terça-feira, 28 de junho de 2016

“Nenhum Papa foi tão longe na condenação ao capitalismo como Francisco”. Entrevista com Michael Löwy



O papado de Francisco continua a alvoroçar o catolicismo e a opinião pública mundiais, num pontificado que, ao lado da promessa de fomento à “opção pelos pobres”, tem ousado fazer críticas às engrenagens de um capitalismo em crise em níveis bem acima do esperado. Para discutir o papel daquele que muitos consideram o maior líder político da atualidade, o Correio da Cidadania, 21-06-2016, entrevistou o filósofo franco-brasileiro Michael Löwy, estudioso daTeologia da Libertação.

“Obviamente, ele pretende levar a sério o compromisso da Igreja com os pobres, suprimir os vínculos dos bancos do Vaticano com a máfia e tentar reduzir o poder conservador da Cúria Romana. Sua tentativa de elaborar uma concepção um pouco mais aberta da família e da sexualidade foi diluída pelo Sínodo dos Cardeais... Há muitas resistências. Parece que os setores mais reacionários da Igreja têm uma prece especial sobre Bergoglio: ‘Nosso Pai que está no Céu, ilumine-o ou... Elimine-o’”, pontuou.

Ao mesmo tempo em que reconhece o papel e importância do novo papado, Löwy contrabalança parte da visão otimista que existe hoje relativamente às posturas de Francisco. Não por conta da polêmica em relação à ditadura argentina, mas por ponderar que a crítica ao capitalismo e aos modos de acumulação fazem parte da tradição da Igreja. O filósofo faz questão, de toda forma, de ressaltar, que "a esquerda deve tratar com respeito as convicções religiosas e considerar os militantes cristãos de esquerda como parte essencial do movimento de emancipação dos oprimidos. A teologia da libertação nos ensina também a importância da ética no processo de conscientização e a prioridade do trabalho de base”.

Na entrevista, Löwy também comenta o encontro do Papa em Havana com o patriarca Kiril, líder da Igreja Ortodoxa russa, e avalia a possibilidade de união entre as três grandes religiões monoteístas frente ao capitalismo, entre outras observações que podem ser lidas na íntegra a seguir.

Eis a entrevista.

Quem é Papa Francisco? O que pretende?


Gostaria, antes de responder sua pergunta, de homenagear a memória do fundador do Correio da Cidadania, meu querido amigo e companheiro de lutas Plínio de Arruda Sampaio, um cristão socialista comprometido com a luta do povo brasileiro por sua emancipação, um adversário intransigente da ditadura militar, do latifúndio, do imperialismo e do perverso sistema capitalista. Sua vida foi um exemplo de coerência ética e política, de dignidade e de coragem.

Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, não era considerado um homem de esquerda. Seu comportamento durante a ditadura militar argentina é um exemplo de "pecado por omissão": não apoiou e tampouco se opôs ao regime. Não é, portanto, surpreendente que tenha sido eleito Pontifex Maximum pelo mesmo conclave que havia eleito Ratzinger - Bento XVI - pouco tempo antes.

Entretanto, apenas eleito, surpreendeu por uma sucessão de iniciativas corajosas, a começar pela visita à Lampedusa, para denunciar o tratamento dado pela Europa aos refugiados (muçulmanos em sua maioria). Em relação à teologia da libertação, sua atitude é radicalmente distinta da dos dois pontífices anteriores: Gustavo Gutierrez foi convidado ao Vaticano e o processo de canonização de Monsenhor Romero, aberto. Se lemos atentamente asEncíclicas de Bergoglio, percebe-se a influência de uma corrente importante do catolicismo da Argentina: a teologia da libertação não-marxista, representada por pensadores como Juan Carlos Scannone.

Obviamente, ele pretende levar a sério o compromisso da Igreja com os pobres, suprimir os vínculos dos bancos do Vaticano com a máfia e tentar reduzir o poder conservador da Cúria Romana. Será que conseguirá? Sua tentativa de elaborar uma concepção um pouco mais aberta da família e da sexualidade foi diluída pelo Sínodo dos Cardeais... Há muitas resistências. Parece que os setores mais reacionários da Igreja têm uma prece especial sobre Bergoglio: "Nosso Pai que está no Céu, ilumine-o ou... Elimine-o".

A encíclica Laudato Si ataca frontalmente o sistema capitalista. O que isto significa vindo de um Papa?

Bergoglio não é marxista e a palavra “capitalismo” não aparece na Encíclica. Mas fica muito claro que para ele os dramáticos problemas ecológicos de nossa época resultam das “engrenagens da atual economia globalizada”, engrenagens que constituem um sistema global, “um sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso”.

Quais são, para Francisco, estas características “estruturalmente perversas”? Antes de tudo, é um sistema no qual predominam “os interesses ilimitados das empresas” e “uma discutível racionalidade econômica”, uma racionalidade instrumental que tem por único objetivo aumentar o lucro. Para o Papa, esta perversidade não é própria de um país ou outro, mas de "um sistema mundial, onde predominam a especulação e o princípio de maximização do lucro, e uma busca de rentabilidade financeira que tende a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e o meio ambiente. Assim, se manifesta a íntima relação entre degradação ambiental e degradação humana e ética".

A obsessão do crescimento ilimitado, o consumismo, a tecnocracia, o domínio absoluto da finança e a divinização do mercado são outras características perversas do sistema. Em sua lógica destrutiva, tudo se reduz ao mercado e ao “cálculo financeiro de custos e benefícios”. Mas sabemos que “o meio ambiente é um desses bens que os mecanismos de mercado não são capazes de defender ou de promover adequadamente”. O mercado é incapaz de levar em conta valores qualitativos, éticos, sociais, humanos ou naturais, isto é, “valores que excedem cálculos”.

O poder “absoluto” do capital financeiro especulativo é um aspecto essencial do sistema, como revelou a recente crise bancária. O comentário da Encíclica é contundente: “a salvação dos bancos a todo custo, fazendo a população pagar o preço, confirma o domínio absoluto das finanças que não têm futuro e só pode gerar novas crises, depois de uma longa, custosa e aparente cura".

Sempre associando a questão ecológica e a questão social, Francisco constata: "a mesma lógica que dificulta tomar medidas drásticas para inverter a tendência ao aquecimento global é a que não permite cumprir com o objetivo de erradicar a pobreza". Existe uma longa tradição de crítica do capitalismo liberal, ou dos "excessos " do capital na Igreja Católica. Mas nenhum Papa foi tão longe nesta condenação como Francisco.

Em 12 de fevereiro, Papa Francisco e o e o Patriarca Kirill, encontraram-se em nome de suas igrejas quase 1.000 anos após o cisma, em Cuba, e assinaram um documento que contém este texto: “O nosso encontro fraterno teve lugar em Cuba, encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. A partir desta ilha, símbolo das esperanças do “Novo Mundo” e dos acontecimentos dramáticos da história do século XX, dirigimos a nossa palavra a todos os povos da América Latina e dos outros continentes”. Um “Novo Mundo” na visão dos dois líderes religiosos é um mundo socialista?

Francamente, não atribuo tanta importância a este encontro, que tem mais a ver com a diplomacia das relações inter-religosas do que com a revolução cubana... O "Novo Mundo" de que falam não é o "mundo socialista", mas simplesmente o continente americano, designado há séculos como "Novo Mundo". O conceito de "socialismo" não faz parte do vocabulário de nenhum do dois líderes religiosos.

O que a Teologia da Libertação tem a ensinar para a esquerda mundial, considerando suas diferentes correntes de pensamento?
Em primeiro lugar, ela nos ensina que a religião pode ser outra coisa, diferente de simples "ópio do povo". Aliás, Marxe Engels já haviam previsto a possibilidade de movimentos religiosos com uma dinâmica anticapitalista. A esquerda deve tratar com respeito as convicções religiosas e considerar os militantes cristãos de esquerda como parte essencial do movimento de emancipação dos oprimidos. A teologia da libertação nos ensina também a importância da ética no processo de conscientização e a prioridade do trabalho de base, junto às classes populares, em seus bairros, igrejas, comunidades rurais e escolas.

Uma unidade política de caráter anticapitalista e anti-imperialista entre as grandes religiões monoteístas (Cristã, Judaica e Islã) é possível no ponto de vista de alguns teólogos e mais, fundamental para superar o capitalismo em escala global. O que pensa sobre isso? É possível superar o capitalismo sem esta unidade?

Não acredito em unidade anticapitalista das "grandes religiões monoteístas"... O que pode existir é uma convergência ecumênica entre correntes progressistas, anticapitalistas, anti-imperialistas, ecologicamente conscientes, em todas as religiões, não só as três que menciona. Por exemplo, o budismo, o hinduísmo, religiões africanas, umbanda, candomblé, religiões indígenas das Américas etc. Já existem redes progressistas, como a Associação de Teólogos do Terceiro Mundo, que é ecumênica. Não sei se superar o capitalismo sem esta convergência é possível ou não, mas ela é uma contribuição importante para a conscientização de amplas camadas populares.

A igreja católica no Brasil está alinhada ao Papa Francisco?

Boa parte dos bispos da CNBB está alinhada com Francisco. Alguns até gostariam que ele fosse mais longe. Outros, pelo contrário, acham que ele está colocando em perigo a doutrina da fé e tentam colocar obstáculos para suas propostas. Mas a Igreja brasileira, apesar de seus limites, em particular no que concerne ao direito das mulheres sobre seu corpo - divórcio, contracepção, aborto - é uma das mais progressistas do mundo católico.

Objetivamente, Papa Francisco tem condições de criar uma unidade internacional de caráter progressista para enfrentamento ao capitalismo?

Não! Nem objetivamente, nem subjetivamente. O Papa não se coloca tarefas deste tipo! Para enfrentar o capitalismo necessitamos da unidade internacional dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos indígenas, dos explorados e oprimidos, que são a esmagadora maioria da humanidade. O Papa poderá, eventualmente, contribuir para uma tomada de consciência social e ecológica de um amplo setor dos fieis católicos. Já é muito!

A “Opção Preferencial pelo Pobre”, conjunto de ideias e ações práticas contrárias à lógica da acumulação e retenção de capital do atual sistema político e econômico, se colocadas plenamente em prática resultará em confrontos violentos. Como se posicionará o Papa neste cenário, em sua avaliação?

A Igreja, tradicionalmente, busca "evitar" os confrontos violentos. Mas na Conferência de Medellín dos bispos latino-americanos, em 1968, foi adotada uma resolução importante que reconhece o direito de insurreição do povo contra tiranias e estruturas opressivas. Como sabemos, alguns membros do clero levaram sua opção libertária e seu compromisso com a luta dos pobres até as últimas consequências, participando de movimentos armados de emancipação.

Foi o caso de Camilo Torres na Colômbia, que resolveu aderir ao Exército de Libertação Nacional e foi morto em combate em 1966. Poucos anos depois, um grupo de jovens dominicanos deu seu apoio à ALN, dirigida por Carlos Marighella, no combate contra a ditadura militar. E nos anos 1970, os irmãos Cardenal e vários outros religiosos participaram da Frente Nacional de Libertação da Nicarágua. É difícil prever, no momento atual, que tipo de "confrontos violentos" se darão contra o sistema capitalista, e menos ainda qual será a posição do Papa Francisco frente a uma situação deste tipo.

Mudando de assunto, mas para não deixar escapar a oportunidade, como você enxerga o atual momento político brasileiro? Que desfecho gostaria que a crise política, econômica, social e ética tivesse?
Vejo a conjuntura brasileira atual com muita preocupação. Tenho muitas críticas ao governo de Dilma Rousseff, fez demasiadas concessões ao capital financeiro, aos bancos, aos latifundiários e tomou várias medidas opostas aos interesses das classes populares. Por outro lado, não posso deixar de manifestar um repúdio categórico à aprovação do processo de impeachment que afastou a presidente, um verdadeiro golpe de Estado pseudo-legal.

É uma verdadeira farsa tragicômica o que acaba de se passar no Congresso: uma quadrilha de gângsteres políticos, comprometida com os escândalos de corrupção, derruba a presidenta democraticamente eleita - um dos poucos políticos não acusados de corrupção, - por supostas "irregularidades administrativas". Tudo isso em nome de "Deus", da "Pátria", da "Família", se escondendo atrás da bandeira nacional. Sem falar nos adeptos da ditadura militar e dos métodos de tortura do coronel Ustra. Uma vergonha!

É triste ver como o Partido dos Trabalhadores, que em sua origem tinha uma grande coerência ética e política, acabou sendo envolvido no escândalo da Petrobras. Mas ele está longe de ser o único! É absurdo pretender, como o faz a média conservadora, que o PT tem o monopólio da corrupção: os principais dirigentes da oposição, a começar pelo famigerado Eduardo Cunha - e dezenas de outros, do PSDB, do PMDB, do PP etc. - estão comprometidos com o "assunto".

Minha esperança é que a Frente Brasil Popular, que inclui partidos de esquerda e movimentos sociais, consiga seus objetivos: ao mesmo tempo impedir o golpe e obrigar o governo de Dilma a romper com as políticas neoliberais. Só uma ampla mobilização do povo brasileiro, dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos negros, de todos os explorados e oprimidos, poderá por um fim à tentativa da oligarquia reacionária de tomar o poder e acabar com a democracia no Brasil.

Minhas simpatias vão ao Partido do Socialismo e da Liberdade (PSOL), um dos poucos a não estar comprometido com Lava Jatos e outras ignomínias; ele é, a meu ver, o digno herdeiro do que de melhor havia no PT das origens, quando ainda se propunha a acabar com o grande inimigo dos trabalhadores e da democracia: o sistema capitalista.


Fonte: IHU Online
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/556989-nenhum-papa-foi-tao-longe-na-condenacao-ao-capitalismo-como-francisco

domingo, 12 de junho de 2016

Manifestantes de esquerda quebram crucifixo no Chile


Arcebispo condena profanação de crucifixo no Chile
Crucifixo foi retirado da Igreja "Nacional
Gratitude", em Santiago - AP

Santiago (RV) – Uma “dolorosa profanação”. Assim o Cardeal Arcebispo de Santiago, Dom Ricardo Ezzati Andrello, definiu o episódio ocorrido durante uma manifestação estudantil em Santiago do Chile, na tarde de quinta-feira, quando encapuzados entraram na Igreja "Gratitud Nacional", administrada pelos salesianos, e retiraram um crufixo em tamanho natural, levando-o para a rua. A imagem de Jesus, em gesso, foi destruída pelos manifestantes.

Respeito recíproco

Um gesto que suscitou a indignação do Arcebispo de Santiago, Cardeal Ricardo Ezzati Andrello, que afirmou em um comunicado que o fato recordava a ele “momentos históricos da vida do país, como por exemplo a celebração da oração pelo Chile em 1973. Hoje – deste mesmo lugar – reafirmo uma preocupação profunda. A de reconstruir o diálogo e a paz na nossa sociedade”.

“Estes fatos violentos que, infelizmente, ocorrem cada vez com maior frequência – avalia o Arcebispo, citado pela Agência SIR – evidenciam uma crise da consciência nacional”.

Com humildade e serenidade, afirmou, “peço àqueles que estão realizando este tipo de ações para refletir sobre a necessidade de existir um recíproco respeito para todos nós”.

Ir às causas profundas da injustiça social

Em segundo lugar, o Cardeal Ezzati dirige “um apelo a toda a comunidade nacional para que se reflita seriamente sobre quais sejam as causas mais profundas desta desconfiança e deste clima de violência”.
“Certamente existem causas profundas, que devemos levar em consideração e discernir – sublinha o purpurado. No Chile existem situações de injustiça social que não deveriam existir”.

Solidariedade e busca do bem comum
“Façamos um esforço para voltar a dialogar sobre nossa vida comum – conclui o purpurado. Penso que dentro de um espírito de solidariedade e busca do bem comum, estas injustiças poderão ser gradualmente superadas”.

Os párocos da cidade, por sua vez, além dos salesianos, sublinharam a necessidade de uma maior proteção para as Igrejas da cidade. (JE).







Fonte: Radio Vaticana/ Blog do Gari Martins da Cachoeira
http://martinsogaricgp.blogspot.com.br/2016/06/manifestantes-de-esquerda-quebram.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+BlogDoGariMartinsDaCachoeira+(Blog+do+Gari+Martins+da+Cachoeira)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A teoria econômica do Papa Francisco: mais Polanyi, menos Marx



Daria algumas manchetes bastante surpreendentes se o Papa Francisco se revelasse marxista. Entre as suas pistas de reabilitação da teologia da libertação – condenada pelos seus antecessores – e seus discursos sobre recusar "as estruturas econômicas e sociais que nos escravizam", o marxismo não está totalmente fora de questão.

A reportagem é de Heather Horn, publicada na revista The Atlantic, 26-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas, felizmente para os nervosos líderes da Igreja, a primeira Exortação Apostólica de Francisco, divulgada nessa terça-feira, não chega a sugerir um homem que receberia "Marx" como resposta em um quiz online do estilo "Qual teórico econômico você é?". Com certeza, ele também não receberia como resposta Friedrich von Hayek ou Ayn Rand, exatamente.

Mas você sabe com quem ele plausivelmente poderia ser equiparado, entretanto? Com um economista político favorito dos acadêmicos anti-livre mercado: Karl Polanyi.

Karl Polanyi é mais famoso pelo seu livro A grande transformação e particularmente por uma ideia nesse livro: a distinção entre uma "economia que está incorporada nas relações sociais" e "relações sociais que estão incorporadas no sistema econômico".

A grande ideia de Polanyi: a economia deve servir à sociedade, e não o contrário

A atividade econômica, diz Polanyi, começou simplesmente como um dos muitos resultados da atividade humana. E, portanto, a economia servia originalmente às necessidades humanas. Mas com o tempo as pessoas (especialmente as pessoas que formulam as políticas) tiveram a ideia de que os mercados se regulamentariam se as leis e as regulações abrissem caminho. Os convertidos ao livre mercado disseram às pessoas que "só terão validade as políticas e as medidas que ajudem a assegurar a autorregulação do mercado, criando condições para fazer do mercado o único poder organizador na esfera econômica".

Aos poucos, enquanto o pensamento baseado no livre mercado se estendia por toda a sociedade, os seres humanos e a natureza passaram a ser visto como mercadorias denominadas "trabalho" e "terra". A "economia de mercado" transformou a sociedade humana em uma "sociedade de mercado".

Em suma (enquanto os professores das ciências sociais se preparam para bater a cabeça nas suas mesas com o meu reducionismo), em vez de o mercado existir para ajudar os seres humanos a viverem uma vida melhor, os seres humanos ordenam as suas vidas para se encaixarem na economia.

O que o Papa Francisco disse

Agora, de volta ao papa. O Papa Francisco, na sua exortação, notavelmente não pede uma completa revisão da economia. Ele não fala de revolução, e certamente não há nenhuma conversa marxista sobre inexoráveis forças históricas.

Ao contrário, Francisco denuncia, especificamente, toda a regra do mercado sobre os seres humanos – não a sua existência, mas sim a sua dominação.

"Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte", escreve. "O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois jogar fora", e "o ser humano é reduzido apenas a uma das suas necessidades: o consumo".

Ele rejeita a ideia de que "o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo". Em vez disso, argumenta ele, a desigualdade crescente "provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira", que "negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum". E ele repete a exata linguagem que ele usou em um discurso anterior: "O dinheiro deve servir, e não governar!".

Já conseguem ver as semelhanças?

Polanyi, o papa e a culpa do mercado pelas grandes crises

As coisas começar a ficar realmente interessantes quando o Papa Francisco traz à tona a crise financeira. "Uma das causas dessa situação", escreve, "está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano".

Não há nada de novo em dizer que a crise financeira veio de uma falta de regulação. Essa é uma análise bastante popular. Mas o que o Papa Francisco está dizendo é mais polanyiano, remetendo à ideia de que o ponto de inflexão tem a ver com a relação entre o mercado e a sociedade/humanidade, e uma coisa está subordinada à outra. Assim como Polanyi argumentou que a extensão da economia de mercado em todo o globo (através do padrão-ouro) foi a causa da Primeira Guerra Mundial (e você terá que retomar o livro original para entender isso), Francisco está argumentando que o fato de não manter a humanidade no centro da nossa atividade econômica foi a causa da crise financeira.

Uma visão de futuro

Uma das partes complicadas e cruciais do argumento de Polanyi é que ele realmente não acredita (ao menos nos anos 1940, quando ele estava escrevendo) que nós estamos vivendo em um mundo onde a economia se tornou totalmente desenraizada da sociedade. Essa "Utopia", escreve ele, pela qual muitos teóricos econômicos e políticos estão tolamente se esforçando, "não poderia existir em qualquer tempo sem aniquilar a substância humana e natural da sociedade; ela teria destruído fisicamente o homem e transformado seu ambiente em um deserto".

O Papa Francisco tem uma visão igualmente sombria da sobrevivência global diante do capitalismo sem controle: "Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta".

Então, qual é a saída? Na época em que o livro de Polanyi foi publicado, ele estava apostando que a resposta era a social-democracia, desde que os governos trabalhassem juntos internacionalmente. E você sabe o quê? Isso se aproxima muito daquilo que o papa também exorta. Ele não acha que isso possa ser resolvido com a caridade pessoal:

O crescimento equitativo […] requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição das entradas, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Longe de mim propor um populismo irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a remédios que são um novo veneno […] Temos de nos convencer que a caridade 'é o princípio não só das microrrelações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos'. […] Todo ato econômico de uma certa envergadura, que se realiza em qualquer parte do planeta, repercute-se no mundo inteiro, pelo que nenhum Governo pode agir à margem duma responsabilidade comum. Na realidade, torna-se cada vez mais difícil encontrar soluções a nível local para as enormes contradições globais, pelo que a política local se satura de problemas por resolver. Se realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento da história, de um modo mais eficiente de interação que, sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar econômico a todos os países e não apenas a alguns.

Os paralelos não são perfeitos. Polanyi tem algumas ideias sobre o fato de que os Evangelhos ignoram a realidade social, com as quais o papa poderia não concordar. Mas, por enquanto, ao menos, Polanyi certamente parece se encaixar mais com o papa do que Marx. E o papa e Polanyi têm isto em comum: agora, ambos são surpreendentemente populares em câmpus universitários liberais.

Se você encontrar uma foto de Sua Santidade lendo A grande transformação no ônibus, nos avise.




Fonte: IHU Online

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/526158-a-teoria-economica-do-papa-francisco-mais-polanyi-menos-marx