segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Julius K. Nyerere: um líder com visão


Por: LOURENÇO CARRARO, Missionário Comboniano




Mantendo-se fiel à sua origem e cultura africanas, o pai da pátria tanzaniana encontrou no Cristianismo a motivação e a força para exercer o poder como serviço humilde ao seu povo – uma inspiração e um modelo de que bem precisam os líderes políticos e religiosos, na África e não só.




No dia 1 de Janeiro de 2006, Julius K. Nyerere, fundador e primeiro presidente da República da Tanzânia, foi declarado «servo de Deus», em Roma, declaração que marcou o início oficial do seu processo de beatificação. Algum tempo depois da morte de Nyerere, que ocorreu a 14 de Outubro de 1999, o bispo da diocese de Mushoma, na Tanzânia, estabeleceu o tribunal diocesano para começar o processo que poderá levar por fim Nyerere às honras dos altares e propô-lo à veneração dos fiéis. A primeira etapa do processo consistiu na recolha dos testemunhos sobre a vida do presidente falecido, testemunhos obtidos de pessoas que com ele conviveram e com ele partilharam a vida e a fé cristã. Estes testemunhos foram enviados para Roma e estiveram na origem do decreto da Congregação para as Causas dos Santos que declarou Julius Nyerere como «Servo de Deus». Depois desta declaração, o processo continuou com a recolha de outros testemunhos e o exame dos seus escritos e, sobretudo, com a avaliação do grau de heroicidade das suas virtudes e do seu empenho cristão.
Nyerere morreu, vítima de leucemia, no S. Thomas Hospital em Londres e foi depois sepultado na sua aldeia natal, Butiama em Musoma, ao lado dos túmulos do seu pai e da sua mãe. Durante toda a sua vida ele foi um católico comprometido, um membro exemplar da Igreja no seu país. Teve como confidentes padres e religiosos (ver texto na página 42-43) e no leito de morte foi assistido por um sacerdote seu amigo, que acompanhou o corpo de regresso à sua aldeia.
Os últimos anos da sua vida foram de particular proximidade à vida da Igreja e de grande respeito pelas outras religiões. Depois de ter promovido a construção de uma igreja na sua terra natal, ele solicitou também ajudas para a construção de uma mesquita em Butiama e sempre se comprometeu numa atitude de respeito e diálogo inter-religioso. Algum tempo antes de morrer, ele conseguiu acabar uma adaptação épica e poética dos quatro Evangelhos e dos Actos dos Apóstolos, em suaíli.

O ensino

Julius Karambage Nyerere nasceu no dia 13 de Abril de 1922, na aldeia de Butiama, no Norte da Tanzânia. Era filho de um chefe tradicional, o principal chefe da tribo zanaki, uma das 128 etnias que compõem o povo tanzaniano. Como tal, estava marcado para vir a ser chefe tribal. Quando o seu pai morreu, contudo, a escolha do chefe recaiu no seu irmão. Uma outra responsabilidade, maior e mais prestigiosa, estava destinada para ele, que cedo se revelou um aluno exemplar na escola primária organizada pelos Ingleses para promover a educação dos filhos dos chefes.
Depois da educação primária, Julius foi enviado para o Uganda, onde frequentou o Teachers’ Training College da Universidade de Makerere em Campala. Com o seu diploma na mão, começou a ensinar na Escola Secundária de Tabora, sob a orientação dos Missionários de África (Padres Brancos). No ano de 1949 foi estudar para Edimburgo, o primeiro estudante da Tanzânia, então Tanganica, a estudar numa universidade inglesa. Em três anos, completou o seu Master of Arts and Political Formation e regressou de seguida ao seu país onde se casou e voltou ao ensino.

Política e fé

O regresso ao ensino, porém, durou pouco. Enveredou pela política e transformou a então associação cultural Tanganyika African National Union num partido político que tinha por finalidade declarada a obtenção da independência do país da dominação inglesa. Este objectivo foi conseguido no dia 1 de Dezembro de 1961, o dia em que a Tanganica se tornou independente e Nyerere se tornou o seu primeiro presidente. Em 1964, as ilhas de Zanzibar foram também integradas e o país unido recebeu o nome de Tanzânia.
Julius Nyerere é lembrado pelos objectivos que conseguiu atingir durante os anos em que foi presidente: é lembrado, sobretudo, pela sua integridade moral, pelo seu sentido de serviço ao povo e pela sua humildade. Ele foi um gigante intelectual, admirado pelo povo e pela gente simples. A sua visão política, o pensamento da ujamaa, apesar de ser visto por alguns críticos como demasiado utópico, foi sem dúvida um exemplo de originalidade e de inovação política em África, que obteve a adesão de muita gente até fora da Tanzânia. Nyerere era uma pessoa capaz de grande visão e especulação e ao mesmo tempo de grande simplicidade comunicativa, à vontade para falar e comunicar com pessoas de todos os estratos sociais e estilos de vida. Segundo o P.e Laurenti Magesa, conhecido teólogo tanzaniano, «para Nyerere, o heroísmo cristão consistiu não em ter sido extraordinário, mas em ter vivido a sua vida ordinária com um profundo sentido humano e cristão. Muitos líderes africanos, tanto políticos como religiosos, pensam que a Igreja o deva certamente propor como uma inspiração e um modelo a seguir. Se o processo de beatificação avançar com êxito, Nyerere será seguramente o primeiro chefe de Estado africano a ser colocado nos altares».

Excelência cristã

Apesar do seu espírito nacionalista, Nyerere teceu amizade com missionários de várias nacionalidades. Foram amizades que criaram aproximação mas conservaram também distâncias, importantes para um líder político. Tratava-se de amizades alimentadas sobretudo pela vontade do diálogo cultural e do confronto de ideias. Um desses missionários foi o P.e Bernard Joinet. Nyerere gostou de uma carta deste missionário, escrita em 1971, na qual era abordado o tema da «fé e da política». Desde então, manteve-se em contacto com este missionário, que lhe escreveu um total de 19 cartas que alimentaram o diálogo sobre as questões candentes da vida da Igreja e da política africana. O P.e Joinet teve em grande estima esta amizade e sempre defendeu a excepcional estatura moral de Nyerere e a sua memória, mesmo nos momentos mais controversos da sua vida. Por altura da Declaração de Arusha (1967), a Carta Magna do Socialismo Africano com que Nyerere estava a lançar o seu projecto de sociedade igualitária, muitos chefes tradicionais que se opuseram à sua política foram levados para a prisão e cerca de 9 milhões de camponeses foram obrigatoriamente desenraizados das suas terras e obrigados a viverem nas ujamaas,as aldeias comunitárias. O P.e Joinet pensa que esta etapa talvez fosse necessária para a edificação da nação, para unir as diferentes etnias e para garantir a todos educação e cuidados de saúde.
Nesse sentido, o missionário francês pensa que Nyerere ficará na História como exemplo, pelas seguintes razões: «Primeiro, pelo modo como ele se relacionou com as outras religiões e particularmente com o Islão. Ele conseguiu fazer coexistir cristãos e muçulmanos no interior do seu partido, uma coexistência que se reflectiu positivamente na vida do país. Não há tensões religiosas na Tanzânia e o partido no poder não é baseado em afiliação religiosa. Nyerere quis que pessoas de outras raças e religiões entrassem no partido, como europeus e indianos. Neste sentido ele praticou o espírito de Assis antes (do encontro) de Assis e é exemplar.»
«Em segundo lugar», acrescenta o P.e Joinet, «ele construiu uma relação muito particular com o poder. Por um lado, ele estava convencido da importância do poder político e, por isso, lutou pela independência do poder colonial. Mas, por outro lado, ele mesmo tinha uma atitude pessoal muito livre em relação ao poder e deixou o poder sem problemas quando terminou o seu mandato, resistindo mesmo a enorme pressões dos que queriam que ele permanecesse porque não queriam perder o pai da nação.»
«Terceiro, e mais importante característica», conclui o velho missionário, «é o seu desprendimento do dinheiro. Nyerere sempre vestia de uma maneira simples, com o seu habitual fato de manga curta. Vivia numa casa modesta, à beira do mar, com a mulher Maria, que ia fazer compras nas lojas locais como todas as outras mulheres. Nunca construiu um palácio presidencial. A sua família não se rodeou de privilégios. Isto é tão pouco usual na África, que roça o incrível. Ele foi mesmo heróico neste aspecto.»
Toda a sua personalidade e acção foram inspiradas por uma vivência religiosa muito intensa. Nyerere converteu-se ao Cristianismo, ao termo de uma longa reflexão pessoal, quando tinha 20 anos e escolheu o nome de Julius. Mesmo nos anos em que foi presidente, nunca deixou de ir à missa no domingo. O seu sonho de uma sociedade igualitária resultava de uma visão inspirada pela fé, que ele não se inibia de mostrar, como o fez no cartão de boas-festas enviado aos chefes de Estado africanos em 1967: «Eles tinham um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era em comum» (Actos 4, 32).

Mestre

Nyerere era chamado «mwalimu», que quer dizer professor, porque essa era a sua profissão antes de ele entrar na política. Mas este título manifesta a sua preocupação com a educação e os seus esforços para construir um «socialismo africano». A sua ideia de uma sociedade igualitária revelava um pensamento não-alinhado, inspirado na tradição africana da família alargada, a ujamaa, e assentava na unidade e na independência nacional.

A maioria dos tanzanianos olhava para Julius Nyerere como o mestre, uma pessoa de carácter extraordinário, de uma vontade inflexível e de uma transparência a toda a prova. Mas viram também nele a pessoa simples e humilde, que poderiam encontrar cada domingo na missa, ou descobrir incógnito, alinhado com os outros, na fila das pessoas que esperavam a sua vez para se confessarem. Certamente agora essas pessoas que com ele conviveram serão as mais felizes quando e se tiverem a oportunidade de se dirigirem a ele e lhe rezarem como santo.


Fonte: Site Além-Mar
http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EkuEVElEFleFQKNyzD

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