terça-feira, 5 de maio de 2015

RESENHA: O Artista do Povo: Mazzaropi e Jeca Tatu no cinema do Brasil

RESENHA
O Artista do Povo: Mazzaropi e Jeca Tatu no cinema do Brasil
BUENO, Eva Paulino
Tradutor: Thomas Bonnich
Maringá, EDUEM, 2000
ISBN: 85-85545-36-4 - Formato: 15,5 x 21,5 - 214 pp.
pedidos: eduem@uem.br

 Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Professor no Departamento de Ciências Sociais (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

Retratos do Brasil

Há livros que precisam ser escritos e ainda bem que encontram pessoas capazes de cumprir esse desígnio. É certo que existem outras maneiras de transmissão do legado das velhas gerações: o cinema é, indubitavelmente, uma delas. Porém, nada substitui um livro bem escrito e bem cuidado. Se as imagens nos encantam, os livros dão asas e alimentam a imaginação.
Por outro lado, é impossível não se deixar envolver diante da mágica das imagens, da criatividade do cineasta, do desempenho do ator e da atriz, das emoções transmitidas num olhar, numa fala e num gesto. Livros e filmes transmitem mensagens que decodificamos à nossa maneira. São artes que não se excluem, antes, se complementam. Mas têm as suas especificidades. É ilusório imaginar que o filme substitui o livro: a arte cinematográfica obedece a uma dinâmica diferenciada que exige adaptações (as quais levam em conta a interpretação do diretor, os interesses comerciais etc.).
Há livros e livros, filmes e filmes... Existem filmes para todos os gostos, e livros também... O importante é que cumprem uma função social. Não, não é nosso intuito escrever um ensaio sociológico sobre a função social dos tipos literatura ou da cinematografia. Não obstante, há livros cuja função é precisamente resgatar o passado, libertar os indivíduos e a sua obra do ostracismo, salvá-los do esquecimento.
Esse é o caso de O Artista do Povo: Mazzaropi e Jeca Tatu no cinema do Brasil, de Eva Paulino Bueno. Como assinala a autora, Mazzaropi foi um autodidata: não tinha educação formal. Seu conhecimento se fundamentava na experiência de vida, em viagens e atividades que desenvolveu no circo, no rádio e no cinema. Como artista circense, percorreu vários lugares pelo Brasil, aprendeu com os mais diversos tipos humanos que, depois, representaria em seus filmes. O criador de Jeca Tatu expressa a linguagem deles.
Mazzaropi reproduz em seus filmes um período histórico no qual o Brasil rural começava a dar lugar ao Brasil urbano. Foi uma fase de explosão da migração de um enorme contingente de brasileiros que, com o intuito de se livrar das secas freqüentes e de outras calamidades, se dirigiam aos grandes centros. Esses brasileiros, comparados aos que viviam nas cidades do Brasil moderno que surgia, pareciam vir de outro mundo e tinham a esperança de melhorar a vida.
Essa nova realidade social produz conflitos de identidade. “O que Mazzaropi insistentemente explora em seus filmes é o choque do reconhecimento e a sensação de estranhamento, elementos simultâneos que tais brasileiros deslocados percebem quando se confrontam com “outros brasileiros” semelhantes e diferentes ao mesmo tempo”, ressalta a autora. (BUENO, 1999: 16)
Os filmes de Mazzaropi identificam-se com esse povo simples; e esse se identifica com os personagens que vê nas telas. Sua platéia é, em geral, excluída do ambiente universitário, carente em sua formação educacional formal; são pessoas para as quais as imagens são muitas vezes a única possibilidade de acesso às informações.
Os filmes de Mazzaropi pertencem ao âmbito da cultura popular, se diferenciando do estilo vanguardista do Cinema Novo, cuja elaboração se funda numa leitura do Brasil e do seu povo destinada às camadas médias urbanas e intelectualizadas. Enquanto o Cinema Novo desenvolve um estilo sério, com o objetivo de provocar a reflexão sobre a realidade brasileira, Mazzaropi trata temas sérios numa perspectiva cômica.
O público dos filmes de Mazzaropi concentrava-se nas periferias das grandes cidades e também em cinemas situados nas regiões mais remotas do país. Era um público fiel, que esperava anualmente a estréia dos novos filmes de Mazzaropi. Para muitos era a única época em que se davam ao luxo de freqüentar o cinema.
Cinema Novo obteve reconhecimento internacional, Mazzaropi não. Os críticos de cinema, em geral, não lhe deram o devido valor e ignoraram sua obra. Mazzaropi se orgulhava de não necessitar de FINANCIAMENTO estatal para fazer seus filmes: sua platéia garantiu as condições para a sua produção. Ele fazia filmes para as grandes massas.
No primeiro capítulo a autora analisa essas questões e o significado da obra de Mazzaropi enquanto expressão da cultura popular, contraposta à cultura elitista. Em cada capítulo, a autora pega o leitor pela mão e explica os caminhos que percorrerá. Num estilo simples e agradável, ela nos introduz no mundo de Mazzaropi, um mundo que representa a realidade vivida por nossos pais, avós e muitos de nós.
No segundo capítulo, Eva Bueno estuda o universo dos primeiros filmes de Mazzaropi, nos quais ele trabalha como autor, com direção e produção de diversas pessoas. Os temas tratados nesse período dizem respeito às exigências burocráticas para ser reconhecido como cidadão; à brasilidade versus estrangeiro; à lei enquanto fator de dominação etc. “Os primeiros filmes de Mazzaropi contam a história difícil e complexa do homem comum que tenta enfrentar as mudanças que não sabe, os desejos que não compreende, as diferenças que não pode penetrar. Contudo, os filmes insistem que ele pode sair vitorioso” (Id.: 69)
Os fatores referentes à formação da identidade do Brasil (língua, raça e origens) são tratados nos filmes de Mazzaropi. Ela observa que o conceito de raça té fluído e que, “na maioria das vezes, nenhuma categoria racial é suficientemente estável para ter qualquer unidade”. (Id.: 78) Já a linguagem, expressa a linguagem do poder, do homem branco. Esses temas são discutidos no terceiro capítulo.
Em seguida, a autora analisa como a história (ou as suas interpretações) é incorporada nos filmes de Mazzaropi. Ela nota que o cineasta não produz documentários sobre o Brasil; mas seus filmes expressam uma maneira de ver e explicar o país, seu povo e sua história. Em suas palavras:
“Os filmes não são, portanto, exercícios de conservadorismo. Pelo contrário, cada filme funciona como um estudo de como o Brasil tradicional e rural encontra-se com o Brasil moderno e urbano e sobre as implicações desse encontro na vida cultural, lingüística, política e emocional não apenas dos migrantes recém-chegados mas também daqueles que já habitavam o espaço urbano. Em cada filme há os mesmos problemas comuns: perda de terra, perigo de perder os membros da família no novo e predominante ambiente cultural e tentativas para se prevenir dessas calamidades. Todavia, cada filme apresenta os problemas de forma diferente. As soluções dos conflitos específicos são tão variadas quanto os filmes.” (Id.: 106)
Os aspectos religiosos presentes nos filmes e a maneira como a religião é tratada, são temas do penúltimo capítulo. Os filmes de Mazzaropi incluem todas as manifestações religiosas, as quais são tratadas de modo irreverente. Ele critica o abuso de autoridade PARA OBTER DINHEIRO, favores e poder. “Longe de ser conservador ou pedantesco, o uso que Mazzaropi faz da religião em seus filmes constitui uma das mais radicais críticas à religião feitas no cinema brasileiro”, afirma. (Id.: 149)
No último capítulo, a autora focaliza o tratamento dado por Mazzaropi ao corpo humano. Em seus filmes não só o nu está ausente como inexistem cenas em que as pessoas possam aparecer vestidas de maneira indecente. Interessante: em todos os filmes não há sequer um beijo.
Essas questões são devidamente apresentadas e analisadas pela autora a partir da observação dos vários filmes produzidos por Mazzaropi. Nesse trajeto, ela fornece informações e resumos dos filmes. A leitura do seu livro não só contribui para compreensão da obra desse Artista do Povo como, através dela, podemos entender melhor a alma do povo brasileiro. Sem dúvida, Mazzaropi fornece um retrato do Brasil que, ainda hoje, muitos teimam em não se reconhecer nele.
Como escreveu o poeta, morremos duas vezes; a segunda morte é o olvido ao qual nos condenam. O livro de Eva Paulino Bueno, ao resgatar e analisar a produção cinematográfica do criador de Jeca Tatu, dá às novas gerações a possibilidade de conhecê-lo e, através dele, os elementos que contribuíram para a nossa formação enquanto povo e nação. A autora concede a Mazzaropi o reconhecimento que ele não teve da parte dos críticos de cinema.
O livro é um convite a repensarmos nossa relação com a cultura em geral; a revermos as nossas idéias sobre o cinema brasileiro; e, finalmente, um estímulo a fazermos o mesmo percurso da autora: assistir os filmes do artista popular.
ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Fonte: Site Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/022/22res_mazzaropi.htm

    

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