terça-feira, 5 de maio de 2015

Os 750 anos de Dante e a catolicidade da Divina Comédia

Nos 750 anos de nascimento de Dante, sua obra-prima, a Divina Comédia, continua exibindo a fé vigorosa e rigorosa do poeta, embora livre e sincera. Esse é um dos tantos contrapontos que tornam o poema um texto supremo na sua capacidade de manter em harmonia perfeita os antípodas.

Por Gianfranco Ravasi*
Poucos sabem que a Dante foi dedicada uma encíclica papal inteira. Era o dia 30 de abril de 1921 e celebrava-se o sexto aniversário da morte do poeta: Bento XV publicava In praeclara summorum, uma encíclica que, além de celebrar "a prodigiosa vastidão e argúcia do seu gênio", convidava a "reconhecer que belo e poderoso impulso de inspiração ele obtinha da fé divina".

Uma consideração que esteve na base de outro texto papal, emitido no dia 7 de dezembro de 1965, a apaixonada carta apostólica Altissimi cantus, de Paulo VI. A data era significativa, não só porque se referia aos 700 anos do nascimento do poeta, mas também porque era a véspera do encerramento solene do Concílio Vaticano II, e a todos os padres conciliares o papa havia dado uma cópia da Divina Comédia, quase como texto sagrado para se meditar.

Com uma exclamação intensa e até mesmo ardente, Paulo VI declarava: "Dante é nosso! Nosso, queremos dizer, da fé católica". E exaltava da obra-prima dantesca não apenas a alta dimensão poética, mas também a potência performática, capaz de "mudar radicalmente o homem e de levá-lo da desordem à sabedoria, do pecado à santidade, da miséria à felicidade, da contemplação aterrorizante do inferno à beatificante do paraíso".

É preciso lembrar que o amor desse pontífice por Dante esteve vigorosamente entrelaçado com toda a sua existência: é o que recentemente demonstrou Giuseppe Frasso, professor de literatura italiana da Universidade Católica de Milão, em um artigo publicado na revista Vita e Pensiero, no qual se realizava "uma sondagem de duas zonas apenas da história humana de Giovanni Battista Montini, os anos juvenis e os anos do pontificado", para descobrir que estavam marcados pela presença fecunda de Dante.

Não é por nada que, naquele mesmo ano centenário, precisamente no dia 19 de setembro de 1965, Paulo VI quisera enviar uma cruz de ouro a ser deposta sobre o túmulo do poeta em Ravenna, e, no dia 14 de novembro de 1965, o secretário de Estado, o cardeal Amleto Cicognani, acompanhado por cerca de 500 padres conciliares, tinha colocado uma coroa de ouro no Batistério de Florença, "o belo São João" que vira o início da vida cristã de Dante.

Agora, no próximo dia 4 de maio, no Senado italiano, perante o presidente Mattarella e as mais altas autoridades do Estado, quando se celebrarão os 750 anos do aniversário, eu terei a honra de ser portador de uma mensagem do Papa Francisco, que se aproximará dos seus antecessores no louvor e na admiração por esse grande poeta e fiel.

O mesmo pontífice, aliás, na sua primeira encíclica, a Lumen Fidei, tinha representado a luz da fé, que envolve e coenvolve a existência humana inteira, através de uma imagem dantesca, a "centelha / que se expande depois em viva chama / e, como estrela no céu, em mim cintila" (Paraíso XXIV, 145-147).

Joseph Ratzinger, na sua obra teológica mais conhecida antes de se tornar Bento XVI, isto é, a Introdução ao cristianismo, também tinha evocado uma passagem do último canto do poema dantesco: "No seio seu da própria cor tingida / a própria efígie humana oferecia: / foi nela a vista minha submergida" (Paraíso XXXIII, 130-132; na tradução portuguesa de José Pedro Xavier Pinheiro).

Com uma livre aplicação, ele entrevera nela um autorretrato do próprio poeta: "Contemplando o mistério de Deus, ele percebe, com transe extático, a própria imagem, um rosto humano, no centro do ofuscante círculo de chamas formadas pelo 'Amor que move o sol e as outras estrelas'".

O que é certo é que, sem um sério instrumental teológico, a Divina Comédia permanece como uma "floresta escura": ela só é totalmente penetrável mantendo fixa a estrela-guia da fé cristã.

Uma fé vigorosa e rigorosa, embora livre e sincera, como atestam as severas críticas da Igreja da época. Esse é um dos tantos contrapontos que tornam o poema um texto supremo na sua capacidade de manter em harmonia perfeita os antípodas.

Pensemos na euritmia admirável entre a poesia puríssima e a mais refinada especulação teológica. Ou na extraordinária combinação entre a absoluta criatividade do gênio poético e a marca rígida do hendecassílabo e da rima, como aconteceria, de maneira similar na excepcional consonância entre a impecável e sofisticada técnica musical de Bach e as suas fascinantes arquiteturas melódicas.

Ou pensemos ainda na interação única entre abstração temática e palavra pintada, como, por exemplo, ocorre no Antipurgatório diante de uma fileira de almas que avançam "como as ovelhas saem do redil / a uma, duas, três, e a cerviz tendo / baixa, as outras vão tímidas ficando, / todas como a primeira, se movendo, / conchegam-se-lhe ao dorso, se ela para, / o porquê, simples, quietas não sabendo" (Purgatório III, 79-84; na tradução portuguesa de José Pedro Xavier Pinheiro).

Poderíamos continuar longamente essa lista dos incríveis equilíbrios harmônicos da escrita dantesca entre polos antitéticos. De fato, há também o arco-íris das sintonias entre história e transcendência, entre carnalidade e espiritualidade, entre contingência e eternidade, entre epifania e mistério, entre pecado e graça, entre tragédia e glória, entre crônica e profecia, entre justiça e salvação.

Em Dante, cumpre-se verdadeiramente a definição de belo cunhada por outro grande poeta, Rilke, no próprio início das suas Elegias de Duíno: "O belo nada mais é do que o início do terrível".

Nessa suprema "simbolicidade" – no sentido etimológico do termo, ou seja, do "manter juntos" os extremos – a trajetória que rege todo o itinerário terrestre, infernal e celestial de Dante é o trânsito "ao eterno pelo tempo" (Paraíso XXXI, 38), é, em última análise, o fato de mostrar "como o homem se eterniza" (Inferno XV, 85).

E é sob essa luz que se torna fundamental a busca do rosto de Cristo, homem e Deus, aquele rosto que o peregrino contempla no véu da Verônica, interrogando-se: "Ó Jesus, meu Deus piedoso!
Tal o semblante vosso parecia?" (Paraíso XXXI, 107-108; na tradução portuguesa deJosé Pedro Xavier Pinheiro).

E um grande leitor de Dante como Borges, em um texto seu intitulado justamenteParadiso XXXI, 108, presente no Artífice (1960), respondia assim a essa pergunta:"Perdemos esses traços... Podemos vê-los e ignorá-los... Talvez um traço do rosto crucificado espreita em cada espelho; talvez o rosto morreu, apagou-se, para que Deus seja todos".
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* A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Avvenire, 02-05-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU online, 05/05/2015
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