quarta-feira, 20 de abril de 2016

Afinal, o que os evangélicos querem da política?



A professora de psicologia Bruna Suruagy, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, fez 42 entrevistas para sua tese de doutorado Religião e política: ideologia e ação da ‘Bancada Evangélica’ na Câmara Federal”. Ouviu parlamentares da bancada evangélica (de 2007 a 2011), assessores e jornalistas. Continuou acompanhando o movimento dos políticos evangélicos e o crescimento da bancada no Congresso. Em entrevista à Pública, Bruna explica como acontece a seleção dos candidatos dentro das igrejas, o esquema político das principais denominações pentecostais e o que querem os políticos evangélicos.

A entrevista é de Andrea Dip, publicada por Agência Pública, 19-10-2015.

Eis a entrevista.

Leia a reportagem: Os pastores do Congresso.


Como começou sua pesquisa sobre a bancada evangélica?

Meu objetivo era entender como se processava a articulação entre os discursos religiosos e políticos. Foi na legislatura de 2007 a 2011, que aconteceu logo após a CPI das Sanguessugas que apresentou alguns nomes de parlamentares evangélicos. Na ocasião, a Igreja Universal retirou a candidatura de muitos parlamentares e o início da legislatura de 2007 foi bastante tenso por conta desse processo. Teve uma redução significativa da bancada. Na época eles estavam com 45 membros.

Quando os evangélicos passaram a se organizar politicamente?


Antes da década de 1990, já existiam vários parlamentares evangélicos, mesmo antes da Constituinte – muitos protestantes históricos e alguns pentecostais, mas não existia uma organização institucional da campanha desse grupo específico. Eram evangélicos que decidiam se candidatar e eventualmente recebiam o apoio de suas igrejas. Claro que, embora independentes, havia na Câmara uma certa articulação em nome sobretudo da manutenção dos interesses e valores morais próprios desse grupo. Mas no início da década de 1990 a Universal passou a protagonizar a participação política entre os evangélicos e já começou atuando com um plano político. Ela criou uma forma de fazer política no sentido de quase atuar como partido.

Funciona assim: A cúpula da igreja, formada por um conselho de bispos da confiança de Edir Macedo, indica candidatos em um procedimento absolutamente verticalizado, sem a participação da comunidade. Os critérios para a escolha desses candidatos geralmente têm base em um certo recenseamento que se faz do número de eleitores em cada igreja ou em cada distrito. E cada templo, cada região, tem apenas dois candidatos, que seriam o candidato federal e o estadual. Ela desenvolve uma racionalidade eleitoral a partir de uma distribuição geográfica dos candidatos e a partir de uma distribuição partidária dos candidatos. Isso mudou um pouco agora porque existe um partido que é daUniversal, o PRB, que fica cada vez mais forte no Congresso. Na época, havia uma distribuição por vários partidos para garantir a eleição. E são escolhidos bispos com um carisma midiático, que conduziram programas, radialistas e mesmo não bispos, mas figuras que se destacavam como comunicadores. Porque existe uma interface da mídia religiosa com a igreja e a política.

Não são parlamentares que se destacam na questão litúrgica como grandes estudiosos da Bíblia – até porque a tradição pentecostal está mais na produção de emoções e de momentos afetivos do que de fato na liturgia. Então os bispos e líderes religiosos que promovem essas catarses coletivas e demonstram esse carisma institucional são normalmente os escolhidos para candidatos. A Universal se tornou um modelo para outras igrejas porque a cada novo mandato havia um aumento significativo dos parlamentares da Universal. A Assembleia de Deus, que hoje tem a maioria dos deputados, mas que não funcionava assim, passou a ter a Universal como modelo. Não atuando da mesma forma porque o funcionamento institucional é outro. A Assembleia é uma igreja com muitas dissidências e muitas divisões internas, por isso não é possível estabelecer hierarquicamente os candidatos oficiais. As igrejas têm fortes lideranças regionais e uma fragilidade do ponto de vista nacional. A sede não tem tanta força e, por isso, eles criam prévias eleitorais. As pessoas se apresentam voluntariamente ou são levadas pela própria igreja e ainda há a ideia de que alguns são indicados por Deus porque mobilizam grandes multidões, ou contagiam, como dizia Freud, também termina sendo um critério.

Então tem uma lista, depois uma pré-seleção que passa por um conselho de pastores – isso em cada ministério [aAssembleia de Deus é uma igreja com muitas ramificações]. É interessante que os que pretendem se candidatar assinam um documento se comprometendo a apoiar o candidato oficial caso ele não seja escolhido. Na Universal, como o poder é nacional, tem uma sede hierarquizada que consegue controlar a instituição, candidaturas independentes não acontecem. Até porque os parlamentares que foram eleitos com esse apoio institucional e que na segunda legislatura tentaram se candidatar de forma independente não ganharam as eleições. A vitória está totalmente atrelada à instituição. Existe uma estratégia bem construída porque eles preveem uma fidelidade de 20%, que não é alta. A Assembleia de Deus está tentando construir essa fidelidade e essa unidade política que são extremamente difíceis devido a essa fragmentação interna. E faz as prévias nacionais com a participação de pastores e obreiros, novamente sem a participação da comunidade – não é um processo transparente. No Congresso então você tem essas lideranças religiosas que demonstram uma maior habilidade na interlocução com o sujeito, um carisma que gera catarse, contágio, impacto afetivo e as lideranças que foram identificadas e constituídas pela igreja como nomes importantes para ocupar o cenário nacional.

A bancada evangélica é homogênea?

Na bancada evangélica no Congresso e também nas bancadas estaduais e municipais, você tem uma diversidade tão grande de integrantes que não dá pra pensar esse grupo como um bloco coeso, homogêneo. Muitos vêm representando a Assembleia de Deus e a Universal e algumas neopentecostais que tentam imitar essa estratégia, como, por exemplo, Sara Nossa Terra, de onde saiu o Cunha. Você tem muitos parlamentares das chamadas protestantes históricas [batistas, presbiterianas, luteranas, metodistas] que têm uma candidatura totalmente independente porque não há um plano político já estabelecido dentro das igrejas. Eles simplesmente são evangélicos, mas a trajetória política geralmente não se dá dentro da igreja e não há uma vinculação direta ao exercício da fé. Esses parlamentares gostam de dizer que separam bem a fé no âmbito privado da política na esfera pública. Mas é uma distinção contraditória porque eles tomam, sim, como referência algumas crenças e valores para orientar suas práticas parlamentares e votações como quando se discute aborto e homofobia, por exemplo.

Lembro que um parlamentar me disse na época em que fiz as entrevistas que não há como fazer uma separação absoluta porque um marxista, por exemplo, vai acabar se submetendo a essa orientação de consciência na hora de atuar. E que ele, como cristão, se submete a essa orientação de consciência. Mas que vota orientado pela consciência, e não por uma filiação religiosa ou institucional específica. Então, nas protestantes históricas, não há essa presença ostensiva da instituição. A pentecostal, que traz consigo a teologia da prosperidade, que tem a presença doneoliberalismo, do conservadorismo institucional e moral, já tem essa coisa de práticas políticas fisiológicas e clientelistas. É um grupo heterogêneo, mas os parlamentares pentecostais têm uma posição mais orientada pelas instituições religiosas. O mandato não é do parlamentar; é pouco do partido, é mais da instituição.

Isso já é combinado com relação aos temas que eles vão defender? “Te ponho lá mas você me garante que o aborto não sai!”
No começo, a gente tem a impressão de que a igreja interfere totalmente em tudo. Mas o Edir Macedo, por exemplo, é um líder muito complexo. Alguns parlamentares me contaram que ele determinou que eles precisavam ter uma formação política. Então eles frequentam cursos de formação política na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Alguns outros cursos são dirigidos para bispos e parlamentares da Igreja Universal. Eles disseram isso explicando que não iam totalmente despreparados. “A gente tem uma formação, antes de vir tenta entender e conhecer.” O grande paradoxo da Universal é que no período eleitoral há uma mistura entre religião e política que é clara, não é velada. Ela se dá dentro do templo, o templo vira palco, o púlpito vira palanque político e as discussões pragmáticas sobre as eleições acontecem no púlpito. Tem toda uma pedagogia eleitoral que acontece dentro do templo. E no Parlamento eles tentam separar o discurso político do discurso religioso. Na verdade, isso começou a ser exigido pela cúpula daUniversal depois de aparecerem escândalos e irregularidades envolvendo parlamentares evangélicos. Na época, quem era o grande líder político era o Bispo Rodrigues, que era o braço-direito do Edir Macedo. Depois dos escândalos do caso Waldomiro e do mensalão [que o levou à condenação a seis anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro], ele renunciou em 2005, perdeu o título de bispo e retiraram todas as candidaturas dos parlamentares justamente para não arranhar a imagem da igreja. Dizem que o Edir Macedo tem o privilégio de não participar desses momentos.

Tem até um líder de outra igreja, o Robson Rodovalho, que é da Sara Nossa Terra, que se candidatou e se elegeu, que dizia que era muito difícil para ele como líder estar ali. Que para o Edir Macedo era muito mais fácil porque, se algum parlamentar fosse citado ou cometesse alguma irregularidade, ele simplesmente diria que não sabia de nada. No caso dele, a igreja correria o risco de se enfraquecer. O que me chamou atenção quando fiz as entrevistas foi que nenhum tinha mais o título de bispo. Com os outros, eu começava sem perguntar nada sobre a religião, e eles mesmos em algum momento entravam nessa parte da fé. Já os parlamentares da Universal não falavam de Deus, era um discurso totalmente parlamentar. Não mais progressista, mas eles queriam separar os processos. E, segundo um deles, o próprio Edir Macedo orienta os parlamentares a seguir as orientações do partido nas votações exatamente para que eles não tenham divergências e eventualmente percam as verbas públicas destinadas às emendas parlamentares.

Então qual é o grande interesse da Universal?

Quando as temáticas são institucionais, relacionadas a isenção fiscal, alvará de funcionamentos das igrejas, doações de terrenos, distribuição de concessão de rádios e TV, a transformação de eventos evangélicos em eventos culturais pra receber financiamento da Lei Rouanet, questões relacionadas à lei do silêncio. Aí eles atuam de forma articulada, como um bloco, convergem em nome desses interesses, como em relação a questões morais. Com algumas diferenças, mas muitas aproximações. Alguns cargos dos gabinetes têm que ficar à disposição da igreja, que indica quem vai ocupar. É uma igreja pragmática, tem muito mais interesses institucionais do que morais. Se for analisar do ponto de vista moral, é muito mais flexível e aberta do que igrejas como a Assembleia de Deus. Essa, sim, tem um discurso de natureza moral além do institucional, de manutenção da ordem. Quando há convergência nesses temas institucionais e morais, a bancada se articula. É importante salientar que poucas vezes você verifica a articulação desse bloco de forma totalmente coesa. Eles excluem a política nessa discussão de pauta dos parlamentares evangélicos para criar uma falsa aparência de unidade. Muitas vezes a imprensa anuncia a bancada evangélica como um ser único, e para a bancada é muito interessante aparecer assim como um corpo único, um bloco suprapartidário…

E dizer “a bancada” convenientemente não dá nomes, né?

Exatamente, uma entidade com um poder e as divisões não aparecem. Mas no discurso desses parlamentares que estão à frente e que normalmente são os das igrejas pentecostais apresentam a bancada dessa forma. “A bancada decidiu”.

Eles se reúnem?

A mídia faz parecer que sim, mas não. Porque eles estão filiados a partidos e a movimentação na Câmara se dá por partidos. Eles ficam muito indignados com a falta de poder que têm, porque têm poder na igreja, mas a divisão por partido privilegia o alto clero. Você tem alguns líderes partidários que definem as orientações e eles tem que seguir ou são punidos de alguma forma, principalmente não tendo as verbas públicas para realização das emendas parlamentares. “Estou aqui mas não tenho muito poder de decisão, tenho sempre que obedecer partido, não tenho autonomia” eram reclamações constantes. Estou falando principalmente desse grupo pentecostal, que é o mais barulhento e que fala pela bancada, principalmente os assembleianos [da Assembleia de Deus]. Eles têm o Feliciano, o Cunha, o João Campos, que é o líder da Frente. Engraçado que na época em que eu fiz a pesquisa o Eduardo Cunha era superinexpressivo como integrante da bancada evangélica. Mas eles se reúnem muito pouco, às vezes no dia do culto, quarta de manhã, fazem o ritual religioso e têm alguma discussão sobre projetos de lei e discussão de pauta.

O interessante é a atuação dos assessores. Eles acompanham os projetos diariamente, em uma tentativa de mapeamento dos projetos em tramitação e seleção dos mais importantes, projetos “anticristãos”. Você também tem uma distribuição dos parlamentares pelas comissões que eles consideram mais importantes como a de Seguridade Social, de Direitos Humanos, de Constituição Justiça e Cidadania. Aí eles vão tentando barrar a tramitação dos projetos. Alguns mais ativos tentam conseguir posto de presidente ou relator. Você tem uma estratégia bem elaborada, mas não conta com uma participação tão ativa quanto parece. É uma bancada barulhenta, intempestiva, aguerrida, beligerante, e esse barulho cria a impressão de volume, de quantidade de poder, de coesão. Acho que também é uma estratégia de parecer maior do que é pelo grito. Que é o que acontece nas próprias igrejas. As igrejas têm esse discurso de guerra, de combate. O exército da Universal que deixou todo mundo perplexo, mas isso sempre aconteceu, é o discurso de todas as igrejas. A convocação nas igrejas tem todo esse ritual bélico mesmo. E o soldado é aquele que está ali para obedecer e para combater. A bancada usa isso também. Você valoriza o tamanho do adversário para convocar os integrantes. Mas eu ouvi muitos relatos de parlamentares que estavam acompanhando votações e que tinham poucos para impedir a continuação da votação. Aí o assessor ligava para a lista da FPE: “Esse é pró-vida, vou chamar”. Aí liga: “Deputado, vem aqui, pede vista”. Eles têm uma assessoria que conhece os procedimentos regimentais e que orienta os parlamentares que muitas vezes não sabem nem o que está acontecendo ali. Tem uma disponibilidade em participar quando convocados e uma entrega total de alguns pela causa.

Qual é a missão da bancada evangélica nesse sentido? Ao meu ver, é de preservação, não de criação. Eles não querem criar projetos, querem manter tudo intacto. É uma atuação ideológica, se posicionar contra projetos inovadores, transformadores. Agora que houve algumas críticas, eles estão tentando elaborar projetos mais numa perspectiva de manutenção de uma ordem do que de transformação. É uma ação mais combativa, defender uma ordem social hegemônica. Os projetos que estão surgindo são pra fazer frente a projetos que estão em andamento, por exemplo, com relação a projetos do grupo LGBT. Criminalização da homofobia – criminalização da heterofobia. São projetos estapafúrdios. Aborto, drogas, criminalização da homofobia, casamento entre pessoas do mesmo sexo, são contra a discussão de gênero, a favor do ensino religioso, contra todos os projetos pedagógicos e educativos que combatem qualquer tipo de discriminação de gênero, sexual…

Você acha que é uma causa legítima? Eles acreditam mesmo nisso?

Antes do Eduardo Cunha, eles estavam caminhando para um discurso mais coerente com aquele espaço. No fim de 1980, os discursos condenavam o aborto e justificavam trazendo passagens bíblicas, dizendo que Deus não permite. Depois a bancada amadureceu um pouco nesse sentido, entendeu que não dava pra usar esse discurso porque não tinha coerência e começaram a argumentar de forma mais legislativa, aderir a um discurso que tinha mais ressonância naquele contexto. Toda moral é um sistema de controle. A sexualidade é um tema central na igreja com um discurso muito forte constante porque a sexualidade de alguma forma expressa liberdade. Então, você tem um sistema normativo de controle. É genuíno no sentido de que eles acreditam nessas coisas, mas virou, sim, um jogo de poder com os movimentos LGBT, por exemplo. O aborto é um tema controverso. Alguns acham que o aborto deveria ser crime hediondo, que é um assassinato. Mas outros, como os da Universal, acham que o aborto é uma possibilidade. É uma defesa genuína de posições morais que eles querem transferir para a realidade social. É legítimo que um grupo pense assim. O que não é legítimo é trazer esse discurso para a esfera pública de um Estado laico.

A tese da psicólogga Bruna Suruagy pode ser conferida aqui.




Fonte: Site IHU Online

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/553940-afinal-o-que-os-evangelicos-querem-da-politica

Tendência de um governo Temer é reduzir investimento em políticas educacionais



Para Daniel Cara, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, peemedebista deverá reproduzir discurso empresarial de que não faltam recursos para o setor.

A reportagem é de Cida de Oliveira e publicada por Rede Brasil Atual - RBA, 17-04-2016.

Se assumir a Presidência da República em caso de impedimento da presidenta Dilma Rousseff, o vice Michel Temer(PMDB) deverá impor grandes cortes à educação. “Ele deverá reproduzir o que de pior existe no discurso das instituições empresariais e de alguns articulistas da imprensa, segundo os quais a 'Constituição não cabe no orçamento público' e que é preciso melhorar a gestão dos recursos disponíveis”, diz o coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara.

O primeiro ataque, acredita, será às vinculações constitucionais. No começo do mês, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou substitutivo do senador Romero Jucá (PMDB-RR) da Proposta de Emenda à Constituição(PEC) 143/2015, que cria para municípios e estados mecanismo semelhante à Desvinculação de Receitas da União (DRU), que permite ao governo federal usar livremente 20% de todos os tributos federais vinculados por lei a fundos ou despesas. A principal fonte de recursos da DRU são as contribuições sociais, que respondem a cerca de 90% do montante desvinculado. “Conseguimos tirar a educação do texto de Jucá. Mas é grande a pressão de prefeitos e governadores para incluir a educação, o que é imensa irresponsabilidade.”

Conforme ele, o ataque é gravíssimo frente à insuficiência dos recursos para atender às necessidades educacionais, que exige malabarismos. “Por entender que a garantia dos direitos constitucionais não cabe no orçamento público,Temer vai tentar reduzir. Com menos, é assinar um atestado de óbito do progresso da educação e até mesmo inviabilizar a manutenção do ensino público.”

Daniel teme ainda que pautas importantes tramitando no congresso, como o Sistema Nacional de Educação e legislações adicionais e complementares ao Plano Nacional de Educação, também venham a ser prejudicadas num governo Temer. “Tudo isso vai ser mais difícil porque havia um jogo de equilíbrio com o governo Dilma, que resistia mas depois absorvia a derrota. Foi assim com os 10% do PIB para a educação, as proporções para a educação na lei dos royalties do petróleo.

Ainda não se sabe quem deverá conduzir a educação no caso de um governo do peemedebista. Especula-se, no entanto, que entre os cotados para o Ministério da Educação está o atual secretário municipal da Educação de São Paulo, Gabriel Chalita, deputados do PMDB integrantes da Comissão de Educação e nomes considerados “notáveis” pelo PSDB, como Maria Helena Guimarães Castro, que entre 1995 e 2002 presidiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anisio Teixeira (Inep/MEC) e entre 2003 3 2007 participou dos governos tucanos de José Serra, em São Paulo, e José Roberto Arruda, no Distrito Federal. Em 2008, no governo de Geraldo Alckmin, ela criou o programa de remuneração por mérito para professores.

Dia do cinismo

Para o coordenador da Campanha Nacional de Educação, a derrota na Câmara de ontem – um domingo que ele classifica como “dia do cinismo” – é um “golpe orquestrado pelo mercado financeiro, setor produtivo e conservadorismo”, que coloca em risco toda a pauta da Constituição. E exige “reflexão e autocrítica com frieza” pelo governo, seus aliados e os setores progressistas como um todo.

“É preciso deixar de lado o ressentimento e partir para uma reflexão fria. Quais os erros? O que poderíamos ter evitado? Ver os limites impostos pela sociedade, que tem se pronunciado, como nas jornadas de junho de 2013, que ainda não entendemos direito, e dialogar com ela. É preciso também construir um novo projeto político porque o nosso sofreu uma derrota. E não se não tivermos outro, nunca mais vamos ganhar eleição”, diz.

Os sindicatos, os movimentos sociais e a esquerda, segundo ele, têm de se renovar. “O discurso gritado, em defesa de um reformismo fraco em termos de políticas sociais, não funciona mais. Precisamos conversar em outro nível, mudar as formas de mobilização, as formas institucionais, as hierarquias”, defende.

Mesmo considerando o "PT a melhor biografia da esquerda em todo o mundo desde a década de 1970", Cara se diz preocupado. “Esse patrimônio não pode ser conduzido por apenas um homem, Luiz Inácio Lula da Silva. Lula continua sendo o principal líder, praticamente único, mas isso não é suficiente para fazer com que ele ganhe as eleições. E nem é saudável depender de uma só pessoa. É preciso renovar”.

O alento, conforme acredita, é que falta renovação também nos quadros da direita. "Por sorte – ou mérito nosso –, a direita é muito mais incapaz do que nós. É pior porque tem ódio das pessoas mais simples", diz. E embora torne-se mais fácil a aprovação de projetos conservadores num eventual governo Temer, crê que haverá reação.

“As pessoas, que nunca tiveram um lugar ao sol e o conquistaram, mesmo que mínimo, não vão aceitar perdas de direitos sociais. E vão lutar por eles.




Fonte: Site IHU Online

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/553862-tendencia-de-um-governo-temer-e-reduzir-investimento-em-politicas-educacionais

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Deus e os netos dos deputados derrubaram a presidenta do Brasil



Grande parte dos 513 deputados que hoje votaram pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff pareceram esquecer os reais motivos que estavam em discussão. Deputados defenderam a destituição de Rousseff pelas razões mais diversas: “pela esposa Paula”, “pela filha que vai nascer e a sobrinha Helena”, “pelo neto Gabriel”, "pela tia que me cuidou quando era criança", “pela minha família e meu Estado”, “por Deus”, “pelos militares do 64”, “pelos evangélicos”, “pelo aniversário da minha cidade”, “pela defesa do petróleo”, “pelos agricultores” e até “pelos corretores de seguros do Brasil”.

A reportagem é de María Martín e publicada por El País, 17-04-2016.

Atrás ficaram as pedaladas fiscais e os créditos suplementares, verdadeiros motivos em julgamento, completamente esquecidos pelos nobres deputados. Exaltados diante o microfone, eles sugaram até o último segundo de glória que, para muitos, o plenário lhes oferecia pela primeira e, quem sabe, última vez. Lembraram os parlamentares aos telespectadores de Xuxa que aproveitavam sua participação ao vivo no programa para cumprimentar eternamente a mãe, o marido, a amante, o primo, o enteado, o vizinho, os amigos e o porteiro.

A defesa da família, da propriedade, de Deus e da ordem em mãos dos militares mostraram a verdadeira foto do Congresso mais conservador desde 1985 sugerindo, de passagem, que ninguém leu o relatório com os fundamentos jurídicos que justificariam o crime de responsabilidade para a queda de Dilma - ou, pelo menos, ninguém se esforçou em demostrá-lo. Raro foi ouvir uma dedicatória à qualidade da educação, à saúde, aos desempregados ou às minorias em favor do “sim”. Alguns, como Atila Lins (PSD/AM), tinham anseios mais abstratos e votaram a favor para se “reencontrar com a história” e outros, como Thiago Peixoto (PSD/GO) razões bem mais pessoais ao defender o impeachment: “ Voto sim pela minha filha que vai nascer, pela minha sobrinha Helena e por todos os corretores de seguros do Brasil”.

Os votos, pelo visto, também tiveram a intenção de impedir causas maiores. Deputados manifestaram sua defesa do impeachment para evitar que “as crianças aprendam sexo nas escolas”, para “acabar com a Central Única dos Trabalhadores e seus marginais”, "pelo fim da vagabundização remunerada" e, sobre tudo, pelo fim da roubalheira e a corrupção, esquecendo que cerca de 60% dos presentes no plenário, inclusive seu presidente Eduardo Cunha, têm causas pendentes na Justiça.

Deus, onipresente numa votação que nada tinha ver com ensinamentos bíblicos, foi apelado até para tomar o comando uma vez que Dilma cair e as famílias dos parlamentares pareceram ter sido mais motivadoras para derrubar a presidenta do que qualquer negociação a contrarrelógio. Não estranha em um Congresso cheio de fundamentalistas religiosos e que possui o maior percentual de deputados com familiares políticos desde as eleições de 2002. O nepotismo na Câmara revela-se ao ver 49% dos deputados federais com filhos pais, avôs, mães, esposas ou irmãos atuando em política, segundo um estudo da Universidade de Brasília. É o maior índice das quatro últimas eleições.

Após quase cinco horas de votação, Deus e os netos dos deputados derrubaram a presidenta do Brasil.


Fonte: Site IHU Online
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/553810-deus-e-os-netos-dos-deputados-derrubaram-a-presidenta-do-brasil

Sanders, Morales e Correa discutem sobre a encíclica preferida dos “Teocon”



É um sinal muito significativo que a Pontifícia Academia das Ciências Sociais tenha convidado (entre outros) para discutir sobre a encíclica Centesimus annus dois presidentes latino-americanos como Evo Morales (da Bolívia) eRafael Correa (do Equador) e o candidato democrata Bernie Sanders. Não devemos esquecer que aquele texto doPapa Wojtyla, sua terceira encíclica social depois da Laborem exercens (1981) e da Sollicitudo rei socialis (1987), que foi publicada há 25 anos, imediatamente depois da queda do Muro de Berlim, é recordado como o documento mais na linha dos “think-tanks” estadunidenses.

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada por Vatican Insider, 15-04-2016. A tradução é de André Langer.

O filósofo estadunidense Michael Novak, em um ensaio bastante crítico sobre algumas passagens da exortaçãoEvangelii gaudium, recordou que teve a oportunidade de estudar os primeiros textos de João Paulo II. E notou queWojtyla, “de 1940 a 1978, quando se mudou para o Vaticano, tinha ficado às escuras em relação à economia capitalista e aos sistemas de governo democráticos e republicanos. Para compreender os conceitos dessa forma de economia política, o Papa polonês teve que escutar muito e aprender a expressar-se com uma linguagem completamente diferente”.

Segundo Novak, João Paulo II “soube reconhecer” e dar valor à “grande mudança social” que se operou nos Estados Unidos justamente com sua encíclica Centesimus annus. João Paulo II compreendeu imediatamente que hoje “o fato decisivo é cada vez mais o próprio homem, e sua capacidade de conhecimento que surge mediante o saber científico, sua capacidade de organização solidária, sua capacidade para intuir e satisfazer as necessidades do outro”. O filósofo estadunidense católico citou depois o parágrafo 42 da mesma encíclica, na qual João Paulo II “define brevemente seu capitalismo ideal, como sistema econômico que nasce da criatividade, sob a égide da legalidade, e ‘cujo centro é ético e religioso’”.

Portanto, segundo o filósofo estadunidense, defensor da santa aliança entre o catolicismo e o capitalismo, a Igreja, com o Pontificado de João Paulo II, teria se aproximado deste sistema. E situações históricas concretas teriam motivado esta aproximação, cujo ponto mais elevado seria a Centesimus annus. Por isso, Novak disse que esperava que oPapa Francisco pudesse “desenvolver seu pensamento sobre a economia política, para assinalar a forma mais eficaz para ajudar os pobres a escalar a encosta das dificuldades e das privações. Estou certo de que conselheiros e colaboradores já estão trabalhando com afinco, e espero que partam das conclusões que João Paulo II redigiu, talvez com certas resistências, no parágrafo 42 da Centesimus annus, baseando-se na experiência concreta, para indicar uma via ponderada”.

Aqui se encontra um dogma teorizado e argumentado: a Igreja pode falar, se quiser, dos pobres e sobre a caridade, que nos recorde que temos que dar esmolas, que siga indicando-nos caminhos éticos, que trave suas batalhas para defender a vida e contra certos costumes nas sociedades ocidentais decadentes, que nos recorde que devemos ser bons e honestos. Mas, que não ouse sequer propor nenhuma questão sobre o atual sistema do capitalismo, esse sistema que já não tem contatos com a economia real, dá um enorme poder às finanças.

Devemos recordar que anos mais tarde, durante o Pontificado de Bento XVI, os mesmos “think-tank” chamados “teocons” não se sentiram tão à vontade com a Centesimus annus e criticaram a encíclica ratzingeriana Caritas in veritate, chegando inclusive a separar as partes do documento atribuíveis diretamente à mão do Pontífice daquelas escritas por alguns dicastérios vaticanos. Com as palavras claras do Papa Francisco sobre a “economia que mata”, acabou-se por completo a lua de mel.

A presença, no congresso sobre a encíclica wojtyliana, de personalidades como Morales, Correa e Sanders é um sinal que mostra esta distância. O candidato às eleições primárias entre os democratas disse que a situação, hoje, é “pior” do que na época de Leão XIII. “Em 2016, o 1% da população do planeta possui mais bem estar do que os 99% restantes”. E, a 25 anos da Centesimus annus, “a especulação, os fluxos financeiros ilícitos, a destruição ambiental e o enfraquecimento dos direitos dos trabalhadores são mais graves. Os excessos das finanças e a ampla criminalidade financeira de Wall Street desempenharam um papel direto ao provocar a pior crise financeira do mundo desde aGrande Depressão.


Fonte: Site IHU Online
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/553784-sanders-morales-e-correa-discutem-sobre-a-enciclica-preferida-dos-teocon

sábado, 16 de abril de 2016

André Singer: 'Domingo viveremos um episódio maior da luta de classes no Brasil'



"A votação do impeachment no domingo não é apenas a tentativa de derrubar um governo cuja liderança está na esquerda. O que se está tentando fazer é criminalizar o conjunto da alternativa popular no Brasil e tirá-la do cenário político talvez por muito tempo. Sem dúvida, o que vamos viver neste domingo é um episódio maior da luta de classes no Brasil." A opinião é do cientista político André Singer, ex-secretário de Imprensa do Palácio do Planalto e ex-porta-voz da Presidência da República no governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo ele, é muito significativo que a luta de classes tenha voltado à cena "trazida pela direita e pelo capital". "Isso é surpreendente. Por que essa ofensiva diante de um projeto, de um governo que o tempo todo tentou conciliar, desde 2003 até agora, e jamais apostou na ruptura e no enfrentamento?"

A reportagem é de Eduardo Maretti, publicada por Rede Brasil Atual – RBA, 14-04-2016.

O que está em questão, no momento, é o desmantelamento da alternativa popular no país, representada pelo segundo governo de Getúlio Vargas e pelos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff, defendeu Singer.

"Se você desmantela a alternativa popular, ela vai demorar mais dez, vinte anos para se reconstruir. Talvez seja isso que esteja em jogo. Se for isso, estamos não no fim, mas no começo de um novo processo de luta de classes selvagem."

Ele participou de debate, organizado pela Associação dos Docentes da USP (Adusp), na sede da universidade, na noite de ontem (13 ), ao lado de Armando Boito, do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Tales Ab´Sáber, psicanalista e ensaísta, e José Maria de Almeida, candidato do PSTU à Presidência da República em 2014, que recomendou o voto nulo no segundo turno.

Ditadura?

Boito acredita que "a deposição de Dilma pode resultar em uma ditadura, porque a deposição não vai ser indolor". "Não vai ser como tirar Collor e colocar Itamar Franco."

"Não acho que vamos chegar na ditadura, acredito que a democracia está consolidada no Brasil, mas podemos estar diante de situações cada vez mais imprevisíveis", disse Singer.

Os sinais que estão surgindo com o crescimento da extrema-direita no país são muito preocupantes, afirmou o cientista político da USP, que se disse surpreso com o crescimento de um representante simbólico desse setor. Entre os eleitores com mais renda, acima de dez salários mínimos, Jair Bolsonaro está com 20% das preferências, segundo o instituto Datafolha. "Agora eu entendo as vaias aos dirigentes do PSDB nas manifestações a favor do impeachment."

Para Tales Ab´Sáber, a esquerda e, principalmente, o governo e seus representantes não compreenderam ou subestimaram a ascensão da "nova direita". "De março a agosto de 2015, a direita fez três manifestações. O governo não reagiu, achou que ia barrar esse processo, e não barrou."

O psicanalista entende que Lula, no auge de sua força política, se equivocou ao indicar como sua sucessora uma pessoa "não-política para comandar a política". "Lula preferiu uma pessoa do campo técnico para operar a complexa política brasileira. Isso foi um erro." Na opinião de Ab´Sáber, a disputa esquerda versus esquerda, a partir dasmanifestações de 2013, "abriu espaço para ser ocupado pela nova direita".

Armando Boito disse que "as manifestações de junho de 2013 foram confiscadas pela direita para fortalecer o campo neoliberal ortodoxo". Ele acredita que hoje, três anos depois, por trás do golpe está uma tríade formada pelo capital internacional e o "imperialismo" insatisfeito com os governos petistas, a burguesia integrada aos interesses internacionais e a alta classe média.

O professor da Unicamp rebateu com veemência a fala de Zé Maria, do PSTU, que voltou a insistir no argumento de que PSDB e PT são, em última análise, a mesma coisa e não defendem os interesses dos trabalhadores. "Aqueles que tentam negligenciar a importância da diferença (entre PT e PSDB) têm muita dificuldade de entender a crise atual", afirmou Boito.

Ele usou os termos "desenvolvimentistas" e "neoliberais" para caracterizar, respectivamente, os representantes dos governos petistas e os articuladores do golpe. "Por que os desenvolvimentistas, nesse momento, são apoiados pelosmovimentos sociais e os neoliberais não são? Não tinha um negro sequer em manifestação pelo impeachment, em Salvador. É, sim, um conflito de classes. Se os movimentos sociais estão contra o golpe é porque têm consciência de que algo estão perdendo. Os governos do PT não romperam com o capitalismo, mas foram até o limite onde era possível ir, no modelo em vigor".

PT e Getúlio Vargas

André Singer defendeu a mesma linha. Para ele, o momento atual tem semelhanças com 1954. "Levaram Getúlio Vargas ao suicídio, e naquele momento havia o ‘mar de lama’ (as sistemáticas denúncias de corrupção contra Getúlio). É óbvio que Getúlio não era um socialista, do mesmo modo que os governos do PT não são socialistas. Eles e o segundo governo Getúlio são governos populares."

Na opinião de Singer, o PT deixou de ser um partido de classe, o que não diminui o caráter inclusivo de seus governos, que transformaram o país com programas como o Bolsa família e o ProUni. "O PT mudou. Eu estou dentro do PT, continuo no PT, e estou entre os que foram contra a mudança. Mas o PT não mudou para ser um partido da burguesia, mas para ser um partido profundamente popular."

Porém, segundo André Singer, na atual conjuntura de crise e golpe, o momento não é adequado para se colocar em debate o que o PT poderia ter feito melhor no governo. "Não é hoje o dia de fazer um longo debate sobre esse assunto. Nas circunstâncias em que há uma avalanche querendo criminalizar o PT e Lula, o ex-presidente ainda aparece como o preferido entre os mais pobres do país. Se dependesse deles, ele seria reeleito presidente. Não podemos deixar de enxergar isso."

A questão central do debate, diz, é a seguinte: "O que é possível fazer depende de correlação de forças. Você não pode fazer o que você quer, mas o que tem força para fazer. Foi possível efetivar um projeto popular que se está tentando de novo tirar de cena, porque foi isso o que aconteceu em 1954 e levou Getúlio ao suicídio. O capital no Brasil parece que não consegue conviver com uma alternativa popular competitiva."

Fonte: Site IHU Online

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Mais Mises, menos direitos



Um dos souvenirs prediletos dos manifestantes contrários ao governo de Dilma Rousseff, nas ruas ou nas redes sociais, contém um lema tão pedante quanto enigmático para a maioria da população: a camiseta “Mais Mises, Menos Marx”.

O comentário é de Carlos Juliano Barros, publicado por CartaCapital, 13-04-2016.

O barbudo comunista é figurinha mais do que carimbada. Mas quem foi Mises, afinal? O que ele tem a ver com o Fla-Flu ideológico em eterna prorrogação desde as eleições de 2014? E, principalmente, que influência suas ideias podem exercer sobre o nebuloso futuro que aguarda o Brasil?

A lembrança da camiseta de Mises (nascido Ludwig von Mises em 1881, na Áustria) me veio à cabeça durante a leitura do ótimo A Nova Razão do Mundo – Ensaio sobre a Sociedade Neoliberal, de Pierre Dardot e Christian Laval, infelizmente ainda não traduzido para o português. No livro, os autores embarcam no túnel do tempo até o Colóquio Lippmann, realizado em 1938, em Paris – uma espécie de Big Bang do neoliberalismo.

Naquele longínquo ano, Mises dividiu com seus colegas uma análise sobre o mercado de trabalho que parece feita sob encomenda para o atual noticiário econômico da grande mídia brasileira, refém dos economistas de bancos e consultores ligados ao mercado financeiro: “o desemprego, como fenômeno massivo e duradouro, é o resultado da política que tem por objetivo manter os salários em um nível superior ao que seria possível nas condições de mercado”.

Em outras palavras, para Mises – assim como para seus asseclas contemporâneos – o xis da questão do desempregoé o alto custo do trabalho para o capital, inflacionado sobretudo por legislações protetivas.

Assim, neste momento de recessão econômica temperada pelo aumento do contingente de pessoas sem ocupação, a narrativa neoliberal tupiniquim promete enxugar os gastos, sanar as contas públicas e reconquistar a confiança do mercado através da flexibilização das leis trabalhistas e do afrouxamento da já precária rede de proteção oferecida pelo Estado, através dos programas sociais.

Em tempo: Mises e companhia limitada constituem a referência teórica que, na década de 1980, fez a britânicaMargaret Thatcher e o americano Ronald Reagan sepultarem o Estado de Bem Estar Social nos países de primeiro mundo. Na Europa, o neoliberalismo sucedeu os chamados “Trinta Gloriosos” – período de três décadas de robusto crescimento econômico com justiça social e distribuição de renda após o término da Segunda Guerra Mundial.

Provavelmente, os “Trinta Gloriosos” representam o período de maior equilíbrio de forças entre capital e trabalho na história da humanidade. Sindicatos fortes e Estado atuante na proteção de direitos trabalhistas e na taxação dos mais ricos explicam essa equação.

Porém, desde o advento do neoliberalismo, a desigualdade na Europa tem crescido violentamente e se aproxima dos níveis da Belle Époque, no fim do século XIX, como o best seller Thomas Piketty não nos deixa esquecer.

Nos Estados Unidos, a concentração de renda atinge níveis escandalosos – apenas 10% da população concentram metade de toda a riqueza nacional. A maior economia do mundo é movida por um contingente cada vez mais expressivo de trabalhadores chamados de “temps” (temporários): uma massa mal remunerada e precarizada, abandonada à negociação direta com seus empregadores e sem qualquer tipo de proteção por parte do Estado.

Por aqui, a moda Mises está começando a pegar. O libera-geral das terceirizações é só o prólogo do filme de terror que aguarda os trabalhadores brasileiros. No afã de se cacifar perante o mercado para o cargo de presidente, o ainda vice Michel Temer já acena com uma pesada reforma trabalhista. Nessa toada, os brasileiros da base da pirâmide social já podem preparar a camiseta: “Mais Mises, menos direitos”.


Fonte: Site IHU Online
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/553607-mais-mises-menos-direitos

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Surpresa nos arquivos do Vaticano. Moscou foi o principal apoio internacional da ditadura de Videla



Acedendo a um pedido formulado há muito tempo pelos organismos de direitos humanos da Argentina, o Papa Francisco anunciou recentemente a decisão de abrir ao público os documentos do arquivo vaticano dos anos da ditadura militar, de 1976 a 1983.

A reportagem é de Claudia Peiró, jornalista do jornal argentino Infobae, e publicada por El País, 04-04-2016. A tradução é de André Langer.

O processo de abertura levará vários meses, mas já foi vazada uma comunicação muito interessante. Trata-se de um informe enviado pelo então núncio vaticano na Argentina, dom Pio Laghi – falecido em 2009 –, às autoridades daSanta Sé. Está classificado com o nº 1510/76 e com data de 13 de julho de 1976 e inclui uma lista de 60 pessoas detidas que o representante da Santa Sé levou a um encontro que manteve com o general Albano Harguindeguy, ministro do Interior da ditadura presidida na época por Jorge Rafael Videla.

A questão significativa é que uma das pessoas por cuja sorte Laghi se interessou e intercedeu junto aos militares éJuan Martín Guevara de la Serna, o irmão mais novo do Che Guevara, um dos milhares de presos políticos que povoavam naquele época as prisões argentinas.

Em 24 de março passado, comemoraram-se os 40 anos da ditadura, e a data não transcorreu sem debate, porque aquele passado está obscurecido pelas rixas do presente. Nesse contexto, os documentos vaticanos são uma dupla contribuição: por um lado, restauram a figura de Pio Laghi que, como aconteceu com o mesmíssimo Jorge Bergoglio – hoje Francisco – foi apelidado de cúmplice da repressão ou, no mínimo, de não ter feito o suficiente.

No fundo, muitos dos pedidos de abertura de arquivos, mais do que averiguar a verdade, jogam suspeitas de conivência sobre determinadas pessoas ou instituições com os crimes da ditadura. Mas cabe assinalar que naArgentina do terror dos anos setenta, o simples fato de solicitar uma audiência com uma autoridade militar para reclamar por um preso ou por um desaparecido já era um ato de ousadia.

A outra contribuição destes documentos é a reconstrução da verdade sobre o contexto geopolítico no qual se deu o golpe de 1976. Enquanto a presença do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na Argentina – sua visita coincidiu com o aniversário do golpe – foi repudiada 40 anos depois por setores de esquerda e organismos de direitos humanos, em nenhum momento foi evocada a cumplicidade do universo comunista soviético com a ditadura argentina.

Por isso, é tão emblemática a presença de Juan Martín Guevara na lista de Pio Laghi. A família do irmão do Chemorava em Cuba durante a ditadura. Seu filho, Martín Guevara, descreveu em “À sombra de um mito” suas vivências naquele exílio cubano, recordando com dor a indiferença de Fidel Castro com a sorte de seu pai preso na Argentina e o silêncio cúmplice do regime castrista diante do massacre de tantos militantes revolucionários na Pátria do Che. Seus amigos na escola cubana lhe perguntavam por que estava exilado se em seu país não havia ditadura, a tal ponto chegava a censura castrista sobre a denúncia do terrorismo de Estado argentino.

Os motivos desta conduta devem ser buscados na absoluta dependência – econômica, política e militar – em queCastro colocou Cuba em relação à União Soviética, naquela época a principal compradora de grãos da Argentina.Moscou foi o principal apoio internacional da ditadura de Videla. Estes fatos não são nenhum segredo. Foram silenciados por aqueles que olham a realidade com o prisma deformante da ideologia.

Não apenas Cuba, mas quase todo o Movimento de Países Não Alinhados – contradizendo sua denominação – se alinhou com a geopolítica soviética e protegeu a ditadura argentina de possíveis condenações por parte da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. Concretamente, nunca foi possível enviar uma missão desse organismo àArgentina para verificar in situ as denúncias de torturas, campos de concentração e execuções secretas porque Videlae seu regime contaram sempre com o voto de Havana e demais satélites soviéticos.

Portanto, é muito provável que, assim como a abertura de documentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos mostrou que, sob a presidência de Jimmy Carter (1977-1981), aquele país se interessou e intercedeu por muitas vítimas da ditadura argentina, também a abertura de arquivos vaticanos contribua para a reconstrução de um quadro muito mais próximo da verdade em relação a quais foram os verdadeiros apoios internos e externos do regime militar argentino.




Fonte: Site IHU Online

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/553304-surpresa-nos-arquivos-do-vaticano-moscou-foi-o-principal-apoio-internacional-da-ditadura-de-videla