domingo, 11 de dezembro de 2016

Os fatos históricos legitimam o Estado de Israel? Confira-os e tire suas próprias conclusões.

Quando surge a questão sobre a Palestina, algumas pessoas, ao serem confrontadas com a condição de ocupação por parte de Israel, costumam dizer que todas as condenações internacionais (de países e de organizações multilaterais) estão erradas; que Israel tem todo o direito de tomar aquelas terras, porque nunca houve um Estado Nacional da Palestina.

Contudo… também nunca houve um Estado Nacional de Israel antes de 1948. Diante deste fato, o que esses defensores do Estado de Israel costumam dizer? Que existe um direito histórico essencial legitimando a fundação de um Estado Étnico Judaico ali. A história chancela tal pretexto? Vejamos.
Reino de Israel, que se conhece como “Antiga Monarquia Unida”, antes da separação com Judá, que é tão afamada e mencionada, não era absolutamente uma Nação Judaica – o que se infere pelo fato de se ter formado depois um “Reino de Judá”. [1]
A antiga monarquia unida, que se desintegrou no reinado de Roboão, era uma caldeira multiétnica, cujas linhagens de identidade tribais se perderam na história após a conquista feita pelo Império Assírio, que promoveu uma deportação em massa em 720 a.C.

Posteriormente o Reino do Sul, judaico, ruiu em 586 pela tomada babilônica, e mesmo então, não havia se formado o que viria a ser conhecido como “judaísmo”; há que se ressaltar que apenas a elite havia sido deportada.
Houve um restabelecimento judaíta (empregamos este nome para enfatizar o lado identitário não necessariamente se referindo a religião do judaísmo) no período da colonização persa (a Pérsia foi um império que sucedeu a Babilônia), desta vez não mais se constituindo como um reino, mas como uma província vassala de hierarquia política aristocrata-sacerdotal, dentro de um espaço de apenas 1.100 km². Nela houve mudanças sociais e econômicas substanciais: os clãs são desfeitos e a base social passa a ser constituída pela família nuclear; e a unidade econômica fundamental passa a ser a Satrapia persa, contudo não muito difundida com capilaridade na sociedade.
Decorreram depois as conquistas por parte de Alexandre, o Grande, instaurando uma política colonial relativamente tolerante com a cultura judaíta até a morte deste, em 332 a. C. Seguidamente se conflagrou um período de sangrenta disputa entre os sucessores helênicos de Alexandre, os “Diádocos”, até o domínio ptolemaico por 103 anos, quando Ptolomeu, em 312 a. C., tomou Jerusalém. Em seu reinado, um imenso número de judeus são deportados e passam a viver no Egito, com uma comunidade relativamente autônoma, dotada de um líder próprio, o “etnarca”. Outro governante sucessor da disputa, Selêuco, domina a “Síria Côncava”, abrangendo a Síria e a Fenícia, e a Palestina. O sobrinho do sumo-sacerdote judeu Onias II, José, designado como chefe do povo, consegue obter do Rei Ptolomeu em 242 a.C o direito de recolher impostos na região.
Em 167 a. C., explode a insurreição judaica da família dos Macabeus. Nesse ínterim, dentro da disputa de poder entre os judeus, um dos sucessores dos macabeus, Simão Hircano procede a judaização forçada da cidade helenística de Gazara e, em 141 a.C., obtém a província da Judeia, aliando-se logo depois com Esparta e Roma. Seu filho João prossegue com a judaização forçada das cidades palestinas de MádabaSamegaSiquémAdoraMarisa, a Idumeia. Devido aos massacres e genocídios, ocorre a ruptura entre os judeus; entre saduceus, fariseus, hassidins – de onde descendeu posteriormente os essênios -, outros grupos menores e aristocracias volúveis. Alexandre Janeu, uma autoridade judaica pró-saduceu, depois é constituído rei e sumo sacerdote. A viúva Salomé Alexandra coopta os fariseus. Após massacres contínuos nas disputas ensandecidas por poder teocrático, Roma intervém e Pompeu impõe a “pax romana” em 63 a.C.
Em 47 a.C., na SíriaCésar confere o título de etnarca a Hircano II, sumo-sacerdote, sobre a JudeiaAntípater, torna-se procônsul. Fasael estratego de Jerusalém e Herodes, da Galileia. De 37 a 4 a.C., a Palestina e seus povos, entre eles os judeus, passam a ficar sob o jugo da dinastia dos asmoneus e Herodes governa a Judeia. Com sua morte, Herodes Antipas – por 43 anos – governa a Galileia e PereiaArquelau Tetrarca – por 12 anos -, Judeia e Samaria. Arquelau é deposto por Augusto em 6 d.C. e a região passa a ser comandada por procuradores romanos.
Do período entre 66 d.C. até 73, ocorre a revolta judaica contra a Roma do imperador Vespasiano, a qual foi dominada e dispersada pelo general Tito. Entre 115 até 117 d.C. eclode outra revolta contra a Roma de Trajano, dando origem à Guerra de Kitos. Os revoltosos são derrotados pelo general Lúsio Quieto. Entre 130-135, mais uma revolta ocorre, desta vez contra a Roma de Adriano, também massacrada pelo General Julio SeveroAdriano desde então “desjudaiza” Jerusalém de vez. Em regiões dos arredores, judeus senhores de terra reorganizam a identidade judaica em torno de um dos núcleos da identidade que existia antes, o núcleo farisaico.

  • Destruição do Templo de Jerusalém por Tito, de Francesco Hayez.
Destruição do Templo de Jerusalém por Tito, de Francesco Hayez.
A partir do século IV depois de Cristo, a Palestina torna-se terra bizantina. Judeus conviveram na região, ainda que não em condições de cidadania plena; até que, tendo apoiado a invasão persa no início do século VII com promessas de maior status posterior, judeus foram em sua maioria expulsos e grande parte foi para a Pérsia.
Décadas depois o califa Omar conquista a região, dividindo-a em Jordânia e a Palestina (Filastin), tendo Ramallah como capital no século VIII. Perto do ano 1000 os cruzados tomam Jerusalém; pouco mais de 400 anos depois, os otomanos conquistam toda a Palestina.
Quando os europeus finalmente retomaram as regiões ibéricas que estavam sob domínio muçulmano e o povo de Al-Andalus foi embora, com eles foram os judeus, assim como os cristãos ortodoxos-orientais, nestorianos, monofisistas, etc., por ali serem aceitos e poderem viver em paz, o que não ocorria na Europa “judaico-cristã”. A reconquista cristã de Andaluz levou à destruição das comunidades judias que haviam se estabelecido por lá. Istambul e outras cidades do Império Otomano receberam sobretudo sefaraditas, e o mais criativo centro de pensamento místico judeu foi Safed, na Palestina. Isaac Luria, no século XVI, foi um grande pensador que formou escolas da Cabala. Por séculos essa região da Palestina abrigou muitos cristãos e também judeus fugidos de perseguições antissemitas.
As comunidades judaicas e as cristãs pagavam a capitação e possuíam seus próprios sistemas legais de lei pessoal, desde que assegurando lealdade ao governo. Este reconhecia, nas províncias e na capital, um chefe espiritual de cada comunidade como tendo certa jurisdição legal e responsável pela coleta do jizva e pela manutenção da ordem. Não possuíam os mesmos direitos políticos que tinham os muçulmanos, porém eram protegidos pelo estatuto da Dhmmis; pagavam proporcionalmente um pouco mais de tributos, mas podiam ascender. Judeus eram importantes no serviço financeiro, administravam fazendas fiscais, muitos eram artesãos e negociantes de metais preciosos. No fim do século XVII, os gregos tornaram-se os intérpretes principais no gabinete do grão-vizir e no de governadores de algumas províncias, além de atuarem no comércio marítimo. Os armênios, no de seda persa. Já os cristãos eram importantes como intermediários e distribuidores no comércio com a Europa, e os coptas eram contadores, administradores de funcionários e donos de fazendas fiscais no Egito. Judeus e cristãos pertenciam a “cemaats” do comércio e das artes.
A maioria dos judeus no mundo se compõe de descendentes de povos semitas da região da antiga Canaã, mas há um número significativo com ascendência do leste europeu, que têm parentesco com os Khazars, descendentes dos Unos, e não semítica; inclusive muitos tem como idioma natal o Ídiche. Também há os que descendem de convertidos do reino de Hymar, no atual Iêmen; de povos do Magreb e nômades bérberes.
Na metade do século XIX, houvera os movimentos sionistas modernos, se dividindo mais ou menos entre o Sionismo Político, Sionismo Trabalhista ou de esquerda, Sionismo Cultural e a subdivisão Espiritual. Não havia consenso algum sobre como, onde e por que se constituiria um estado judaico, como se definiria ao certo a identidade e quais seriam as feições, mas todos concordavam que devia haver uma pátria judaica. Por muito tempo não se sabia o nome, Israel não era o mais comum a ser proposto, como o era “Sião”.

O jornalista Theodor Herzl

Um dos pioneiros na liderança do moderno movimento político sionista, Theodor Herzl, em 1896 escreveu em “O Estado dos Judeus” algo que deixava a arbitrariedade exposta:
“Vamos escolher a Palestina ou a Argentina? Devemos aceitar o que nos for dado, e o que for selecionado pela opinião pública judaica”. [2]
Na época, no VI Congresso Sionista, além da Argentina, houve um debate sobre a forte possibilidade de ser Uganda, mas prevaleceu a posição de aceitar a proposta britânica de colonização no leste africano. A ideia de ser na Palestina cresceu com a compra de terras por parte de proprietários turcos ausentes, que queriam se livrar de encrenca com a Grã-Bretanha.
Sobre este processo, Ahad Ha’am, judeu líder da vertente do sionismo conhecida como “espiritual”, após uma visita à Palestina em 1891, declarou:
“Do exterior, estamos acostumados a acreditar que Eretz Israel hoje em dia é quase totalmente desolada, um deserto inculto, e que qualquer um que deseje comprar terra lá pode chegar e comprar tudo o que quiser. Mas, na verdade, não é assim (…) Do exterior estamos acostumados a acreditar que os árabes são todos uns selvagens do deserto, como jumentos, que não veem nem entendem o que se passa ao redor. Mas isso é um grande erro. Os árabes, como todos os filhos de Sem, têm um intelecto aguçado e são muito astutos.
(…) se chegar o dia em que a vida de nossa gente em Eretz Israel desenvolver-se a ponto de usurpar a população nativa, eles não vão entregar o lugar facilmente. (…) Devemos tomar cuidado para não despertar a raiva de outros povos contra nós por conduta repreensível. O quanto mais devemos tomar cuidado, portanto, com nossa conduta em relação a um povo estrangeiro entre o qual viveremos de novo, para convivermos com nosso amor e respeito, e, desnecessário dizer, justiça e retidão?
E o que fazem nossos irmãos em Eretz Israel? Exatamente o contrário! Eram escravos na terra de seu exílio e, de repente veem-se com liberdade ilimitada. (…) Essa mudança súbita gerou neles um impulso para despotismo, como sempre acontece quando ‘um escravo torna-se rei’, e vejam que se portam com hostilidade e crueldade com os árabes, usurpando-os de modo injusto.” [3]

Referências:
[1] Cognitive Perspectives on Israelite Identity 
[2] The Jewish State, Dover Publications, 1988, p. 95 
[3] Much ado about little: Ahad Ha’am’s Truth from Eretz Israel, zionism and the Arabs, Alan Dowty. Israel studies, 5:2(2000), pp.161-75.

Para saber mais

DA SILVA, A. J. Os instrumentos da helenização. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 61, p. 23-37, 1999.
DONNER, H. História de Israel e dos Povos Vizinhos I-II. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2014.
FINKELSTEIN, N. Zionist orientations, Scandinavian Journal of Development Alternatives. Stockholm. 9 (March 1990) 1. p. 41-69
FISK, R. A Grande Guerra pela Civilização. Rio, Planeta, 2007.
LEWIS, D. L.. O Islã e a formação da Europa, de 570 a 1215. Barueri: Amarilys, 2010.
MAZAR, A. Arqueologia na terra da Bíblia: 10.000 – 586 a.C. São Paulo: Paulinas, 2009.
SMALLWOOD, E. (2001). The Jews Under Roman Rule: From Pompey to Diocletian : A Study in Political Relations. Brill Academic Publishers. ´

Fonte: Site Voyager
http://voyager1.net/historia/fatos-historicos-que-depoem-contra-o-estado-de-israel/

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A caridade não melhora efetivamente a vida dos mais pobres, muito pelo contrário. Entenda por quê.

Caridade de Santa Isabel da Hungria (1795), de Andrea Appiani.
Acaridade é um dos gestos humanos que mais causam admiração. Em todas as sociedades e na maioria das religiões, a caridade é considerada um dos catalisadores da elevação espiritual e pessoalempatia pelo próximo e o desejo genuíno em querer ajudar alguém que passa por necessidade, mesmo quando se trata de um desconhecido, é um gesto nobre que deve ser incentivado e sempre valorizado.
Contudo, a caridade possui limitações, e, por ser considerada um gesto tão nobre e virtuoso, falar sobre essas limitações acaba se tornando um tabu. Como a caridade desde sempre foi um gesto, apesar de bonito, ineficiente ou pouco efetivo contra as reais causas dos problemas sociais, é com muito prazer que derrubamos esse tabu para falarmos criticamente sobre ela. Evidentemente o objetivo aqui não é menosprezar o seu caráter humanista, ou negar a ajuda ao próximo, mas sim analisar sobre a efetividade dessa ajuda, bem como falar sobre procedimentos mais eficazes de combate à pobreza, que vão além da ajuda privada.

Causa x Sintoma 

Por mais que ações individuais de caridade sejam valiosas pelo seu caráter moral e por demonstrar empatia, elas estão longe de atacar as causas dos problemas sociais existentesFome, pobreza, doenças decorrentes da falta de higiene e saneamentobásicosão males com causas estruturais muito além do que uma doação em dinheiro ou uma lata de comida possam sanar.
Na prática, a caridade acaba funcionando apenas como um paliativo, e ainda reservada para a amenização de problemas pontuais (como campanhas específicas em prol de um indivíduo) ou possuindo um efeito temporário (como na ajuda às vítimas de tragédias decorrentes de um desastre natural). O fato é que a maioria das entidades filantrópicas nãolida com as reais causas dos males.
Por essa razão, existe uma grande diferença entre entidades que combatem a fome e aquelas que buscam a cura para uma doença. As ações filantrópicas que fazem campanha para ajudar a financiar pesquisas que visam encontrar a cura de uma determinada doença, possuem um problema bem mais específico para ser resolvido, secomparadas àquelas que combatem a fome e a pobreza.Isso ocorre porque a busca pela cura de uma doença depende de cientistas e de seus materiais de pesquisa, já o problema da fome e da pobreza é estrutural e implica em políticas públicas e sociais, para poderem ser combatido de forma efetiva. E, no fim, mesmo a busca por cura de doenças acaba sendo financiada em sua maior parte, senão totalmente, com dinheiro público, por meio de investimentos estatais em pesquisas realizadas principalmente nas universidades, ou seja, a caridade pouca ajuda mesmo em casos cuja solução depende de fatores pontuais. Além disso, a dependência de recursos públicos fica ainda maior quando o tratamento dessas doenças também exige ações de controle dos agentes patogênicos, campanhas de vacinação ou de conscientização que precisam atingir milhões de pessoas, e investimento em infraestrutura, como saneamento básico e urbanização de áreas de risco.
Já no caso das entidades que fazem campanhas contra a fome ou para ajudar os mais pobresos recursos arrecadados nunca são suficientes, além de sua ação não surtir efeito algum no combate aos problemas sociais, porque em nenhum momento ataca a origem desses problemas, os quais fazem parte dos fundamentos sobre os quais a nossasociedade foi construída e estruturada. Isto é, a caridade apenas atinge a camada mais superficial do problema, e mesmo aí seu alcance é super limitado, seja o problema pontual ou de origem estrutural.
E assim acabamos caindo num impasse…

Caridade pode se tornar o substituto da real justiça.

Combater a pobreza de forma efetiva, indo além de suas consequências para ir direto na raiz do problema, implica na necessidade da aplicação de políticas sociais, porém estas batem de frente com interesses econômicos e encontram resistência até mesmo na sociedade, principalmente em seus setores mais conservadores (os quais, não por acaso, são os que mais acreditam em caridade como solução para esses problemas).Posto isso, obviamente a aplicação de tais políticas não é nada simples e tampouco será aceita de forma pacífica. Conflito de interesses ocorrerão.
A caridade então, diante dessa realidade, pode se apresentar como a aceitação dasinjustiças, enquanto tenta mitigar as consequências da injustiça.
O teólogo norte-americano Reinhold Niebuhr (Missouri, 21 de junho de 1892 – Massachusetts, 1 de junho de 1971)
Nas palavras do teólogo americano Reinhold Niebuhr: jásugerimos previamente que a filantropia combina acompaixão genuína com a demonstração de poder. E que o elemento de poder explica o porquê dos mais poderososserem mais inclinados a serem generosos: para garantir aideia de justiça social” (Moral Man and Immoral Society, 1932). teólogo também expõe que a caridade de uma pessoa poderosa seria demonstração de seu poder junto a expressão de sua pena”.
Niebuhr usou como exemplo os movimentos pró educação para a população negra norte americana, para mostrar como a caridade não lida com as raízes dos problemas, sendo estes movimentos formados majoritariamente por pessoas brancas e de classe médiaEm sua publicação ele diz que o movimento pelas Escolas Negras conduzidos pelos auspícios da filantropia dos brancos, encoraja alguns poucos indivíduos negros a alcançarem novos patamares de realização pessoal, mas não faz um ataque frontal àinúmeras injustiças sociais sofridas pelos negros.

A falha em alcançar mudanças: a caridade não apresenta as melhores soluções para os problemas.

Um ato de caridade pressupõe um desejo sincero de se resolver determinado mal que aflige pessoas necessitadas ou vulnerabilizadas. Mas, por ser uma forma de ajuda que apenas alcança a superficialidade do problema, nunca atingindo as causas, a caridade e o sentimento de recompensa imediata que ela traz, como nos alertou Niebuhr,pode se tornar um entrave ao pensamento crítico. Este, se fosse estimulado, levaria às reais propostas de solução, que apenas são possíveis por meio de uma análise séria desses problemas, considerando toda a sua complexidade e identificando todos os seus fatores,permitindo que um determinado país possa assim elaborar as formas mais eficazes dereorganizar suas relações econômicas, bem como as políticas necessárias visando o combate das injustiças sociaisas quais exigem ações governamentais de larga escala e a consolidação de um Estado de bem-estar social.
Dessa forma, algumas linhas de pensamento defendem que a força de trabalhocapitallogística e esforço individual utilizados em ações ou obras de caridade, seriam bemmelhores aproveitados e mais eficientes se fossem voltados para ações reais e diretas nascomunidades periféricas e para pressionar nossos governantes por meio de movimentos populares, do contrário esse cenário de profunda desigualdade e injustiça sociais jamais mudará. Conseguinte, essas ações de caridade continuarão sendo apenas um mero paliativopara situações que são fruto de omissão governamental, mascarando os reais problemas e aliviando a responsabilidade do Estado, além delas acabarem servindo mais aos interesses de milionários que querem ficar isentos do pagamento de impostos. Isto acaba aprofundando ainda mais as injustiças sociais, tornando-se um ciclo cada vez mais perverso de transferência de riqueza dos mais pobres aos mais ricos, institucionalizando assim um Robin Hood às avessas (voltaremos a falar sobre isso mais à frente).
E se enganam aqueles que acreditam ser essa análise uma leitura recente desta problemática, como podemos conferir no trecho de “Work and Wealth”, do economista inglês John Atkinson Hobson, no ano de 1914:
hobson
O economista inglês John Atkinson Hobson (Derby, 6 de julho de 1858 – Londres, 1 de abril de 1940).
Para a sociedade é mais prejudicial o milionário aplicar sua riqueza em caridade do que em luxos. Ao gastar com luxos, ele atinge apenas a si mesmo e ao seu círculo social mais próximo, entretanto, ao usar esse dinheiro para caridade, ele causa um ferimento muito mais grave na sociedade.
Para cada ato de caridade, aplicado com o intuito desanar o sofrimento causado diretamente dos arranjos defeituosos da sociedade, ele acaba servindo paraenfraquecer ainda mais as motivações para uma realreforma socialNo fim a caridade apenas acaba servindo como um miraculoso alívio para casos individuais, assim como para aqueles que testemunham a caridade sendo feita.
Ela (a caridade) substitui a ideia e o desejo dos indivíduos por reforma social e enfraquece a capacidade do coletivo em abracar ações emancipatórias e a gestão em sociedade.

A filantropia isenta o Estado de suas responsabilidades, causando ainda mais prejuízo aos necessitados.

Quando a caridade se torna uma ação filantrópica de larga escala, acaba servindo como um alívio para o consciente coletivoenfraquecendo assim a pressão popular por reformas necessárias; além de servir como um ótimo pretexto aos governos, que se sentirão livres de suasresponsabilidades frente aos males e injustiças que afligem a população mais pobre. Como ela se traveste deserviço essencialacaba criando mais um problema, pois substitui de forma incompleta o que deveria ser garantido pelo Estado.
filósofo Neil Levy alerta que “as atividades da filantropia de larga escala carregam sérios riscos, pois afetam o balanco de fundos do setor público a favor do setor privado, expondo os mais vulneráveis socialmente às vicissitudes do mercado. Quando o financiamento privado de serviços essenciais se torna a norma, os que necessitam desse serviço ficam dependentes de uma ajuda incerta e sujeitaàs flutuações do mercado” (Against Philantropy, 2002).
Ou seja, se grandes instituições de caridade tomarem a frente de governos em áreas cujosinvestimentos é de responsabilidade do Estadoentão há um risco de que esses governos se sintam livres para investir menos nessas áreas para poupar recursos, comprometendo assim o correto funcionamento e a garantia de acesso a esses serviços por aqueles que mais precisam. Isso também explica em parte o porquê é tão difícil a captação de recursos para os serviços e para os setores de assistência públicos, pois o investimento filantrópico acaba servindo às planilhas dos tecnocratas do governo, possibilitando assim a apresentação de números bem convenientes contra as políticas sociais que impressionarão a opinião pública.

A caridade pode levar a favoritismos e não à igualdade.

Os interesses de todas as pessoas devem pesar igualmente. A localização geográfica e a cidadania não fazem diferença nos direitos e deveres dos indivíduos” (Peter Singer).
Doações sempre serão influenciadas pelas preferências pessoais, suas causas sempre terão que passar pelo crivo moral do doador. Esse moralismo é velado na escolha dascausas, porém, mesmo que não gostemos de admitir, basta observamos a quantidade de entidades dedicadas e o montante de doações destinadas à causa da desnutrição infantilem comparação com a ajuda dada a programas de recuperação de dependentes químicos, que ficará constatado a existência de um favoritismo, o qual deixa explícito que o doador comum é fortemente influenciado por questões morais.
Robert Eggerativista engajado no combate contra a fome e fundador da DC Central Kitchen, em entrevista ao Washington Post, em 1 de julho de 2007, fez a seguinte declaração:
o que realmente nos decepciona é que há uma competição nas causas sociais, como se procurassem o Melhor do Ano para doar. Na causa anti-fome em que vivo, e eu odeio mesmo dizer isto, mas eu tenho que competir com outros movimentos que querem ‘alimentar as criancas’ (excluindo a todos os outros). E eu odeio isso! Toda fome é errada! Não criem esse sistema de castas em que o público doador recebe opções que não lhes cabe!
A realidade é que  comida suficiente para alimentar a todos, não apenas as crianças… Olhe, eu alimento os viciados em crack, eu alimento as prostitutas!
E ainda, dentro da estrutura da nossa sociedade moderna, podemos encontrar outraaberração causada pela caridade

A infame relação entre a caridade e os incentivos fiscais.

A indústria da caridade em Malawi. Foto de Esther Havens.
Quando empresas gozam da possibilidade de fazer caridade em troca devantagens fiscais e redução de tributos, tenha certeza, elas o farão. O problema é que com isso, como já demonstrado sobre a tendência inevitável ao favoritismo, uma empresa que doe uma grande quantia para, por exemplo, a reforma de um teatrodeixará de pagar em tributos uma verba que poderia ser destinada para a manutenção de centenas de teatros. O Estado deixa de agir onde a caridade mal aplicada influenciou o balanço entre o público e o privado.
Nos EUA, cujas universidades são em sua maioria privadas e mantidas também com generosas doações de empresas ou patronos particulares em troca de isenção de impostos, a filantropia coloca o ensino público (justamente o ensino fundamental e médio) em grande risco.
Doa-se para o ensino superior privado e da elite, em troca se deixa de arrecadar tributos que financiam o ensino público de base, tornando o ensino superior cada vez mais distante einatingível para aqueles que não possuem condições financeiras.
Não fosse o bastante para as empresas usufruírem desse privilégio, elas passaram ainda a utilizar a filantropia como propaganda e como um agregador de valor às suas marcas e produtos.

Caridade como Propaganda e Mercado

De acordo com o filósofo Slavoj Žižek“(…) a caridade degrada e desmoraliza. É imoralse valer de capital oriundo dos lucros garantidos pela propriedade privada para aliviar os horríveis males causados pelos resultados da própria instituição da propriedade privada” (First as Tragedy then as Farce, 2009).
Capitalizar e mercantilizar a caridade 
é, além de imoral e antiético, contraproducente no que diz respeito a busca por reformas sociais e sistêmicas.
N
ãé incomum que empresas e até mesmo pessoas usem de caridade para lucrar. Sem querer entrar naquestão moral sobre qual a real motivação ou do caráter humanista dos atos de caridade, o problema apontado aqui é quando a filantropia se torna um meio para as grandes corporações lucrarem ainda mais, em detrimento de toda a sociedade. Atualmente empresas e conglomerados possuem suas próprias ONGs e entidades que atuam nas causas que mais “combinam” com a sua marca. Pouco é divulgado sobre o valor real doado às causas filantrópicas após as vendas dos produtos especialmente dedicados às suas campanhas, isso quando o capital da filantropia praticada por estascorporações não acabam nas mãos daqueles que são os principais causadores dos males que se tenta combater (o Mc Donald’s possui uma ONG com programas de combate a obesidade infantil nos EUA – sim, pode rir). Isso sem contar os inúmeros escândalos de desvioscorrupção e mal uso de verbas que ocorrem nessas entidades filantrópicas.

Conclusão

Apossibilidade de usar a caridade como peso na balança do karma ou da moral leva aaberrações na forma como lidamos com os problemas do próximo e do mundo. Amercantilização dos males sociais mostram o quanto falhamos em atacar a real estrutura que possibilita a existência de tais tragédias humanas.
O filósofo esloveno Slavoj Žižek.
Na análise de Zizek as pessoas se encontram cercadas de pobreza desesperadora, pela feiura, pela fome devastadora.É inevitável que elas se sintam fortemente tocadas por tudo isso. Portanto, de forma admirável, mas com intenções mal direcionadas, as pessoas muito seriamente e muito sentimentalmente buscam então se colocar na tarefa de remediar os males que veem. Mas os remédios não curam adoença. Eles meramente a prolongam. De fato, os remédiossão parte da doença. Eles tentam resolver o problema da pobreza, por exemplo, ao manter os pobres vivos por mais tempo () mas essa não é a solução, é um agravante da dificuldade” (First as Tragedy then as Farce, 2009).
Não é o espírito da ajuda que se criticamas sim aausência de uma reflexão sobre como estamos aplicando nossa caridade. Você acha que ao comprar um café orgânico fairtrade no Starbucks, que diz financiar programas sociais na Guatemala, estará fazendo mais pelos guatemaltecos ou pelo Starbucks?
Mais do que uma massagem em nossos egos ou um ponto na tabela da nossa bondade, a caridade deveria ser o 
último recurso assistencial, direcionada a casos pontuais e individuais, sem jamais ocupar o lugar daqueles que possuem o dever de aplicar os recursos provindos dos nossos impostos para garantir o bem-estar e a dignidade de toda a sociedade.
Não permitamos que a caridade se torne algo conveniente para o nosso comodismo e mate o nosso real senso de solidariedade, a ponto de sermos indiferentes às causas estruturais das desigualdades e injustiças sociais. É necessário buscar novos caminhos, como açõesdiretastrabalhos voluntários em comunidades carentescolocar em prática projetos emancipatórios valendo-se do uso das novas tecnologias que surgem, como as fontes de energia renovável; além de resgatar velhas práticas de luta reacendendo o nosso senso coletivo, sem o qual não será possível nos organizar politicamente para exigirmos reformas emudanças que garantam uma sociedade mais justa e igualitária.
Fontes:
• Reinhold Niebuhr, Moral Man and Immoral Society, 1932.
• J A Hobson, Work and Wealth, 1914.
• Neil Levy, Against Philanthropy
• Another World Is Possible If (Verso Books) 2004 ISBN 1-84467-510-6 Susan George.• Zizek fala sobre filantropia.

Fonte: Site Voyager
http://voyager1.net/sociedade/caridade-nao-ataca-as-causas-da-pobreza/