O Consolador: Como e por quê?
Porque o movimento tem tido um crescimento de fato lento, mas contínuo e relativamente seguro. Isto resulta de ações empreendidas que pareciam impensáveis há 3, 4 anos atrás, com um sucesso relativo. Por exemplo, o início de um primeiro curso de introdução à Doutrina com uma afluência um pouco acima das nossas expectativas, a existência de palestras mensais temáticas, as atividades caritativas com alguma maior consistência. Penso que são sinais claros de crescimento. Obviamente que se tivéssemos um apoio mais constante e seguro do Brasil espírita, estou a crer que mais poderia ser feito, mas penso também que temos que fazer mais para merecer esse apoio.
O Consolador: E a integração interna entre os espíritas do país, como ocorre?
Já houve momentos de maior dificuldade. Penso que agora cada um dos grupos encontrou o seu lugar e temos trabalhado de forma cooperativa e coordenada. Está-se a desenvolver uma grande simbiose.
O Consolador: Existe algum intercâmbio com outros países do continente?
Tal como indiquei anteriormente, mantemos um intercâmbio duradouro com a África do Sul e estamos tentando fortalecer e desenvolver o que existe com os movimentos em Angola. 
O Consolador: A literatura espírita produzida no Brasil chega com facilidade até o país?
A maior dificuldade que temos é de fato com o acesso à literatura espírita, pois, como se sabe, Moçambique é um dos países mais empobrecidos do mundo. Para a generalidade das pessoas, comprar um livro exige um sacrifício extremamente grande (o preço médio de um livro corresponde a 40% do salário mínimo); isso por um lado, e por outro as obras brasileiras chegam a Moçambique com muita dificuldade. A primeira Feira do Livro Espírita conseguimos realizar com a ajuda abnegada de muitos irmãos espíritas brasileiros que doaram muitas obras que nos permitiram por um lado reforçar a nossa biblioteca e por outro vendê-los a preços muito acessíveis.
O Consolador: Como o Brasil pode colaborar mais ativamente com o movimento espírita africano?
Penso que é um grande desafio para o Brasil, pois seria mais o entrosamento do desejo de grande parte dos africanos dos PALOP (1) com uma das componentes mais valiosas que resultam da identidade brasileira. Sendo mais específico, creio que a extensão dos canais de televisão e rádio espíritas existentes no Brasil para o continente africano seria um primeiro passo, um pouco à semelhança do que têm feito determinados canais de televisão e de rádio, que, sem grandes alterações nos conteúdos e com alguma adaptação nos horários, fazem transmissões para o continente via DSTV (2). As editoras brasileiras e espíritas precisam também começar a olhar para os PALOP e para África lusófona, em particular, como uma oportunidade de divulgação da nossa maravilhosa doutrina. Volto a frisar: é um grande desafio para o Brasil.
O Consolador: E a experiência da feira do livro, como foi?
Foi uma experiência muito gratificante não só pela afluência, mas sobretudo pela apetência que sentimos por parte dos espíritas e dos curiosos que acorreram ao evento. Desse número de curiosos, muitos deles hoje participam do primeiro curso de introdução à Doutrina organizado e levado a cabo por espíritas de Moçambique.
O Consolador: Trace um perfil das reuniões espíritas públicas na instituição em que participa.
Existem três grandes grupos. Aqueles que estão à procura de respostas e têm vindo como curiosos sem grande compromisso, mas à procura de soluções para os seus problemas individuais. Aqueles que já têm as bases doutrinárias e assimilaram o compromisso de automelhoramento e trabalham para esse propósito.  E, por fim, aqueles que depois do comprometimento sentem a necessidade do trabalho caritativo, sendo este grupo mais reduzido. Penso que é uma situação comum nas casas espíritas. É importante não esquecer que a liberdade religiosa, por razões históricas, só se fez sentir nos últimos 20 anos em Moçambique, pois tivemos uns longos períodos de alguma limitação ou mesmo restrição da liberdade religiosa.

Notas:
(1)
 PALOP - Os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, cuja sigla é PALOP, é um grupo formado em 1996 por seis países lusófonos africanos: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe. Cinco deles foram colônias de Portugal na África e obtiveram sua independência entre 1974 e 1975. O outro é a Guiné Equatorial, que em 2007 adotou o português como língua oficial.
(2) DSTV é a sigla em inglês de Digital Satelite Television. É TV digital por satélite, como a Net Sky. E existe nos USA, Portugal, Angola, Moçambique e outros países.
(3) Contatos com o confrade Afonso Sicandar podem ser feitos por meio destes correios eletrônicos: asicmz@gmail.com e  asicandar@millenniumbim.co.mz.


Fonte: Site O Consolador

 
http://www.oconsolador.com.br/ano3/134/entrevista.html

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