quarta-feira, 3 de junho de 2015

O enigma Olavo de Carvalho

Para fazer rir, para fazer pensar ou mesmo para odiar, o filósofo e astrólogo brasileiro segue sendo um mistério
Olavo de Carvalho
Wilson Espíndola
Especial para o Jornal Opção
De astrólogo dito em­busteiro a maior filósofo brasileiro, o polêmico e brilhante Ola­vo de Carvalho se torna uma daquelas figuras públicas pelas quais não passamos incólumes. Mesmo no mais breve e superficial contato, num vídeo da internet, ou por meio da leitura atenta de seus artigos ou livros. Despertador de consciências, das mais diversas inclinações, e também de reações extremas como ódio e veneração. Olavo é um enigma a ser decifrado.

O epíteto de astrólogo embusteiro, disseminado pelo economista liberal Rodrigo Constantino durante um debate ocorrido pelos idos da segunda metade dos anos 2000, denúncia seu lado esotérico, do qual hoje parece querer se desvencilhar. Olavo de Carvalho já foi um dedicado estudioso dos astros. Não obstante, é inegável seu brilhantismo, com várias publicações, conferências, títulos e comendas. Mora atualmente nos Estados Unidos. Graças a seu trabalho adquiriu o visto americano concedido àqueles de elevada produção intelectual.

Por incrível que pareça, esse campineiro de 65 anos, que afirma na atualidade não haver no Brasil estudioso à sua altura, já foi membro do Partido Comunista. Cu­riosamente, circula pela web uma montagem na qual aparece na presença de Fidel Castro, uma alusão ao passado “vermelho” do paladino do conservadorismo nacional. O filósofo afirma ter descoberto du­rante seus anos de militância que as pessoas da direita “eram melhores e mais decentes”. Segundo ele, essa conclusão só foi tomada depois de dez anos de estudos da doutrina marxista, da Revolução Russa, revolução cultural gramsciana, Escola de Frankfurt, bem como da organização dos partidos comunistas brasileiros e seu projeto de poder.

Esse é o grande ponto de polêmicas, até mesmo dentro da própria direita. Olavo de Carvalho é frequentemente acusado de ser um teórico da conspiração. Com­portamento de contraposição que parece ter sido firmado quando deixou o curso de Filosofia da Uni­versidade de São Paulo. Segundo Olavo, a USP é um “centro de doutrinação esquerdista”. Destaca-se que não está claro se sua saída da universidade foi espontânea ou forçada. Porém, para Olavo de Car­valho, não restam dúvidas sobres os motivos de seu desligamento dos jornais “O Glo­bo”, “Zero Hora” e da revista “É­poca”. Ele credita essa cadeia de demissões, acima de tudo, a seus artigos referentes ao Foro de São Paulo, organização que têm o Partido dos Trabalhadores (PT), as Forças Armadas Revolucionárias da Co­lômbia (Farc), e toda esquerda latino-americana que está no poder, como membros, tendo Fidel Castro como mito vivo a ser venerado. A grande mídia teria interesse em esconder os planos da organização e ele precisou ser silenciado.

Perceba que começamos no contexto nacional e entramos no latino-americano. Qual seria o próximo estágio? Sim, de acordo com Olavo, tudo isso faz parte de um projeto de dominação mundial. Para Olavo existem três modelos de projetos de dominação mundial: o islâmico, o metacapitalista e o esquema russo-chinês. O presidente norte-americano Barack Obama estaria a serviço desses interesses, transitando entre eles. Ocupando a Casa Branca, tendo o poder da caneta nas mãos, Obama seria a personificação máxima dessa grande ameaça à sociedade ocidental e aos princípios cristãos, tão defendidos pelo filósofo.

Olavo de Carvalho exige do leitor e ouvinte certa perspicácia. Como forma de persuasão, ele mesmo admitiu que exprime suas ideias de modo contundente, usando palavras de baixo calão se necessário. Para ele, a gravidade dos fatos exige uma postura igualmente radical de combate. Esse comportamento um tanto teatral faz com que alguns o considerem um embusteiro. Ele se defende, atestando que a base de seu pensamento são os princípios morais e filosóficos de Aristóteles, Leibniz e São Tomás de Aquino. Sendo defensor do liberalismo preconizado por Ludwig von Mises, é tido como reacionário, fascista e apologista de uma Idade Média perdida. Nada estranho em um país onde PSDB é direita e o Democratas, extrema-direita.

Destaca-se como um grande crítico do cientificismo. Defendeu que Isaac Newton disseminou o vírus da burrice na Terra. Para ele, essa adoração pela ciência que domina o mundo afasta a humanidade dos pensamentos mais elevados.

A grande contribuição de Olavo de Carvalho ao atual cenário cultural parecer ser sua capacidade de desafiar o politicamente correto. O mote de sua filosofia e a base de sua crítica ao cientificismo é a possibilidade de desenvolvimento da consciência individual. Talvez por isso seus artigos prendam o leitor já nas primeiras linhas. São inegavelmente incomuns. Concordando ou discordando, chamam a atenção e instigam.

Qual é a do professor Olavo de Carvalho? Acredito que familiares e amigos mais próximos, colegas e alunos conseguiram decifrá-lo. O anti-obamista, detrator do Foro de São Paulo e da estratégia KGB não poderia ele próprio deixar de ser tema de teorias conspiratórias. Seu pupilo dissidente Janer Cristaldo, que já foi articulista do jornal eletrônico “Mídia Sem Mascara”, propriedade de Olavo, suscitou a possibilidade do antigo mestre não ter saído da esquerda. Para Cristaldo, seu estilo “caricato” visaria desmoralizar a direita.

Analisando de longe, parece-me que a visão providencialista de Olavo de Carvalho, eivada de dogmas inconcebíveis no século 21, compromete a liberdade de reflexão até mesmo daquele que prega a consciência individual como valor supremo. A civilização ocidental se baseia em fundamentos cristãos, e, assim como Otto Maria Carpeaux, acredito que devam ser preservados. Mas, já com minhas palavras, deve-se manter e alimentar a evolução das ideais, algo que o “fanatismo” não permite. Muitas das polêmicas atribuídas a Olavo de Carvalho passam por essa imagem de talibã cristão que ele construiu. Se é justa ou injusta, não importa tanto. O fato é que o barulho que faz quando defende suas teses é importante para oxigenar o cenário cultural brasileiro. Olavo de Carvalho, para fazer rir, para fazer pensar ou mesmo para odiar, segue sendo um mistério.
Wilson Espíndola é acadêmico de História. 

Fonte: Site do Jornal Opção
http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/o-enigma-olavo-de-carvalho

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